Patricia Miranda
Patricia Miranda

Coletivo Negro estreia fábula futurista sobre resgate da humanidade

Peça 'Revolver' fala de tolerância e da capacidade de ouvir o outro

Igor Giannasi , O Estado de S. Paulo

03 de setembro de 2015 | 04h00

Em um futuro distante, depois do “fim do mundo”, quando a humanidade já passou por diversos ciclos e retorna ao que pode ser considerado seu estágio “inicial”, um grande e antigo baobá – árvore de origem africana – se sobressai na paisagem desértica. Ali, Kizúa, personagem de Raphael Garcia que representa a permanência, espera longamente pela chegada do andejo Izô (interpretado por Flávio Rodrigues), este simbolizando o movimento. O conflito entre esses dois homens de ideais diferentes, relacionamento embasado na reconstituição da memória e do significado dos sentimentos humanos, é o mote do espetáculo Revolver, do Coletivo Negro, que estreia nesta quinta-feira, 3, em (a princípio) curtíssima temporada até domingo, 6, no Espaço Cachuera!, em Perdizes.

Essa fábula de ficção científica é um dos quatro experimentos cênicos que integram o projeto A Concretude Imaterial do Que Somos: Símbolos, Mitologias e Identidades, contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro de São Paulo, mais um passo na pesquisa do grupo sobre a representação do negro nos palcos e na sociedade. 

“O que a gente está fazendo tem uma importância não no sentido de segregar, mas de agregar um valor a mais na nossa visão da sociedade. Nós somos importantes também. Nós estamos aqui para somar, não para excluir ninguém”, comenta Flávio.

Se em Revolver a discussão proposta é sobre a tolerância entre os diferentes, o andar junto e ter a capacidade de ouvir o outro, as produções seguintes, com estreias previstas até o fim do ano e início de 2016, tratam, respectivamente, das questões da corporalidade, do masculino e do feminino, sob a perspectiva do negro.

Assim como nas primeiras pesquisas e montagens do Coletivo Negro, há 8 anos, as manifestações populares afro-brasileiras são as referências para a concepção de Revolver, escrita pelo dramaturgo Rudinei Borges. Para se chegar ao resultado da peça foi fundamental a parceria com a Associação Cultural Cachuera!, que mantém um valioso acervo sobre a cultura popular. A contribuição criativa da dupla de atores também foi estimulada pela diretora Aysha Nascimento. “É um espetáculo cheio de olhares”, diz Aysha, que destaca a presença da DJ Dani Nêga em cena.

Com formação pela Escola Livre de Teatro de Santo André (Aysha e Flávio) e pela Escola de Arte Dramática (EAD) da USP (Raphael), os integrantes do grupo observam uma falta de atenção acadêmica à participação do negro no fazer teatral. “Como a gente pensa a história do teatro brasileiro e não pensa nessas manifestações? Isso é a história do teatro brasileiro também. A congada, o jongo e o cavalo marinho também são a nossa história, que vem antes do teatro moderno do século 20, antes do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia, companhia fundada em 1948)”, pontua Raphael. Aysha ainda destaca a ausência, segundo ela, de estudos aprofundados sobre iniciativas como o Teatro Experimental do Negro (TEN), criado por Abdias do Nascimento, em 1944.

Sem querer se distanciar da militância, Aysha nota que em Revolver, pela primeira vez em um trabalho do coletivo, a palavra negro não é dita. “Quem está em cena é negro, ele não está se eximindo desta condição, mas em nenhum momento eu digo ‘negro’ porque tem um lugar de entendimento da humanidade.”

REVOLVER

Espaço Cachuera. Rua Monte Alegre, 1.094, Perdizes, 3872-8113. 5ª a sáb., 21h; dom., 19h. Grátis. Até 6/9. 


Mais conteúdo sobre:
teatro, Coletivo Negro

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.