Dado Marietti
Dado Marietti

Chega a SP a nova versão de '5 X Comédia', que oferece riso com conteúdo

A convite do 'Estado', atores de montagens anteriores da peça fazem perguntas aos da versão atual

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

10 Março 2017 | 05h00

O dilema de uma arara de pet shop que perde a estribeira porque não consegue ser vendida convive com o de um pai de recém-nascido que enlouquece por um boneco da Peppa Pig; enquanto isso, Branca de Neve lê Simone de Beauvoir e se enche de Rivotril na busca de se tornar uma nova mulher, uma figurante tira o diretor do sério durante um teste de elenco, e um rapaz, Flavio, quer estabelecer regras para uma suruba que está prestes a começar durante uma festa que acontece no apartamento emprestado da mãe. Eis o ponto de partida para 5 X Comédia, espetáculo que foi uma das sensações do teatro brasileiro nos anos 1990 e que agora volta, em versão atualizada, no Teatro Frei Caneca, a partir desta sexta-feira, dia 10.

“Quando minha irmã Sylvinha concebeu o 5 X Comédia, em 1993, havia nos textos uma certa ingenuidade, um olhar mais voltado para dentro, para si, enquanto agora eles se voltam mais para fora. Estão impactados pela realidade que nos invade a cada segundo, mesmo quando as personagens são a Branca de Neve ou uma arara vermelha”, comenta Monique Gardenberg, responsável pela direção da nova versão ao lado do comandante da antiga, Hamilton Vaz Pereira.

Para isso, o time atual é formado por especialistas no humor - nomes como os de Bruno Mazzeo, Debora Lamm, Fabiula Nascimento, Lucio Mauro Filho e Thalita Carauta. Também os autores dos textos têm como especialidade descobrir o lado mais engraçado da vida: Antonio Prata, Julia Spadaccini, Jô Bilac, Gregorio Duvivier e Pedro Kosovski.

Monique conta que os ensaios foram estimulantes. “Foi delicioso, o mundo dos sonhos”, comenta. “Éramos cinco atores, cinco autores e dois diretores em uma troca intensa, todos criando com bastante liberdade, mas muita colaboração ao mesmo tempo. A coxia se tornou um segundo olhar, vivo, diário. E a parceria com Hamilton Vaz Pereira, uma aula.”

E o desafio é grande justamente para manter viva uma tradição. “Eu me lembro de entrar em cena como um corredor de revezamento parte para a corrida - com a responsabilidade de não comprometer o todo, de não murchar o público com o seu quadro. Existia uma progressão muito feliz de esquetes na primeira versão”, relembra Fernanda Torres.

A nova versão de 5 X Comédia nasceu, uma vez mais, de uma iniciativa das irmãs Gardenberg - em 1993, a montagem foi criada por Sylvia depois de um encontro com Pedro Cardoso; agora, Monique se aproximou de Bruno Mazzeo por intermédio de Augusto Casé, produtor dos filmes de ambos. “Essa é uma homenagem a ela”, conta Monique sobre Sylvia, que era sua parceira na produtora Dueto e morreu precocemente em 1998, aos 38 anos.

Como são cinco monólogos, Mazzeo comenta sobre a estranha sensação de estar solitário em cena, porém acompanhado pelos colegas nos bastidores. “Nunca me sinto sozinho e a interpretação depende do ‘diálogo’ com o público”, observa ele que, no espetáculo, vive Rodrigo, o clarinetista enlouquecido com a dura tarefa de fazer dormir o filho recém-nascido. “O que vem de volta vai ditando os caminhos. É uma experiência incrível e que me engrandece como ator.”

Mazzeo respondeu a uma pergunta formulada por Fernanda Torres a convite do Estado, que também pediu a outros integrantes de antigas montagens (houve versões em 1993, 1995 e 1999) a apresentarem suas questões ao grupo que atualmente roda o País com a peça (veja trechos de algumas “entrevistas” nas laterais dessa página). 

As conversas, se trazem a informalidade como marca principal, também ajudam a entender a forma como o humor se transformou ao longo de duas décadas. “O que você vê de mais contemporâneo na linguagem dessa montagem?”, perguntou Claudia Raia a Lúcio Mauro Filho, que respondeu: “A gente manter a estrutura da comédia teatral, com texto, cenário, figurino. Afinal de contas, hoje em dia, o mainstream é o stand-up e sua despretensão de produção”. 

Lucinho, que no espetáculo vive o frustrado organizador da orgia, também foi inquirido por Diogo Vilela, que buscou uma análise mais aprofundada sobre a forma como a graça pode trazer questões íntimas. “Você acha que o humor pode ser psicológico quando representado?”, questionou Vilela. E a resposta foi: “Acho que existe um componente psicológico em qualquer tipo de representação. O que importa é a dosagem que, no meu caso, deve ser mínima”.

