GABRIELA BILO / ESTADAO
GABRIELA BILO / ESTADAO

'Carmen' resgata voz da cigana morta pelo amante

Espetáculo une dança e música ao embate de dois homens que tentam domar uma mulher livre

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2017 | 04h00

Se nos tempos de hoje a expressão “lugar de fala” parece ser requisito primordial para estrear um espetáculo, as grandes versões da história de Carmen para a ópera e o cinema parecem se apoiar apenas nos relatos do amante D. José, já que ela própria está morta, vítima do próprio amante.

Assim como na música Matei, de Vicente Celestino, o que se tem são as emoções vindas da boca de homens que executaram mulheres. 

Nessa contracorrente, o casal de atores Natalia Gonsales e Flávio Tolezani resgata a voz da cigana de Carmen, que estreia nesta sexta, 30, no Teatro Aliança Francesa. Com um espetáculo que une dança, música e a liberdade cerceada de uma mulher, a montagem de Nelson Baskerville fortalece o triângulo amoroso entre o policial D. José, a cigana e seu marido, interpretado por Vitor Vieira. “Queria reforçar esse conflito, de uma mulher que está ameaçada pelo ciúme de dois homens que querem comandá-la.” 

Vieira surgiu inicialmente como um narrador, mas, aos poucos, suas entradas em cena incluíram viver outros personagens, além do marido de Carmen. “Ele faz um toureiro, que tenta dominar o animal, tal qual os homens tentam fazer com a mulher. Carmen é esse animal que nasceu livre, embora queiram enquadrá-la dentro de relacionamentos”, diz o diretor.

Outro desejo era trazer os relatos de Carmen de modo mais fresco, já que na história original ela já está morta. “É importante que ela tenha espaço para dizer o que pensa, nessa relação com D. José. Carmen é livre, selvagem e queria amar livremente”, explica Natalia. “Ao que José traz seu ponto de vista sobre esse amor que o levou à prisão por matá-la.”

Ao lado da versão adaptada por Luiz Farina, o diretor conta que também se apoiou nas imagens trazidas no conto, ao criar sua encenação. “Carmen costumava jogar doces pela casa, para afastar as moscas dos corpos”, conta Baskerville. Caixotes e uma estrutura metálica delimitam a casa da mulher, criam nichos de uma pequena cozinha e quarto, local que realiza seus encontros eróticos, com direito a drogas, bebidas e sexo, abrigando a performance dos atores que ainda executam passos de sapateado e flamenco. 

Para o diretor, o espetáculo se depara com um período difícil e atual que inclui a definição de assassinatos de mulheres por seus parceiros como crimes passionais ou de questionar seus comportamentos para amenizar os crimes.

Ele cita o caso recente da apresentadora Fernanda Young, que moveu um processo após sofrer ataques na internet. No julgamento, o juiz reduziu a pena do acusado e acrescentou que Fernanda teria uma “reputação elástica”. “Existe sempre essa intenção de justificar um ato. Se você trocar de lugar e colocar um homem, isso não aconteceria.”

CARMEN. Teatro Aliança Francesa. Rua General Jardim, 182. Tel.: 3572-2379. 6ª, sáb., 20h30, dom., 19h. R$ 50. Até 20/8.

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