LENISE PINHEIROO
LENISE PINHEIROO

Com 30 anos de carreira, Samir Yazbek estreia peça e série com textos inéditos

'Eterno Retorno' investe na crise do artista como ampliação de sua cidadania e humanidade

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2018 | 06h00

O pensamento oriental e budista vê nas formas circulares a força e a elegância do universo e seu vazio. No cenário da peça Eterno Retorno, o piso circular de pedra também inspira os reencontros que a vida proporciona. Na próxima sexta-feira, 9, estreia o espetáculo de Samir Yazbek, em comemoração aos 30 anos de carreira do autor, e com direção de Sergio Ferrara, no Sesc 24 de Maio.

O reencontro entre os amigos também lembra o movimento circular da peça. Foi nos anos 1988 que Ferrara ensaiava no Centro de Pesquisa Teatral, de Antunes Filho, quando cumprimentou Yazbek pela primeira vez. “Lembro que eu fazia um ensaio que era correr em círculos. Brinco com ele que já estava antevendo o retorno que ele traz em sua peça.”

A figura que está no centro do debate é a mesma que recebeu tanta atenção das manchetes nesse recente momento eleitoral. Como nunca se viu, o artista ultrapassou a cobertura cultural para a dimensão política. Na montagem, a personagem principal da peça, um ator (Luciano Gatti), se prepara para ensaiar um novo espetáculo. Em contato direto com suas memórias, ele tenta equilibrar o presente, sua rotina de artista, com as demandas de uma mãe conservadora (Patricia Gasppar) e o mestre idealista (Carlos Palma). “Tento vê-lo como um anti-herói”, conta o autor.

Enquanto a personagem destila o que parece ser o ego característico da profissão, o ator começa a enxergar sua vocação no limite da vida social. Sobram ataques: a namorada (Helô Cintra Castilho) critica que o ofício o afastou do pública, quando o objetivo era aproximá-lo. A mãe despeja sua frustração sobre uma profissão incapaz de atrair dinheiro e sucesso de forma permanente e o produtor da peça (Gustavo Haddad) condena a falta de compromisso do artista com quem patrocina seu trabalho. “Tentei criar um recorte sobre as angústias do artista”, diz Yazbek. “Algumas figuras, como a mãe, ganharam projeção como uma classe média que valoriza tão pouco o trabalho do artista.” 

Para o diretor, a condição existencial do artista o coloca em uma luta ainda mais complexa, nos dias de hoje. “Mais que discutir sua persona, a peça quer despertar a humanidade, cheia de defeitos, que todos têm”, diz Ferrara. “Quando a existência se concretiza, em geral, há terror. Ser artista é mais uma maldição que uma bênção. Quando o aspecto humano adentra o universo criativo, vemos o cidadão.”

Assediada por tantas demandas, a personagem também não está a salvo de si mesma, conta o autor. “Hoje não é mais possível dissociar artista de cidadão, ou qualquer outra profissão. No entanto, na arte, um de seus aspectos é alteridade. O olhar para o outro. Deve ser exercício e esforço contínuos de quem se considera artista.”

Yazbek confere os recentes ataques a músicos, atores, cineastas a uma exposição que não diferencia mais o sujeito de seu ofício. “No flanco, acabamos ficando mais expostos. Nesse caso, sempre fica mais fácil para os outros apontarem e criticarem.”

Ao olhar para os 30 anos de carreira, Yazbek conta que sua criação se desenvolveu “contra a maré” do movimento teatral daquela época. Enquanto o período apontava para uma certa exaustão pelo trabalho dos mestres encenadores, nos anos 1970 e 1980, a década de 1990 inauguraria no Brasil os processos de criação teatral em conjunto e coletivamente. A diferença é que as funções de dramaturgo, diretor, ator deixariam de delimitadas e exclusivas. A partir de então, um ator poderia sugerir um texto ao dramaturgo que também poderia apontar caminhos para o diretor, e vice-versa. Se esse cenário foi a situação, o trabalho de Yazbek veio em paralelo, ele afirma. “Mesmo nos trabalhos em companhia, todas as funções continuaram fixas. Embora eu tenha dirigido algumas peças minhas, como O Fingidor, As Folhas de Cedro, acreditei que poderia prosseguir na minha voz autoral.”

Para os próximos anos, é nisso que ele aposta. “Quero falar sobre o nosso pior. É como enxergar o monstro com os olhos bem abertos.”  Além da estreia de Eterno Retorno, a programação reserva oficinas de dramaturgia e uma série de leituras dramáticas com cinco textos inéditos do dramaturgo.

ETERNO RETORNO. Sesc 24 de Maio. R. 24 de Maio, 109. Tel.: 3350-6300. 6ª, sáb., 21h, dom., 18h. R$ 40 / R$ 20. Estreia 9/11. Até 2/12.

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