CHRISTOPHE RAYNAUD DE LAGE/EFE
CHRISTOPHE RAYNAUD DE LAGE/EFE

Christiane Jatahy põe no palco clássico das telas em Paris

A diretora carioca encena a adaptação do roteiro de filme de 1939 de Jean Renoir com a trupe da Comédie-Française

Deolinda Catarina França de Vilhena  ESPECIAL PARA O ESTADO / PARIS, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2017 | 04h00

A brasileira Christiane Jatahy, autora, diretora e cineasta que com Júlia – adaptação da peça Senhorita Julia de August Strindberg – e E se Elas Fossem para Moscou? – baseada em As Três Irmãs de Anton Chekhov – conquistou seu espaço nos palcos e nos jornais europeus, inscreveu seu nome no panteão do teatro francês ao dirigir La Règle du Jeu (A Regra do Jogo), adaptação do roteiro do filme homônimo de Jean Renoir, com a trupe da Comédie-Française a convite de Éric Ruf, administrador geral do mais importante teatro nacional da França. 

Jatahy é a mais nova integrante de um restrito clube que tem entre seus sócios: o russo Anatoli Vassiliev, os italianos Dario Fo e Giorgio Strehler, o americano Robert Wilson e o belga Ivo van Hove. Na relação dos “associados” poucos são os diretores sul-americanos presentes: os argentinos Alfredo Arias e Jorge Lavelli e o colombiano Omar Porras.

O convite feito a Christiane Jatahy para dirigir a lendária trupe de Molière, com carta branca para as escolhas artísticas, aconteceu no momento em que Ruf resolveu consagrar a temporada 2016/2017 ao exercício da paridade homens/mulheres dirigindo os espetáculos a serem apresentados nos palcos das três salas que compõem essa verdadeira fábrica de espetáculos.

As escolhidas foram, além de Jatahy, Anne Kessler, Anne-Marie Etienne, Katharina Thalbach, Deborah Warner, Véronique Vella e Isabelle Nanty.

Por outro lado, Éric Ruf (1969), assim como Stéphane Braunschweig (1964), diretor do Odéon Théâtre de l’Europe – do qual Jatahy é artista associada até 2020 e integra a geração de artistas nascida após a criação do Ministério da Cultura (1959) –, são frutos de um país que conheceu a democratização e a descentralização cultural.

Tiveram suas carreiras impulsionadas por elas e chegaram aos cargos de gestão que ocupam exatamente pela capacidade de buscar formas diferentes de teatro, no lugar de delimitar territórios, optaram por percorrer todos os possíveis.

Em La Règle du Jeu, Christiane Jatahy faz uma leitura contemporânea de um clássico do cinema, entendendo como clássico a obra que atravessa os tempos e permanece capaz de estabelecer diálogo com o tempo presente.

O resultado demonstra que a diretora avança a passos largos em sua pesquisa sobre uma linguagem dramatúrgica em que coexistem e fundem-se teatro e cinema, realidade e ficção, ator e personagem, ator e plateia. Entretanto, ao final, a impressão que se instala, num primeiro momento de reflexão, é que o conteúdo é inferior à forma. 

Imagem que se desfaz ao repensar a força da interpretação, a explosão do elenco transbordante de energia e prazer pelo trabalho realizado, presente em cada fala, em cada gesto.

Esse talvez seja o grande trunfo do espetáculo, mais do que a habilidade de Jatahy em jogar com os códigos do cinema, vídeo, palco e teatro, La Règle du Jeu mostra a capacidade dela em conquistar a confiança dos atores, provando ser possível rasgar a tela e existir no palco. Impossível não concordar com Walter Benjamin, toda obra é um conteúdo que se apresenta numa forma, e as relações de análise devem considerá-las em conjunto numa relação dialética em que a forma seja também conteúdo.

Algumas reações na sala Richelieu, na noite da estreia para imprensa e convidados, levam a crer que na segunda década do século 21 o espetáculo de Jatahy mostra que tem algo mais em comum com o filme de Jean Renoir: o poder de causar, em certa parte do público e da crítica, o mesmo desconforto causado em 1939. 

Ver a Sala Richelieu transformada em cinema por 26 minutos e depois em karaokê, deve ter influenciado a recepção morna de parte da plateia, convidados são quase sempre avaros em aplausos. Nas redes sociais, as opiniões se dividem, com vitória para os comentários positivos. Quanto aos críticos, a primeira a se manifestar foi Laura Cappelle do Financial Times: cotação de duas estrelas sobre as cinco possíveis. Stéphane Capron, do site sceneweb.fr especializado nas artes do espetáculo fala de “uma energia nova nessa Comédie-Française, da qual não mais poderemos dizer que ela é velha e empoeirada”. 

Nada do que possam dizer tira o mérito de Christiane Jatahy: o de ter dado voz no exterior ao tão combalido e tão desprezado teatro. Uma voz que se fez ouvir e respeitar. Não é mais o simples convite a um espetáculo, uma troca de interesses entre festivais, essa é regra do mercado. Viu-se agora a exceção: a escolha de um artista brasileiro para dirigir a mais importante trupe nacional da França, na sala que é o berço de ouro do teatro francês. 

Fazer com que essa escuta e esse respeito perdurem é a história a ser escrita pelos que fazem teatro no Brasil. Não há receita, há trabalho, competência e persistência, algo capaz de unir a sensualidade do teatro brasileiro com o impecável acabamento do teatro alemão. Um ponto não pode ser esquecido: o trabalho realizado por Henrique Mariano, que conseguiu furar o fechado círculo dos produtores/programadores europeus. 

Num tempo de construção de redes, respaldado pelo talento da encenadora que produz, Henrique Mariano traçou planos e metas que colocaram Jatahy sob os refletores dos principais festivais internacionais. A consagração no palco da Comédie-Française abrirá inúmeras portas, mas não é fruto de sorte ou acaso, é sim resultado de duas décadas de trabalho, da artista e do produtor. Ambos nascidos no Brasil, onde não existem políticas públicas efetivas para as artes cênicas e muito menos políticas para difusão do teatro feito – muitas vezes bem feito – por nossos artistas.

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