Cia. Pessoal do Faroeste assume a maioridade na Boca do Lixo

Próximo de completar 18 anos, o grupo fundado por Paulo Faria olha para o passado e deseja é falar sobre o futuro

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

19 de dezembro de 2015 | 04h00

É andar como os que sonham. “As ruas estavam cheias com técnicos, atores e gente fazendo cinema”, recorda Paulo Faria, diretor da Cia. Pessoal do Faroeste. A lembrança não é dos anos 1950 e 80, mas tão recentes que estão em Memórias da Boca, série de oito episódios de cineastas remanescentes da Boca de Cinema de São Paulo, em cartaz na Caixa Belas Artes. “Esse deve ser o futuro da Boca, continuar viva, mas não mais invisível.”

Há 16 anos abrigada na Rua do Triunfo, a companhia de Faria manteve-se porosa a esta realidade inerente da região, que hoje passa por tentativas de revitalização. “Vim para cá atraído pela ideia da rua ser uma Bollywood brasileira, essa tradição do cinema de gêneros”, explica. Com o tempo, a coexistência do teatro com o cinema logo surtiu efeitos, entre elas a peça Um Certo Faroeste Caboclo, que fundou e batizou o grupo. “Alguns amigos liam meus textos e falavam que eram cinematográficos”. 

De lá para cá, muita coisa mudou e, na última semana, a trupe encerrou a temporada de TempoNorteExtremo e Luz Negra. A primeira lança um olhar sobre denúncias de crimes na Amazônia e a última retoma a trajetória da Frente Negra Brasileira nos anos 30. “Era um ajuntamento de pensadores, professores negros que tomou conta do País”, explica o ator Flávio Rodrigues. Entre os quais estava Abdias Nascimento (1914-2011), o fundador do Teatro Experimental do Negro. “Não tive o prazer de conhecê-lo, mas conversamos com a viúva, Elisa Larkin Nascimento. A Frente abriu espaço para o negro falar na sociedade”, ressalta o ator.

A montagem escrita e dirigida por Faria traz, como o ator Raphael Garcia define, “um espelho invertido”. Na condução de uma rádio, os negros são protagonistas. A única branca é representada por Mel Lisboa, integrante do grupo desde o Cine Camaleão, a Boca do Lixo. “As montagens do Paulo misturam fatos daqui com ficção, além desse intensa relação com a linguagem do cinema”, conta a atriz. “Minha personagem é debochada e preconceituosa. Ela vive desconfiando dos negros e usa disso para esconder um segredo.”

Mas o conflito não se instaura em uma didática questão racial. Para representar tal conflito, Faria concebeu Flora, uma negra advogada e rica que discorda dos colegas em relação à presença de uma mulher branca na rádio. “Ela está lá para trazer um maniqueísmo e criar um imaginário desse lugar natural que não existe no imaginário da ficção brasileira.” Para Garcia, o discurso estava sendo construído. “Não podemos olhar a história como se ela funcionasse em blocos. Os negros não pensavam e concordavam entre si o tempo todo.”

De qualquer forma, segundo Faria, a discussão do racismo se esgotará quando atores negros interpretarem personagens negros dentro de uma “normalidade social”. “Eles só estão na dramaturgia, em sua maioria, para justificar o racismo. Por que não existe um elenco negro sem se explicar?”, questiona. 

“O que é teatro?”

Em busca de mais respostas, o novo projeto do grupo encontra na rua uma oportunidade de criar laços com moradores e trabalhadores da região.

É chamado de Cartografia Afetiva do Quadrilátero do Pecado, no qual coletivos residentes no Ateliê Amarelinho conversam com pessoas das avenidas Ipiranga, São João e Duque de Caxias e da rua Mauá. “Um dia, convidei um homem para ir ver a peça e logo percebi que ele não falava português’, conta Zé Motta do O Zona. “Foi então que ele me perguntou: ‘O que é teatro?’ e isso me tirou do chão.”

Faria explica que, além de olhar para o passado, importa também o presente no entorno. “Queremos saber quem eles são e ouvi-los. Ao oferecer uma história sobre o bairro, queremos reconhecê-los”. 

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