Cia do Feijão filtra tempos sombrios com música em 'A Mãe'

Em nova peça, companhia usa cinema mudo para contar história de Brecht

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2020 | 21h00

Aos 22 anos, a Companhia do Feijão nunca deixou de fazer perguntas. A seu modo, são questões que não mudam tanto com o tempo, mas que ganham sentido conforme os anos passam. Quando estreou DaTchau – Rumo à Estação Grande Avenida, em 2017, o grupo considerou na cena a Avenida Paulista como grande termômetro dos movimentos sociais e políticos. O que havia de divertido nas cenas de trabalhadores espremidos no transporte público apontava para um final trágico com uma mensagem pela defesa da liberdade, em qualquer época.

Essa busca prossegue. Agora de modo mais íntimo, na nova montagem A Mãe – Canções para Acordar Bertolt Brecht, que faz curta temporada no Itaú Cultural, até domingo, 14. A peça mantém o interesse temático da companhia, mas concede outro rumo estético e criativo ao grupo, marcado pela estreia da atriz Vera Lamy na direção. Ela também assina a dramaturgia. 

É preciso assinalar essas transformações. Companhias do porte da Cia do Feijão, com mais de duas, três décadas de existência, mantêm um modo de trabalho estável, mas que precisa atravessar o tempo. Não se trata de agora se apaixonar pela novidade, mas de se continuar relevante no debate atual e futuro. “Antes de estrear, eu não queria que dissessem sobre a peça: ‘Lá vêm eles, os artistas, querendo dizer como o mundo deve ser’”, Vera manifesta sua preocupação em entrevista ao Estado, na sede da companhia.

Enquanto fuma um charuto, criando uma “brasa de ideias vermelhas”, o personagem do texto poético da autora prepara a plateia para um cabaré repleto de música. Na trama, o Feijão investe em demonstrar os bastidores da adaptação que Brecht fez do romance A Mãe, de Máximo Gorki. A versão do dramaturgo alemão dispõe na cena a luta dos trabalhadores russos contra a opressão czarista, até a vitoriosa revolução de 1917, que uniu o conselho popular de operário, os soldados e camponeses.

O trabalho de Brecht nessa adaptação escrita em 1931 não deixou de servir como um exercício de esperança, já que nesse período, a Alemanha, assim com a Europa, estavam afundadas em uma profunda crise. “Ele tentava entender como o passado poderia esclarecer as coisas e assim, conseguir reagir, além de experimentar formatos. Essa peça é considerada a mais híbrida de sua obra, por conter elementos do épico e do dramático”, conta Vera. 

Trata-se de um tipo de material que, na atualidade, poderia despertar paixões para muitos paralelos simplistas – do contra e do a favor – pela visão política do autor, mas a encenação do Feijão filtra os tempos sombrios e possível polarização em um palco alegre. “Apelamos para a poesia, em que as palavras e as expressões políticas não sumira. Estão nos versos, mas envolvidas nas canções”, explica a diretora. Em cena estão Bruno Miotto, Clara Kok, Eduardo Schlindwein, Eugenia Cecchini, João Attuy, Lincoln Antonio, Luiz Viola, Pedro Semeghini e Zernesto Pessoa, além de Vera. 

O teatro épico, um dos pilares investigados pelo Feijão, ajuda a reconstruir a intimidade criativa de Brecht, da leitura de obras fundamentais, da política à religião, para desvendar a figura sagrada e social da revolução, no romance de Gorki. “Ele empreendeu estudos com a Bíblia, O Capital, de Marx, para entender como se forma essa mulher, capaz de gerar a transformação”, explica a diretora.

Viúva de um operário, Vlassova é envolvida na luta de classes sem querer, pelo próprio filho. No ensaio acompanhado pela reportagem, enquanto os filhos preparam panfletos políticos, a mãe inventa um modo de distribui-los. Na cena, o Feijão gravou cenas inspiradas no cinema mudo, abusando das pantomimas. 

Em vídeo, durante o almoço na fábrica, a mãe distribui sopa com uma panela e oferece guardanapos suspeitos em que os trabalhadores leem o chamado à luta. “Percebemos que a linguagem chapliniana nos inspirou a narrar trechos da história sem recorrer aos textos. Além de estabelecer outros planos para a peça”, continua. “Além de ser parte do distanciamento do teatro épico, que coloca a plateia para desfrutar diferentes modos de se contar uma história.”

E funciona. Dos policiais chegando na casa para investigar a família, ao encontros às escondidas para reunir os trabalhadores, os filmes curtos recheiam a história de humor. “É o encantamento pela forma”, completa Vera.

A direção musical, a cargo de Lincoln Antonio (leia abaixo), tem papel importante no ritmo das cenas e na construção do espetáculo. Para Vera, as canções épicas atravessam a função de acompanhamento da cena. “É mais que isso, é um comentário.”

Do clássico ao coco para chamar a revolução

Direção musical de Lincoln Antonio reúne diferentes estilos até coroar a protagonista com dança nordestina

Parceiro da Cia do Feijão, Lincoln Antonio constrói a direção de encenações singelas como foi no solo Manuela, com Vera Lamy, à encenações mais grupais como A Mãe - Canções para Acordar Brecht

Coautor das canções da montagem, ao lado da atriz e diretora, Antonio assinala que o espetáculo transita entre diferentes estilos. “Começamos com algo mais clássico até chegarmos no que é popular como o coco.” Essa dança de roda da região do Nordeste guiará as personagens na festa coletiva da revolução. 

Outro elemento de som vem da linguagem proposta pelo cinema mudo, explica ele. “É algo diverso, mais voltado aos barulhos de passos, portas que se abrem, sons produzidos por objetos, feito por Pedro Semeghini e conforme os atores trabalham na cena.”

Amantes da experimentação, a companhia fez testes e mais testes com as letras criadas. “É um bate-volta que a gente já conhece. Precisa caber na cena, caso contrário voltamos para mudar o que precisa”, completa Antonio.

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