Ernesto Rodrigues/Estadao .
Ernesto Rodrigues/Estadao .

Cia Mungunzá quer revitalizar a Luz com o Teatro de Contêiner

Em 2017, terreno que servia de estacionamento vai abrigar um novo espaço cultural com programação artística

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

16 Dezembro 2016 | 21h30

Num dia de novembro, uma fila de caminhões formou-se na Rua dos Gusmões, 43, na Santa Ifigênia. De cima deles, dez contêineres foram descarregados e, depois, empilhados no terreno abandonado de 1 mil m². Nesta semana, o clima de tardes com sol e noites de baixas temperaturas não incomodou a horta hidropônica montada ao lado do Teatro de Contêiner, novíssimo espaço cultural em São Paulo, criado pela Cia Mungunzá de Teatro, em parceria com a Subprefeitura da Sé. O local está situado numa rua tranquila da região, com um posto da Guarda Civil bem em frente do terreno.

 

Mas o projeto que vai ser inaugurado em março de 2017 não foi concebido assim tão de supetão, conta o ator Lucas Beda. “Nós pesquisamos diversos lugares que estavam ociosos pela cidade.” Quando encontraram o endereço - a três minutos de caminhada da Estação da Luz -, o terreno acumulava entulho, tinha parte das cercas destruídas e servia de estacionamento para o comando geral da Guarda Civil Metropolitana.

Por meio de um termo de cooperação, a companhia será responsável por zelar pelo local durante três anos  prazo que ainda aguarda confirmação. Até o momento, já foi investido cerca de R$ 250 mil, em serviços como limpeza do terreno, terraplenagem, instalação elétrica e dos contêineres, vindos de um caixa próprio da Mungunzá, grupo fundado em 2008. Até o fim do período, o total aplicado será de R$ 2,1 milhões, obtidos com recursos de editais públicos e federais.

Em virtude do tamanho da empreitada, o grupo gastou tempo criando um projeto arquitetônico que refletisse o tipo de relação que os artistas gostariam de estabelecer com o local, ressalta Beda. O que resultou nos contêineres empilhados. Juntos vão abrigar banheiros, camarim, escritório e um espaço com lotação de 80 pessoas. Do lado externo, existe a horta criada por um morador do bairro e, no gramado, um playground feito com tambores de aço reutilizados, desenvolvido pelo grupo espanhol Basurama. Na lateral superior da edificação, a pintura branca vai servir como tela de cinema para projeções ao ar livre. “O objetivo não era levantar mais um prédio, mas o desejo de que as características da construção chamassem as pessoas à convivência”, explica o ator.

E esse convite também se reflete nos portões abertos. “Não queremos entrar, fazer mais uma peça, trancar tudo e ir embora.” Vez ou outra, a conversa era interrompida por um morador de rua que perguntava se poderia apanhar alguns materiais descartados. “Aqui continua sendo um espaço público e queremos construir essa relação”, reforça Beda.

Entre as atividades que a companhia do premiado Luis Antonio - Gabriela deseja realizar está abrigar espetáculos de dança, shows de pequeno porte, oficinas e exposições. Tudo isso pautado por uma curadoria que será formada em 2017. Para a data de inauguração, ainda não divulgada, o grupo planeja ocupar o novo palco com o espetáculo de 2011, dirigido por Nelson Baskerville. A montagem documenta a história de Gabriela, uma travesti de meia-idade que deixou a família e foi morar na Espanha. “Achamos que seria muito bonito fazê-lo aqui. Um espetáculo que, de certa forma, nos obrigou a entender a força do teatro”, conta o ator.

 

Questionado sobre o que ocorrerá ao fim do período de três anos, o ator disse que a companhia espera entregar um projeto que valorize o espaço urbano. “E que isso seja mais um motivo para continuarmos lá.” 

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