Filho do grande humorista Lúcio Mauro, Lucinho foi ainda desafiado por Andrea Beltrão a apontar a diferença existente entre o humor dos anos 1990 e o atual. Para ele, que pode acompanhar ao menos três gerações de comediantes graças à carreira do pai, o ponto principal está na inflação do mercado. “Nos anos 1990, verificamos que o bom ator tinha que se arriscar no humor. Hoje, os jovens não querem mais ser guitarristas, nem DJs. Querem ser comediantes. Com isso, há uma certa saturação e até mesmo um nivelamento por baixo”, disparou.

Com tal comentário, Lucinho sai da zona de conforto e busca, voluntariamente ou não, chacoalhar seus colegas de profissão. Uma bem-vinda medida, aprimorada por outras questões formuladas pelos convidados do Estado, especialmente aos jovens componentes do novo grupo, cuja maioria ainda não atingiu os 40 anos de vida.

 

E coube, uma vez mais, a Diogo Vilela a missão de cutucar - para Debora Lamm, que interpreta a angustiada Branca de Neve, ele passou duas perguntas: “O comediante precisa se achar engraçado para fazer humor?” e “Você acredita que, para fazer humor, o comediante precisa ter técnica ou apenas o improviso?”. Debora, que se lembra de sair de uma sessão de 5 X Comédia no Canecão com as bochechas doendo de tanto rir, ofereceu uma resposta para as duas ponderações: “Independentemente de a pessoa se achar engraçada ou não, ela deve fazer o espectador rir. A técnica da comédia é muito precisa, o improviso também não é simples, exige agilidade do pensamento. O comediante é o ator que tem o requinte de um olhar crítico, debochado, generoso. Questão de olhar”.

Para a mesma pergunta, Fabíula Nascimento, que vive a revoltada arara vermelha diante do novo mascote do pet shop, um poodle queen, foi sucinta: “Tudo é uma mistura de técnica com improviso”.

FERNANDA TORRES entrevista BRUNO MAZZEO

Costumo dizer que o 5 X Comédia era uma versão Las Vegas dos herdeiros do Asdrúbal e do Besteirol. A ideia de retornar com o 5 X rondou o grupo original, mas vocês vieram na hora certa, quando uma geração de novos atores e autores chegou à idade que tínhamos na época, 30 anos, idade Vegas, da maturidade. Qual a sensação de ter chegado aos 30?

Adorei isso de Vegas. O primeirão só assisti em vídeo. Concordo quando diz que foi a hora certa da retomada. Mas, sobre a sensação dos 30, agora que tô chegando aos 40, confesso que não lembro!

DIOGO VILELA entrevista DEBORA LAMM

O comediante precisa se achar engraçado para fazer humor? Você acredita que para fazer humor o comediante precisa ter técnica ou apenas o improviso? Espero que tudo dê certo para esse espetáculo que amei fazer!

Independentemente de a pessoa se achar engraçada ou não, ela deve fazer o espectador rir. A técnica da comédia é muito precisa, o improviso também não é simples, exige agilidade do pensamento. O comediante é o ator que tem o requinte de um olhar crítico, debochado, generoso. Questão de olhar.

DEBORA BLOCH entrevista LÚCIO MAURO FILHO

Qual é a dificuldade e qual é a grande delícia de fazer 5 X Comédia?

A dificuldade está em conseguir fazer um desenho interessante durante a cena, com colorido e espaço para a dinâmica, pois cada um só tem sua própria cena para apresentar. A delícia é poder estar representando uma grife que preza pela excelência em todos os setores, interpretação, texto, direção, cenografia.

E o que é comédia para você?

Aquilo que provoca riso, com menos explicação possível.

LUIZ F. GUIMARÃES entrevista FABÍULA NASCIMENTO

Como você se sente trazendo à tona um espetáculo que foi um marco de público em todo o Brasil? Esse modelo de teatro muda alguma coisa para você como ator ou atriz?

Eu fiquei muito feliz quando recebi essa oportunidade e também sinto muita responsabilidade, é um peso gostoso. Teatro é teatro, cada espetáculo tem um modelo diferente e o exercício real é o de nos transformar em cada projeto. Ser atriz é transformar, então, sim, esse modelo me levou para outros lugares, e a riqueza está exatamente nisso.

5 X COMÉDIA

Teatro Frei Caneca. Rua Frei Caneca, 569 - Shopping Frei Caneca, 7º piso. 6ª, 21h. 

Sáb., 21h30. Dom., 19h. R$ 50 / R$ 120. Até 30/4

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