Heloiza Bortz
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Com ação na rua, ‘Ritos de Perpassagem’, de Flo Menezes, estreia no Teatro São Pedro

Com Pitágoras como referência, espetáculo tem futebol no palco ao mesmo tempo em que mistura influências diversas

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado

26 de setembro de 2019 | 18h35

A ação começa na rua. Dentro do teatro, a plateia pode ser o palco, o foyer pode ser a plateia. É ópera, mas com o desafio de repensar a ópera. É música, mas com o objetivo muito claro de apontar para o novo – e para o prazer da descoberta.

Assim Ritos de Perpassagem, de Flo Menezes, sobe nesta sexta-feira, 27, ao palco do Teatro São Pedro. O compositor é sinônimo de invenção na cena musical brasileira. E, ao ser convidado para escrever uma ópera, não fugiu à regra de seu trabalho, pronto para implodir as convenções do gênero, construídas ao longo de 400 anos de história: esqueçam árias, duetos, amores frustrados, cenas de vingança ou de loucura.

“A primeira coisa que me perguntei foi: o que significa compor uma ópera hoje? E se você aceita o convite, então aceita o desafio de fazê-lo com um sentido inovador, buscando o novo, que é o norte da arte. A ciência trabalha com a descoberta. Mas a arte, não, ela trabalha com a invenção. A gente inventa, para descobrir depois”, explica Menezes.

Ópera é a mistura de todas as artes. Mas Menezes começou seu trabalho tentando entender como se dá a relação entre elas. “Encontre cinco elementos fundamentais: indumentária, iluminação, cenografia, texto e música. Mas com uma característica especial. As únicas coisas realmente necessárias são a música e o texto. Três quintos do espetáculo são arbitrários.”

Menezes quer dizer que, quando uma ópera do chamado grande repertório sobe ao palco, é comum que texto e música, sempre os mesmos, ganhem nova roupagem por meio de produções que ambientam a história em novos cenários ou contextos históricos. “Três quintos, portanto, são arbitrários, mas ao mesmo tempo responsáveis muitas vezes por fazer a ópera se renovar. De qualquer forma, um tipo de espetáculo em que mais da metade de seus componentes é arbitrária, variável é um tipo de espetáculo problemático em sua essência. O que pensei em fazer, portanto, foi em amarrar da maneira possível todos esses elementos. Há liberdade de criação, claro, mas penso os elementos visuais como necessários e já os indico na partitura”, afirma o compositor.

Chamar a ópera de uma “arte problemática” já é suficiente para deixar muito amante dela de cabelo em pé. Mas calma. A história do gênero sempre ganhou com propostas de ruptura. E a ideia de Menezes é essa mesmo, contando com a ajuda de Pitágoras como personagem central, em diálogo com Freud, Fernando Pessoa, Marx, Augusto de Campos – e séculos de filosofia.


 

Ópera forma mosaico sonoro e de texto 

O assunto é ópera, mas primeiro uma definição científica. Neutrinos são partículas que viajam quase à velocidade da luz e atravessam, aos bilhões, todos os corpos. Sugerem, portanto, se a filosofia entra na mistura, uma presença constante, que ultrapassa a ideia de tempo (ou evoca para ele um outro sentido), e nos define. Como uma ideia, ou conjunto de ideias, influencia tudo o que fazemos, sem que necessariamente percebamos esse processo.

É aí que entra Pitágoras, filósofo e matemático grego. “É como se Pitágoras fosse visto por mim como um neutrino, um neutrino da história da humanidade, viajando, porém lentamente, e interagindo com quase tudo: física, música, cosmologia, política, ética, religião e filosofia”, explica o compositor Flo Menezes, que estreia nesta sexta, 27, em São Paulo, sua ópera Ritos de Perpassagem

Assim, a ópera não narra necessariamente uma história, “mas uma situação filosófica humana, que atravessa os séculos, que é o pitagorismo”. “Ele cantou a bola e deu o chute inicial para diversos campos. E influenciou a história da humanidade inteira. Arrisco-me a dizer que Pitágoras influenciou mais a humanidade do que Cristo”, completa.

A metáfora futebolística estará sobre o palco a certa altura do espetáculo. Não só. “Quebro tabus e revoluciono a ópera sob vários aspectos: simultaneidade de cenas; transmigração de personagens para vozes e sexos distintos; existência de personagens-som; não há nem início nem fim, tampouco intervalo da ópera: a ópera extravasa a arquitetura do teatro e o tempo de concerto. Há narrador: a ópera é também oratório; há eletrônica; há até música acusmática; cena de absoluto silêncio; há jogo e participação do público”, diz ainda Menezes.

O próprio compositor assina o libreto, ou seja, o texto da ópera. “Trata-se de um mosaico cuidadosamente costurado por mim em nove línguas em torno do pitagorismo, com autores que vão de Pitágoras a Anaxágoras, e a Roland Barthes, Fernando Pessoa, Augusto de Campos e outros. Episódios de vida do início do pitagorismo – Pitágoras – e de seu considerado ‘fim’ – Johannes Kepler – entrelaçam-se, como os fios da teia de aranha que aprisiona e suspende Aracne na última cena, em que entrelaço Ovídio, Santo Agostinho e Roland Barthes: uma suspensão da própria escritura – por mal sermos compreendidos no capitalismo e muito menos ainda na atual era neofascista, mas também porque, se as coisas continuam a ser o que são, nós, artistas e filósofos, estamos sempre com os nossos pés um pouco acima do chão”, explica também.

A ópera será interpretada, além da orquestra do Teatro São Pedro, pelos cantores do grupo alemão Neue Vocalsolisten, pelo Grupo de Percussão da Unesp (Piap), pelo Studio PANaroma (da Unesp, dirigido por Menezes) e pelo Coro Contemporâneo de Campinas, com regência de Ricardo Bologna e direção cênica de Marcelo Gama.

Músicos e público estarão em contato próximo desde a chegada ao teatro – e, se assim quiserem, membros da plateia poderão até mesmo receber maquiagem. É nessa quebra de limites que reside outro aspecto da obra. O ser humano, diz Menezes, cria limites, regras, para depois ultrapassá-los. Nessa quebra está justamente um dos papéis da arte – e nesse sentido, Ritos de Perpassagem é um tipo de espetáculo que propõe uma investigação a respeito da condição humana. Ópera.


GLOSSÁRIO

Neutrin Ópera: Assim Flo Menezes define sua obra, estabelecendo paralelo entre música, as ideias de Pitágoras e os neutrinos,partículas que viajam quase à velocidade da luz e atravessam todos os corpos

Música eletroacústica: Música em que o som produzido pelos instrumentos passa por intervenções eletrônicas 

Música acusmática: Música que existe apenas gravada, com o objetivo de ser apresentada em alto-falantes, sem que o ouvinte conheça as fontes ou as causas do som. Em ‘Ritos de Perpassagem’ serão utilizados ao todo 18 alto-falantes

 

RITOS DE PERPASSAGEM  

TEATRO SÃO PEDRO. R. BARRA FUNDA, 161, TEL. 3661-6600.

6ª (27) E SÁB. (28), 20H; DOM. (29) 17H.

R$ 30 A R$ 80

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