Daniel Coelho
Daniel Coelho

‘Cole Porter – Ele Nunca Disse Que Me Amava’ ganha nova roupagem 20 anos depois da estreia

Musical de Charles Möeller e Claudio Botelho sobre o compositor Cole Porter volta aos palcos no Teatro Porto Seguro

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2019 | 03h00

O interesse superou as dificuldades – em 1999, quando a internet ainda engatinhava e o material disponível em CD era reduzido, os jovens Charles Möeller e Claudio Botelho decidiram transformar sua paixão pelo compositor Cole Porter (1891-1964), o nome mais emblemático da chamada Grande Canção Americana, em um musical. Além das dificuldades de pesquisa, esse gênero teatral era também desconhecido no Brasil. “Para completar, tínhamos apenas uma biografia do Porter à disposição”, relembra Möeller que, mesmo assim, se entregou ao processo de escrita de Cole Porter – Ele Nunca Disse Que Me Amava, com músicas traduzidas por Botelho.

A dupla apostava em uma curta temporada, mas o espetáculo ficou quatro anos em cartaz em palcos do Rio, São Paulo e Portugal. Desde então, cresciam os pedidos para numa nova montagem, o que acontece agora com a estreia do musical no Teatro Porto Seguro, nesta sexta-feira, 21. “Passaram-se 20 anos e, embora o espetáculo mantenha a mesma estrutura, fizemos algumas modificações, como apresentar certas canções na íntegra e não apenas trechos”, conta Botelho.

Trata-se de uma forma original de se mostrar vida e obra do compositor. Em cena, seis atrizes vivem as mulheres que foram decisivas na trajetória de Cole Porter: a agente literária e teatral Bessie Marbury (Alessandra Verney), a famosa colunista de fofocas e amiga indispensável Elsa Maxwell (Analu Pimenta), que deu visibilidade ao compositor dentro da elite, a mãe de Cole, Kate (Bel Lima), rica e obsessiva para tornar o filho um astro, e a mulher, Linda (Stella Maria Rodrigues), com quem foi casado por muitos anos, a atriz e cantora Ethel Merman (Marya Bravo), a primeira grande diva da Broadway e preferida de Cole, e uma personagem fictícia misteriosa, Angélica (Malu Rodrigues).

Durante o espetáculo, essas mulheres, acompanhadas por três músicos, contam os detalhes da vida de um homem que, além de carismático, era também um ser frágil e mentiroso, considerado um “bon vivant”, que viveu com extravagância os chamados “anos loucos” (década de 1920), sempre com muito luxo, viagens e festas. Mas, acima de tudo, um homem genial, de um talento exuberante, capaz de criar mais de 800 composições para musicais da Broadway e de Hollywood. “E ouso dizer que não há nenhuma canção ruim nessa vasta coleção”, garante Botelho, cuja intimidade com a obra do americano o torna um dos especialistas em Cole Porter no Brasil – a ponto de o musical trazer trabalhos nem sempre executados, como a música que abre o espetáculo, The Physician. “Por ela, é possível já descobrir algumas de suas qualidades, como a mordacidade e a forma engenhosa com que criava os versos.”

Porter era um artista que se revelava nas letras das canções”, completa Möeller. “Mais que criar para o teatro, ele escrevia para si mesmo. Nem mesmo a amputação de uma perna, provocada quando o cavalo que cavalgava caiu sobre ele, acidente que o tornou amargo e solitário, o deixou menos irônico em suas letras.”

De fato, o compositor era um mestre do riscado. O jornalista e biógrafo Ruy Castro, em seu livro Tempestade de Ritmos (Companhia das Letras), ao detalhar a qualidade poética das canções de Porter, além de outros craques do cancioneiro como Ira Gershwin, Lorenz Hart e Johnny Mercer, utiliza uma alusão interessante ao dizer “a construção de uma letra era como projetar uma casa: com estrutura, fundações, divisão de aposentos e decoração de interiores. Um letrista daquela turma podia passar semanas em busca de uma rima interna”.

“E Porter se distinguia ainda por ser genuinamente americano, sem carregar tradições ou hereditariedade migratória”, comenta Botelho.

COLE PORTER – ELE NUNCA DISSE QUE ME AMAVA

Teatro Porto Seguro. Al. Barão de Piracicaba, 740. 6ª e sáb., 21h. Dom., 19h. R$ 60 / R$ 120. Até 7/7

 

Criador de ‘C’est Magnifique’, magnífico era o próprio músico

Cinéfilos devem se lembrar da cena antológica em Meia-Noite em Paris. Os americanos da geração perdida, os intelectuais do mundo cujas histórias se cruzaram na cidade chamada de “Luz”, nos ruidosos anos 1920. Hemingway, Picasso, Luis Buñuel, Scott Fitzgerald (interpretado por Tom Hiddleston!) e Cole Porter. Yves Heck é quem fazia o papel. Muitos anos antes, em Todos Dizem Eu Te Amo – Veneza! –, Woody Allen já colocara canções de Cole Porter (Looking at You) em sua trilha.

Cole Porter tornou-se uma lenda da música dos EUA, e o diretor Irwin Winkler biografou-o num filme para TV (De-Lovely) que olha o personagem como protagonista de um daqueles shows que ele abrilhantou ao longo da vida. Kevin Kline mostrava que não é a semelhança física que conta, mas “the real thing”. Ele assume a verve, o espírito, a inteligência do compositor, que foi letrista sofisticado e ritmista brilhante, atraído por formas complexas. E a trilha – Anything Goes, It’s De-Lovely, Night and Day. O filme aborda a tumultuada relação de Porter com a mulher, Linda Lee/Ashley Judd. Aborda até a homossexualidade.

Esse grande artista criou músicas inesquecíveis, que compõem a trilha sonora de belíssimos musicais. Kiss Me Kate, a versão cantada e dançada de A Megera Domada, por George Sidney – Always True To You in My Fashion, a jazzística Brush Up Your Shakespeare. E Can-Can, de Walter Lang – I Love Paris, C’est Magnifique. Magnífico era o próprio Cole Porter.  / LUIZ CARLOS MERTEN

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