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Caverna.club: Uma folha de carbono

Pesquisador calcula que existem pelo menos 744 textos perdidos no período elisabetano

João Wady Cury, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 03h00

A cada dia uma novidade, uma descoberta que nos surpreende, a cada pesquisa um texto brota das profundezas dos séculos 16 e 17 de uma Inglaterra longínqua. E assim podem surgir novas obras de Will Shakespeare, aquele travesso das palavras e estelionatário inconfesso de sentimentos, e de seus contemporâneos, não menos sapecas, como Christopher Marlowe, Ben Jonson, Edmund Spencer, Thomas Kyd. São as chamadas obras perdidas do período elisabetano, escritas entre 1570 e 1642. Um dos maiores especialistas do mundo na área, o pesquisador David McInnis, da Universidade de Melbourne, na Austrália, acaba de publicar pela Cambridge University Press sua obra mais recente sobre o tema: Shakespeare and Lost Plays – Reimagining Drama in Early Modern England (amzn.to/3A7Hb3f).

 

Folhas ao vento

A pesquisa de David McInnis foi iniciada de fato há mais de 20 anos. Na época, espertolino de primeira hora, ele já sabia das coisas. Claro, seguia a tradição dos pesquisadores do período elisabetano do teatro inglês, vários deles responsáveis por recuperar textos perdidos e também por entender detalhadamente como viviam e o que faziam de suas vidas os autores teatrais e poetas – não à toa as vidas das estrelinhas da época, Marlowe e Shakespeare, foram desveladas nos últimos 100 anos à base de muito se chafurdar na papelada do passado. Tinha lógica. Os textos das peças saíam das mesas dos dramaturgos e iam direto para as mãos dos atores já para serem encenadas. Várias delas não chegavam a ganhar uma primeira impressão para que o texto fosse estabelecido e nós, pobres mortais, soubéssemos de sua existência. Aliás, foi graças a produtores e atores do teatro inglês da época que alguns dos textos sobreviveram, pois guardavam a papelada a que chamavam peça para depois serem recuperadas e, com sorte, impressas em forma de livro. Aqui David McInnis conversa com outro especialista no tema peças perdidas, Matthew Steggle, sobre Shakespeare and Lost Plays (youtu.be/ufeCwRPOts0).

 

 

Barafunda dramática

McInnis deu um passo adiante. Decidiu integrar tudo o que sabia à modernidade. Criou um grande banco de dados online, chamado Lost Plays Database, e desovou na plataforma autores e textos perdidos. Era o mínimo que poderia se esperar de um pesquisador, mas nem sempre é assim. Mas foi o que McInnis fez e, para seus botões, tinha um bom argumento. Calcula que existem pelo menos 744 textos perdidos no período elisabetano. Todos estes já identificados, sem contar o que estão por ser descobertos. O que nos levaria a pensar hoje, olhando dessa distância de tempo, na falta que uma folha de carbono fez a todos esses rapazes, cacholas latejantes do teatro da Idade Moderna (bit.ly/3ykh7S6).

 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS’

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