JOSÉ PATRÍCIO/ESTADÃO
JOSÉ PATRÍCIO/ESTADÃO

Cenas impactantes marcam trabalho do Balé da Cidade

Seduzir visualmente o espectador é o que buscam coreografias de Gleidson Vigne, Jorge Garcia e Alex Soares

Helena Katz, Especial para o Estado

30 Março 2015 | 03h00

Um mesmo jeito de pensar a dança alinhava os três criadores que assinam o novo programa do Balé da Cidade de São Paulo, estreado no Sesc Pinheiros no fim de semana. Ele guarda sintonia com o que se pratica em grupos oficiais sem coreógrafos residentes, caso desta companhia: o compromisso é com a produção de imagens impactantes.

As três estreias comungam no modo de lidar com a música e de criar dança em torno de um tema, que é vestido com um figurino e abrigado em um cenário com iluminação própria, tudo se organizando em torno de uma relação de exterioridade mútua.

As escolhas estéticas poderiam ser outras, inteiramente diferentes, e sua eficiência não seria prejudicada. A música é meteorológica, como diz, com propriedade, Lívio Tragtenberg, pois está lá para “dar o clima”; e cenário, figurino e iluminação, como se fossem efeitos especiais, devem fazer a plateia reagir com um “uau, que incrível!”.

Tendo sido essa a concepção que se tornou hegemônica, e lembrando que Gleidson Vigne (Fio da Meada), Jorge Garcia (Árvore do Esquecimento) e Alex Soares (Cenas a 37) foram bailarinos da companhia que agora coreografam, não é de se estranhar que suas criações estejam normatizadas neste modelo.

Como se fossem ingredientes de uma receita, os componentes dessas danças são trazidos de fora para produzir “um efeito de” sedução visual. Cada detalhe é fruto de uma “boa sacada”.

A mesma tônica de composição está nas três obras: um fraseamento composto por movimentos que anseiam ser cada vez mais rebuscados e vão agregando novas referências gestuais, tornando-se mais difíceis, e exigindo cada vez mais habilidade técnica.

Cada um se desincumbiu bem daquilo a que se propôs, demonstrando maturidade e avanço neste tipo de fazer coreográfico. A proposta mais instigante foi a de Alex Soares, que mergulhou na história da companhia e trouxe os personagens de Álbum de Família (1978), de Oscar Araiz, que celebrizou o BCSP; Jorge Garcia partiu do livro e documentário de Renata Amaral, Pedra da Memória, para lidar com as ricas mestiçagens que o formaram; e Gleidson Vigne escolheu um vago “questionar os desejos e objetivos da vida”.

As três propostas são atravessadas por um tom de verborragia, como se precisassem colecionar muitas soluções coreográficas.

Com esse traço comum, tornam-se oportunidades para confirmar um elenco afinado e engajado, cuja competência se sobrepõe à diversidade dos materiais que executa, uma vez que a especificidade dos vocabulários não constitui uma questão central.

Reunindo tais características, este se tornou um autêntico “programa BCSP”.

Mais conteúdo sobre:
Dança

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.