Patrick Sister
Patrick Sister

'Colônia' retrata o episódio conhecido como 'holocausto brasileiro'

Espetáculo coloca em evidência uma máquina da destruição e barbárie

Maria Eugênia de Menezes, ESPECIAL PARA O ESTADO

21 Maio 2018 | 19h25

Colônia era o nome de um hospital psiquiátrico em Barbacena, Minas Gerais. Lá, estima-se que, entre 1960 e 70, cerca de 60 mil pessoas morreram. A grande maioria nunca diagnosticada com nenhuma doença mental. Eram simplesmente homens e mulheres indesejados: Meninas grávidas antes do casamento, homossexuais, prostitutas, epiléticos, opositores políticos, alcoólatras. Qualquer pessoa que tivesse um comportamento fora dos padrões da época. A instituição foi fechada nos anos 1980. E esse massacre parece ter ficado para trás, muito longe.

+++ Aluno de balé com 80 anos vira exemplo na internet

O espetáculo Colônia parte da percepção de que essa é uma história ainda por ser contada. “Silenciar é uma maneira de deixar de existir”, diz o texto escrito por Gustavo Colombini. Mas sua forma de relatar o horror de Barbacena - episódio que ficou conhecido como holocausto brasileiro - foge da abordagem direta e vai buscar em um profícuo jogo de palavras formas de se aproximar do assunto.

+++ Direitos da famosa obra da francesa Maguy Marin são cedidos a alunos de dança da Maré, no Rio

Sozinho em cena, Renato Liveira adota um formato de conferência. Diante de um quadro negro, vai esmiuçando os diversos significados do termo colônia. Chamamos de colônia as organizações de insetos que vivem em grupo: abelhas, vespas, formigas. Existem ainda as colônias penais e as colônias de férias. Mas seu foco é entrelaçar a história desse hospício mineiro com nosso passado colonial. Uma herança de mortes, de exploração desenfreada e de indiferença com o sofrimento alheio.

+++ Em 'Chaplin, o Musical', Jarbas Homem de Mello recria o artista

Uma lousa vai se enchendo de palavras - mais ou menos como aconteceria em uma explanação escolar. Como se seguisse uma sequência racional de pensamento, a peça cria a sensação de que um termo puxa o outro. Quando vistos com distanciamento, contudo, não é perfeita a lógica nos encadeamentos propostos. Fala-se de olfato, depois de pornografia, a seguir de paisagens. O que conecta tantas ideias distintas? O que existe é engenho, capaz de amalgamar todos esses conceitos em um fluxo de aparência natural. Assim, temas da sociologia podem encontrar questões de fundo existencial como se tudo fosse uma coisa só.

+++ Atriz e escritora Liv Ullmann inspira 'Eu Sou Essa Outra'

O resultado é desigual, com algumas passagens muito mais interessantes que outras. Por exemplo: uma explanação sobre as primeiras acepções do termo Brasil, que nos levam a pensar na madeira cor de sangue aqui encontrada na chegada dos primeiros colonizadores, vai evocar reflexões mais frutíferas do que uma tentativa de aproximar os verbos amar e matar - cuja sonoridade se assemelha.

Há poucos momentos em que a luz de cena se altera. A direção de Vinicius Arneiro insiste na atmosfera grave de sala de aula e o ator persevera no papel de palestrante/professor. Mas não se pode dizer que o tom didático se estabeleça. Ao contrário. Durante toda a montagem, não se menciona o manicômio de Barbacena. Uma omissão que certamente deve prejudicar o entendimento de quem não está ciente do mote do espetáculo. Nesse contexto, a obra pode parecer um labirinto palavroso sem norte.

Para quem conhece a história, mesmo que em linhas bem gerais, a apreciação deve ser diversa. Ao espectador não cabe só escutar uma narrativa, mas também costurar as tênues amarrações do autor. Quando menciona as capacidades adaptativas do olfato, o texto está a rememorar as condições insalubres em que viviam os internos do hospital. Quando fala da perda de capacidades emocionais, o que faz um homem se alimentar de ratos e beber a água do esgoto, cita uma das descrições escabrosas do que acontecia em Barbacena. As atrocidades que se passaram no Colônia são um manancial sem fim de histórias. O que o espetáculo inspira, com muita sobriedade, é um vislumbre dos mecanismos mais perversos da barbárie. 

Mais conteúdo sobre:
teatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.