ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Com Helena Ignez e Djin Sganzerla, peça une textos de Shakespeare que tiram o sono dos assassinos

Em 'Insônia - Titus Macbeth’, André Guerreiro Lopes cruza as duas tragédias em uma instalação sonora

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2019 | 15h21

Quando estreou Chekhov É Um Cogumelo, em 2017, o diretor André Guerreiro Lopes revisitou a histórica montagem de As Três Irmãs, de Zé Celso, para conceber uma espetáculo movido pelo pensamento. De certa forma, a viagem psicodélica do Teatro Oficina impulsionou a investigação mística na versão adaptada por Lopes. 

Estreia na sexta, 13, uma certa continuidade desse trabalho, ao menos na linguagem, por parte do diretor. Em Insônia: Titus Macbeth, ele se une à Helena Ignez e Djin Sganzerla, também presentes no Cogumelo, para inspecionar o universo sombrio e sangrento da conspiração política no universo shakesperiano.

O alvo são dois textos do bardo repletos de singularidades. Enquanto Tito Andrônico é saturado de cenas de violência, Macbeth desperta o sabor do conluio e da traição política. “É interessante pensar que Tito representa um mundo já desumanizado. Os homens não escondem o ódio e estão sempre sedentos pela violência. No caso de Macbeth, esse desejo vil ainda está envolvido em uma trama, justificado por forças sobrenaturais e feito às escondidas. Em Tito, as cenas de violência são explícitas. Não é o caso de Macbeth, em que os assassinatos estão fora da cena principal”, explica.

Anterior a Macbeth, Tito Andrônico é considerado um texto inferior, em comparação às demais tragédias do bardo. “Há um certo exagero na peça”, conta Lopes. O espírito impetuoso de um general da Roma Antiga faz da história a mais sangrenta das peças de Shakespeare. Ao regressar vencedor da guerra contra os godos, Tito recusa-se a ocupar o posto de imperador, atraindo muito sangue na disputa pelo trono. Inclua no texto cenas de decapitação, mutilação, estupro e canibalismo.

Conta-se que na montagem do diretor inglês Peter Brook, em 1955, uma ambulância ficou estacionada ao lado do teatro para o caso de atender os espectadores mais sensíveis. Por outro lado, a peça desperta outro tipo de interesse em Lopes. “O texto possui muitas lacunas e um ritmo semelhante aos textos modernos.”

O mesmo não ocorre em Macbeth, peça celebrada no mundo todo entre as principais criações de dramaturgo. Inspirada nos contos e lendas das Ilhas Britânicas, a obra contribuiu para a maturidade de seu autor, na construção de um texto instigante. Ao contrário da violência exacerbada praticada por Tito, o general de Macbeth se concentra na conspiração com sua esposa, Lady Macbeth, para assassinar o rei Duncan. Os corpos também vão cair, mas quase sempre eles não são vistos, apenas narrados. E é  na escuridão da noite que as bruxas confessam seus segredos para uma Lady sedenta de poder. “Macbeth traz o nascimento do caos, a sua gestação, quando ainda é preciso mentir e enganar. Em Tito, essas máscaras não são mais necessárias", ressalta o diretor.

No cruzamento das duas tragédias, o espaço cênico do Sesc Avenida Paulista recebe uma instalação sonora que pretende despertar o silêncio presente na vingança das personagens. Na concepção sonora de Gregory Slivar, é preciso estar atento: os objetos da cena retomam seus aspectos mais imanentes, vibrando com seus sons característicos, explica o diretor. “Instalamos microfones de contatos espalhados pelos cenários que ajudam a amplair a vibração, quando manipulados pelo elenco. O público vai ouvir o barulho provocado pelo manuseio de pedras e água, por exemplo.”

Ao adentrar o espaço, o público é livre para circular e contemplar a dupla narrativa. Helena Ignez interpreta o general romano e a filha, Djin, faz a vez de Lady, ao lado do elenco de Michele Matalon, Samuel Kavalerski, Dirceu de Carvalho e Camila Bosso. 

Serviço. Insônia - Titus Macbeth. Sesc Avenida Paulista. Avenida Paulista, 119. Tel.: 3170-0800. 5ª, 6ª, sáb., 21h, dom., 18h. R$ 20 / 10. Estreia hoje, 13. Até 20/10.  

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.