NILTON FUKUDA/ESTADÃO
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Com estreia no Teatro Oficina, 'O Julgamento Secreto de Joana D'Arc' retrata prisão da mártir

Montagem com 17 artistas em cena retoma os últimos quatro meses de vida da santa guerreira

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2018 | 06h00

Todos os anos, a cidade francesa de Orleans elege uma jovem católica que simbolizará a mártir e santa guerreira Joana D’Arc nos comemorativos que relembram o conflito contra os britânicos ocorrido em 1429, durante a Guerra dos Cem Anos. Neste ano, a tradição não agradou a todos. A moça escolhida irritou os franceses por “não parecer fisicamente com a santa”, lembra a atriz Silmara Deon, que visitou a cidade e vive o papel de guerreira no espetáculo O Julgamento Secreto do Joana D’Arc, que estreou na quinta, 26, no Teatro Oficina. 

De origem africana e polonesa, a jovem de 17 anos escolhida para a cerimônia realizada no mês de abril foi vítima de ataques racistas, o que provocou debate político sobre imigração no país. “O mais estranho é que não há registros que comprovem como Joana era fisicamente. As reações extremas se apoiam na representação feita pela Igreja Católica. A mesma que um dia a condenou à morte”, lembra a atriz. 

Silmara também não se parece fisicamente com a heroína, e, apesar de sua idade também ser incompatível com a personagem, não viu problemas para interpretar a célebre figura histórica tão retratada nas artes, no cinema, na literatura, na música e nos palcos. No Brasil, já foi vivida por Christiane Torloni em Joana Dark – A Re-Volta (2000). “Lembro que a montagem tinha foco no aspecto feminino e humano de uma mulher que enfrentou instituições sagradas e comandadas por homens.” 

Nascida em 1412, a donzela de Orleans liderou 4.000 homens contra a ocupação britânica na França. Vestida com roupas de soldado, a jovem dizia ter recebido um chamado divino para libertar seu país e levar o rei Carlos VII ao trono. Capturada em 1430 por aliados dos ingleses, foi condenada, entre outras coisas, por usar roupas militares em vez de vestido. Foi queimada viva aos 19 anos. Para a atriz, a rebeldia da mártir encontra paralelo nos tempos de hoje quando as mulheres estão sujeitas a diversos tipos de violência. “Há uma parte da história que narra uma garota analfabeta, frágil e ingênua, que estava apoiada em suas visões religiosas. Aqui, tentamos não desqualificar o ideal de sua missão, mas reforçamos a determinação e liderança da jovem.”

Peça tem 17 artistas em cena

Arquitetura do teatro de Lina Bo Bardi abriga julgamento da mártir com canções inéditas e música ao vivo 

Apesar do protagonismo de Joana D’Arc, interpretada por Silmara Deon, a atriz não está sozinha. O Julgamento Secreto de Joana D’Arc traz também mais 16 artistas em cena, e seria difícil caber em moldes mais tradicionais do teatro, como o palco italiano. Por outro lado, a montagem é desafiada pela grandiosidade e importância do Teatro Oficina. Com texto de Aimar Labaki e direção de Fernando Nitsch, a peça teve de se adaptar a cada cantinho do teatro arquitetado por Lina Bo Bardi. “Não adiantaria chegar aqui e querer montar a peça”, diz o diretor. “O respeito e a relevância do Oficina nos provocam a pensar como contar essa história de resistência, tendo uma mulher como protagonista, diante da força das instituições.”

Com um elenco masculino que se divide entre os oficiais de guerra e religiosos, o destaque está mesmo no coro de mulheres e nas canções musicadas por Miguel Briamonte. “Queríamos que Joana estivesse acompanhada. Essas mulheres podem ser as vozes divinas que ela dizia ouvir assim como um exército feminino, o que equilibra a cena. Se o discurso e o verbo estão com os religiosos, o grupo de Joana reúne forças mais poéticas, de liberdade”, explica Nitsch. 

Para ele, o julgamento oferecido à mártir francesa, condenada a ser queimada viva, se repete, de outras formas, nos tempos de hoje. “O tribunal passa a servir como uma cerimônia, a representação de uma decisão que já foi dada. No caso de Joana, foi importante entender que seu sacrifício fez sentido como uma tomada de consciência.”

O JULGAMENTO SECRETO DE JOANA D’ARC. Teatro Oficina. R. Jaceguai, 520. Tel.: 2122-4070. 4ª, 5ª, 20h. R$ 50 / R$ 25. Estreou ontem, 26. Até 20/9.

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