Rafael Beck
Rafael Beck

‘Chaves – Um Tributo Musical’ leva icônicos personagens e seus bordões para o palco

Estreia no dia 23, no Teatro Opus, o musical que resgata Chaves, Quico, Chiquinha, Seu Madruga e outros populares personagens da série mexicana

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

12 de agosto de 2019 | 21h44

O desafio era grande: como transpor para o palco do teatro os personagens e a vila de um dos mais icônicos seriados de TV sem se parecer como uma simples cópia? Foi a primeira prova enfrentada pelo diretor Zé Henrique de Paula, quando convidado para dirigir um musical inspirado na série mexicana Chaves. “Percebemos que não poderia ser uma simples transposição, pois, se a TV oferece o close, o teatro ocupa mais o olhar do espectador”, conta o encenador que, depois de um trabalho que consumiu mais de dois meses, agora dá os retoques finais em Chaves – Um Tributo Musical, que estreia no dia 23, no Teatro Opus.

Trata-se de um texto original de Fernanda Maia, que também assina a direção musical. A trama é engenhosa: o Céu dos Palhaços é um local especial, que só recebe figuras dignas dessa função. A seleção é feita por um grupo, que logo recebe um postulante especial: o mexicano Roberto Gómez Bolaños (1929-2014), um dos ícones do humor e entretenimento de seu país, criador da série El Chavo del Ocho, conhecido no Brasil como Chaves. Entre 1971 e 1980, foram exibidos 290 episódios, que logo alcançaram sucesso mundial. Aqui, o seriado é exibido há 35 anos pelo SBT.

A história acompanha a rotina de uma vila mexicana onde os moradores locais se relacionam, tendo Chaves (Mateus Ribeiro), garoto órfão de 8 anos, como ponto central: ele tem como amigos Quico (Diego Velloso) e Chiquinha (Carol Costa) e, às vezes, enfrenta problemas com adultos, como Seu Madruga (André Pottes), Dona Florinda (Maria Clara Manesco), Dona Clotilde (Andrezza Massei), Professor Girafales (Patrick Amstalden) e Seu Barriga (Ettore Verissimo), por suas travessuras. 

“São personagens muito icônicos, ou seja, os fãs têm uma relação muito passional com a série”, conta Fernanda, que assistiu a todos os episódios antes de planejar o musical. “É uma estrutura muito simples: uma sucessão de gags, com todos os personagens repetindo sempre os seus bordões. Isso mostra uma engenhosidade no roteiro.” Segundo ela, outro trunfo promovido pela linguagem simples é a falta de temor de se colocar os personagens em situações falíveis, o que gera uma grande possibilidade de momentos.

Para expandir o território da Vila e acrescentar novas figuras ao roteiro (a começar por Bolaños, vivido por Fabiano Augusto), Fernanda e Zé Henrique apostaram na figura do palhaço. “Como foi um, Bolaños soube colocar características específicas em seus personagens, como a disponibilidade tanto para o novo como para não julgar os atos dos outros”, comenta o encenador que, por causa disso, iniciou o trabalho de forma inusitada: em vez de receber o texto no primeiro dia de ensaios, o elenco foi convidado a improvisar.

“Cada um passou a testar características que julgava necessárias para seu papel”, conta Mateus Ribeiro, ator conhecido pela energia com que atua, mas, aqui, revela um surpreendente comedimento. O mais difícil, segundo ele, foi a voz. “A de Chaves é emblemática, que combina com seu tipo físico e trejeitos.” Aos fãs, uma garantia: frases como “sem querer querendo” não faltam.

“Foi um desafio”, reconhece Andrezza Massei, também com uma brilhante trajetória no musical. “Fiz um curso de palhaço, mas pouco usei na minha carreira.” A experiência, na verdade, contagiou o grupo. Como Milton Filho, que vive Benjamin, responsável pela entrada de novatos no Céu de Palhaços. “É uma homenagem a Benjamin de Oliveira (1870-1954), o primeiro palhaço negro do Brasil”, orgulha-se ele.

Também a coreografia nasceu a partir da improvisação do elenco. “A partir do momento em que surgiram os palhaços e os personagens do Chaves, meu trabalho foi o de contar a história a partir da fisicalidade; então, algumas cenas são mais infantis, adultas, poéticas, caricatas, cômicas”, observa o coreógrafo Gabriel Malo. “E os personagens da TV também ajudaram, pois são muito expressivos.” Nesse exercício de imaginação, uma cena se destaque pelo lirismo: quando Bolaños se encontra com Chaves. “Ali, a arte da imaginação se revela”, comenta Fernanda.

Chaves - Um Tributo Musical

Teatro Opus. Shopping Villa-Lobos. Av. das Nações Unidas, 4777. 6ª, 21h. Sáb., 16h e 20h. Dom., 15h 

e 19h. R$ 75 / R$ 120. Estreia 23/8. Até 13/10

 

'A montagem deveria ser exportada'

​Heriberto Lopez de Anda, diretor do Grupo Chespirito

O que o senhor achou da montagem brasileira?

Estou acostumado a acompanhar ensaios de produções inspiradas no Chaves – e sempre faço reparos, como a quantidade exata de sardas de Chaves. Aqui, fiquei quieto, pois nada me pareceu errado, pelo contrário: fiquei impressionado com o preciosismo no cuidado com os detalhes.

O senhor chegou a chorar no final do ensaio, não?

Sim, é verdade. O que mais me surpreendeu foi o fato de a montagem não se preocupar apenas em reproduzir os personagens do Chaves, mas fazer uma homenagem a Roberto (Bolaños). Dando-lhe um lugar no céu de palhaços. Ele gostaria disso. E os atores não imitam, mas utilizam elementos dos personagens para acrescentar algo. Essa montagem deveria ser exportada para outros países. 

 

Exposição oferece panorama da vida e obra de Bolaños

O hall do Teatro Opus vai abrigar uma exposição sobre a vida e a obra de Roberto Gómez Bolaños, durante a temporada de Chaves – Um Tributo Musical. São reproduções, fotografias e objetos do acervo pessoal do artista, capazes de oferecer ao público uma imersão em sua principal criação. “Roberto era um homem muito zeloso de sua produção, cuidadoso mesmo”, atesta Heriberto Lopez de Anda, diretor do Grupo Chespirito e que auxiliou Bolaño na direção cênica da série durante 13 anos. 

Com tanto tempo de convivência, Heriberto descobriu detalhes sobre a forma de trabalho de Bolaños – como a concentração. “Mesmo com estúdio tomado de barulho, Roberto parecia que não estava ali, tão concentrado que estava. O pior é que ele se esquecia que segurava uma xícara de café e, ao mexer com a mão, acabava me dando um banho. Isso aconteceu várias vezes, até eu descobrir o melhor lugar para me posicionar, longe do alcance da xícara”, diverte-se.

Chespirito, que inspira o nome do grupo detentor dos direitos, é um apelido carinhoso dado a Roberto Goméz Bolaños, o criador mexicano e intérprete dos personagens Chaves e Chapolin. Nascido espontaneamente e logo adotado por familiares e amigos, o apelido é um tanto exagerado pois significa “pequeno Shakespeare”, uma vez que Bolaños é conhecido como um gênio no seu país.

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