DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Claudia Raia festeja 30 anos de carreira com musical que relembra seus personagens

'Raia 30 - O Musical' estreia dia 24, em São Paulo, e fará um apanhado de sua atuação na televisão e nos palcos

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

20 Julho 2015 | 05h00

Tudo começou com uma conversa informal entre a atriz Claudia Raia e seu companheiro, Jarbas Homem de Mello. “Falávamos sobre meus 30 anos de carreira e como colecionei trabalhos preciosos”, lembra Claudia. “Até que ele perguntou: ‘Por que você não transforma sua história em um espetáculo?’. No início, achei que seria muito presunçoso, o que não combina comigo, pois sou uma pessoa muito debochada.” Tantos amigos insistiram, no entanto, que a atriz resolveu arriscar - reuniu-se com parceiros de longa data, os diretores Miguel Falabella e José Possi Neto, e finalmente nasceu Raia 30 - O Musical, que estreia na sexta, dia 24, no Theatro Net.

Trata-se do apanhado geral de uma carreira com momentos marcantes especialmente no teatro musical e na televisão - desde a consagração em novelas como Sassaricando e Belíssima, e programas humorísticos, a exemplo do TV Pirata, até importantes espetáculos no palco como Sweet Charity e Cabaret

“O resultado é original, pois, apesar de narrar a trajetória de uma artista conhecida, o enredo foi montado de uma forma a agradar mesmo quem não conhece o trabalho da Claudia”, observa Possi Neto.

De fato, ao escrever o roteiro, Miguel Falabella apoiou-se em uma base felliniana - logo no início, por exemplo, Claudia encena um momento crucial em sua carreira: quando decidiu fazer o teste para o papel de Sheila do musical Chorus Line, que seria montado em São Paulo, em 1984. Nessa época, ela estava com 16 anos e atendia por Maria Claudia Raia. Mas, além de envolver a mãe da futura atriz, Odette, e da irmã, cuja influência foi decisiva em sua carreira, Olenka, a cena esgota um sonho e faz referência a outros personagens também representativos, que circulam ao seu redor, como os coreógrafos e bailarinos americanos Lennie Dale (1934-1994) e Bob Fosse (1927-1987).

As lembranças não são gratuitas - ao escrever também a letra original das canções, Falabella utilizou a melodia de músicas já existentes como apoio. Assim, Hey Big Spender, um dos temas mais famosos de Sweet Charity, de Fosse, é utilizado para ilustrar sua chegada à televisão. 

A paixão de Claudia Raia pelo teatro permeia todo o espetáculo. Afinal, desde criança, desejava estar no palco. “Meu sonho era ser uma grande bailarina, brilhar em alguma companhia renomada”, conta ela que, embora fosse talhada para o clássico, jamais abandonou o popular, especialmente o bem ritmado.

Para isso, o musical apresenta duas histórias reveladoras. A primeira envolve Lennie Dale, o americano que se apaixonou pelo Brasil e, aqui, criou o transgressivo grupo Dzi Croquettes. Ao descobrir que a trupe se apresentava em São Paulo, Claudia insistiu para que a mãe a levasse uma tarde até o Teatro Brigadeiro. Lá, com a petulância de uma bailarina de 7 anos, chamou a atenção de Dale e disse: “Eu danço igual a você”. Mesmo surpreso, o americano comprou o desafio. “Quero ver, então”, disse ele, antes de ficar boquiaberto quando a menina repetiu com exatidão e graça seus famosos passos. “Lennie ficou louco e, a partir daí, tornou-se meu padrinho e grande incentivador.”

A coleção de ousadias aumentou quando, aos 13 anos, Claudia foi estudar em Nova York, onde se descobriu apaixonada por um gênero que não conhecia, o musical, em especial o criado por Bob Fosse. Dois anos depois, já bailarina clássica formada, protagonizou outra história deliciosa: em viagem com a avó a Buenos Aires, soube que haveria um teste para o balé Romeu e Julieta, no Teatro Colón. A menina se inscreveu, foi aprovada e permaneceu na capital argentina por um ano e meio.

Foi durante esse período que Claudia conheceu outro gênero que se tornaria o quarto pilar de sua carreira, ao lado do balé clássico e dos ensinamentos de Dale e Fosse: o teatro de revista. Ainda em Buenos Aires, ela trabalhou com a maior vedete do país, Suzana Giménez, que se apresentava no Teatro El Nacional. “Aprendi muito sobre teatro de revista com Suzana, ensinamentos preciosos que eu trouxe para o Brasil.”

Todos esses momentos estão em Raia 30 - O Musical. “Há um encadeamento dos assuntos, que se unem por personagens - é como o acaso que marca a vida das pessoas”, afirma Possi Neto. Segundo ele, o espetáculo se divide em blocos, que repassam a vida e carreira de Claudia. Um dos mais divertidos é o que envolve a televisão. Ao fazer sucesso em Chorus Line, a jovem atriz chamou atenção de Jô Soares, que a levou para seu programa humorístico, Viva o Gordo, na Globo. “Pensei que faria figuração, mas dividi um quadro com ele, o Vamos Malhar.”

Sua exuberante presença física (“Sempre fui grande, desde pequena”) se tornou passaporte para as novelas. A estreia foi em Roque Santeiro, de 1985. “Não tinha falas, apenas minha bunda aparecia sempre”, diverte-se Claudia, que logo se consagrou em outros folhetins como Sassaricando e Belíssima. Um dos pontos altos na TV foi participar da trupe do clássico TV Pirata, especialmente quando criou a presidiária Tonhão que, no musical, apresenta uma divertida versão de Samba de Breque, um dos hits de Moreira da Silva. 

Claudia praticamente não sai de cena. Com sua voz de contralto, explora todas as notas, o que a torna uma rara intérprete para musicais da Broadway. “Ela usa todo o registro vocal na apresentação”, conta o diretor musical Marconi Araújo. Disciplinada, a atriz também se entregou à elaborada coreografia criada por Tânia Nardini. “Conheci poucas pessoas tão entregues ao trabalho como Claudia”, observa Marcos Tumura, amigo há 28 anos da atriz, com quem divide o espetáculo. “Sua persistência ajudou a instalar o musical no Brasil.

Colegas de cena falam sobre Claudia Raia

"Ainda fico surpreso com sua presença no palco, com a forma como se expressa. Claudia também é uma amiga sempre presente” (Reynaldo Gianecchini, ator)

"É uma profissional totalmente comprometida com seu trabalho, que tem paixão por teatro, cinema, show, dança” (Tony Ramos, ator)

"Na televisão, encanta o público com sua graça, sua beleza e seu incomparável tempo de comédia. Não é uma atriz singular, é plural” (Silvio de Abreu, teledramaturgo)

RAIA 30 – O MUSICAL

Theatro Net. R. Olimpíadas, 360. Tel.: 4003-1212. 5ª e 6ª, 21h. Sáb., 18h30 e 21h. Dom., 18h. R$ 25 / 

R$ 200. Até 18/10. Estreia 24/7

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