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'Cine Monstro' é a peça mais ambiciosa de Enrique Diaz

Ator embarca com público, que tem função ativa na peça, na aventura que é o texto do canadense Daniel MacIvor

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2015 | 03h00

O ator e diretor Enrique Diaz desenvolveu uma íntima relação com a dramaturgia do canadense Daniel MacIvor. Primeiro com a peça In on It, montada em 2010, na qual dois atores contam com a cumplicidade do público para desvendar o fazer teatral; dois anos depois, com A Primeira Vista, que acompanha a amizade e o amor entre duas mulheres, maravilhosamente interpretadas por Drica Moraes e Mariana Lima. E, em 2013, Diaz estreou a mais ambiciosa das montagens, Cine Monstro, em que, sozinho no palco, tem sua voz fragmentada em 13 personagens que, com seu fascínio por filmes de terror, revelam o impulso destrutivo que nem sempre é possível esconder.

Cine Monstro terá uma exibição especial na noite desta terça-feira, 24, no Itaú Cultural. No ano passado, Diaz apresentou a peça da mesma forma e no mesmo espaço. Enquanto aguarda a estreia de uma temporada em São Paulo, o espectador poderá destrinchar a dramaturgia de MacIvor no papel: a editora Cobogó já editou as três peças do canadense montadas no Brasil. Sobre o assunto, Diaz respondeu por e-mail às seguintes questões.


É interessante o modo como o autor expõe as imperfeições humanas. Como você vê isso?

Uma das várias qualidades da escrita de Daniel MacIvor é exatamente a excelência na construção dos personagens. Ele escreve muito bem os personagens, o que quer dizer que os discursos deles são provenientes de um ponto de vista único e movido por desejos aparentemente reais, com uma lógica muito humana. No caso dessa peça, a estrutura geral do texto dá a moldura para um lugar sobre a vulnerabilidade desejosa do indivíduo e faz com que cada um deles seja real, trágico e patético, tudo ao mesmo tempo.

Nessa peça, o espectador tem uma função ativa. Você encena esse texto desde 2013, já lidou com diversas plateias, como foi esse compartilhar?

A peça é sempre uma aventura, porque me obriga a lidar com mudanças grandes na relação com o público. Eu, particularmente, tenho mais prazer quando a plateia embarca na montanha-russa entre humor e terror, entre atenção silenciosa e a reação ao exagero e à comédia, que estão na peça. Mas muitas vezes a ressonância é mais surda, pesada, e isso afeta o espetáculo. O trabalho passa a estar atento a essa dinâmica e, ao mesmo tempo, tenta não ficar dependendo dela demais.

Os textos de MacIvor habitualmente acomodam uma sensibilidade burlesca e um clima mais sombrio. Como é dirigir e interpretar peças assim?

O trânsito entre estilos ou formas de fruição que caracteriza a peça é muito rico, tanto para mim como performer quanto para o público, que não encontra uma zona de conforto. Isso produz uma relação em que o público vai acessando durante a peça as referências que tem da representação do mal e das relações familiares, além de elementos da cultura de massa, em especial o cinema, e vai formulando sua “posição” dinâmica sobre o espetáculo e suas proposições. Cada vez mais, preciso estar atento para este procedimento do público, mas não tenho como dar conta dele, é uma relação aberta.

Ter trabalhado com In on It e A Primeira Vista serviu como aprendizado para chegar a Cine Monstro. Como foi esse processo de descoberta e criação?

Na verdade, o que me motivou foi essa convivência com os textos dele. Não me senti dominando inteiramente sua dramaturgia, mas tinha alguma familiaridade que já me permitia perceber os pontos de vista dele. Fazer a peça foi me propor um exercício de atuação, tendo por base esse conhecimento prévio, com a novidade de que esse texto tem um ponto de vista de certa forma oposto aos outros dois, mais terrível, em que o afeto não redime.

CINE MONSTRO

Itaú Cultural. Avenida Paulista 149, tel. 2168-1777. Terça, às 20 h. Grátis - ingressos distribuídos com 30 minutos de antecedência

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