Rafael Beck
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'Chaves - Um Tributo Musical' celebrou legado de Bolaños nos palcos

Diretor do espetáculo relembra experiência de montar musical inspirado no fenômeno televisivo 'Chaves'

Zé Henrique de Paula, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2021 | 05h00

As minhas memórias do processo de construir Chaves, um tributo musical são como aquelas que temos da nossa infância – levemente difusas, por vezes edulcoradas, manchadas pela passagem do tempo. Nem faz tanto tempo assim, mas levando em consideração que uma pandemia mudou todo o rumo das nossas vidas, especialmente as dos artistas de teatro, o intervalo que separa o dia de hoje da época em que o musical foi concebido e montado faz com que essas lembranças fiquem ainda mais subjetivas.

Algumas memórias, entretanto, são nítidas e perenes. Primeiro, o assombro que eu senti quando Adriana Del Claro – que produziu e idealizou o musical – me apresentou a sua ideia. Como seria possível fazer um musical sobre esse tema? Como transpor a série televisiva para um palco? Como não trair uma legião de fãs, talvez os mais aficcionados dentre os fãs de TV? A tarefa não parecia nada simples, muito pelo contrário. O que eu me lembro desse dia foi o susto, que hoje se mistura à coragem de uma produtora que nunca hesita, por mais que muita gente diga que aquilo não vai dar certo. E muita gente disse.

Depois, me volta a memória da primeira leitura do texto de Fernanda Maia com o elenco, cheia daquele tipo de energia que toda primeira leitura deveria sempre ter: maravilhamento, surpresa, emoção. Os atores gargalhavam e choravam ao mesmo tempo, um claro indício do tipo de material intangível que é a essência da obra de Roberto Gómez Bolaños. Um artista cuja empatia com o ser humano e suas fragilidades foi capaz de produzir um corpo de obra que dialoga de forma visceral com diferentes públicos, de diferentes gerações. Não à toa, seu apelido é Chespirito (o pequeno Shakespeare). Talvez muitos achem a comparação um despropósito, mas dadas as diferenças de época, meio e veículo, hoje eu a defenderia.

Nunca ensaiar uma peça foi tão divertido: essa é uma lembrança que sou capaz de resgatar rapidamente. Fernanda criou um dispositivo dramatúrgico de uma sagacidade ímpar – o ceu para onde todos os palhaços vão depois de mortos e onde Bolaños chega no início da peça. Diante disso, e radicalmente diferente do processo normal de ensaios de um musical, passamos por uma fase inicial na qual os atores só improvisavam esquetes cômicos. A equipe ria de perder o fôlego e, enquanto isso, o elenco forjava (quase sem perceber) uma linguagem comum. A do palhaço, esse ser que nos diverte, mas que sempre carrega uma dor no peito, uma tristeza qualquer, uma consciência da nossa vulnerabilidade como seres humanos sobre este planeta. E assim nos sentíamos mais próximos do Roberto. E assim o compreendíamos cada vez mais, inclusive as suas contradições – elas que são um combustível precioso e mal compreendido para artistas dessa estatura.

Sem dúvida, a lembrança mais forte que eu tenho é a de estar no teatro durante a temporada da peça. Obviamente, essa lembrança é cheia de nostalgia, uma vez que estamos há meses e meses afastados do nosso habitat natural. Mas no caso de Chaves, um tributo musical, estar no teatro significava vivenciar uma espécie de catarse coletiva bem incomum. Eu não estou exagerando em nada quando digo isso: a força tamanha daquele riso e daquele choro, às vezes simultâneos, me pegou totalmente de surpresa e se tornou uma espécie de vício. Fiquei viciado em viver aquela experiência junto com o público, fiquei vidrado em me sentar num canto da plateia e assistir não ao que se passava no palco, mas em assistir à plateia. Fiquei, afinal, apaixonado pela força do palhaço. Mas sempre tentando compreender o que é que Roberto criou e que nos toca tão profundamente.

Ao final da peça, quando Bolaños e Chaves se encontravam em cena pela primeira vez, numa interpretação pungente e delicada de Fabiano Augusto e Mateus Ribeiro, setecentas pessoas seguravam (ou não) o choro juntas, em todas as sessões. Isso não é nada desprezível de se acontecer num teatro. E aí é que, de fato, ficava enormemente pertinente a fala da criatura, dirigida ao seu criador: “Eu é que criei você”.

*Zé Henrique de Paula é diretor do espetáculo 'Chaves - Um Tributo Musical'

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