Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Cantora Fabiana Cozza renuncia ao papel de Dona Ivone Lara em musical

Indicação da cantora pela família da sambista para o papel foi criticada nas redes sociais

O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 17h42

Fabiana Cozza anunciou, pelas redes sociais, neste domingo, 3, que renunciou ao papel de Dona Ivone Lara no musical sobre a sambista, com estreia prevista para setembro deste ano. 

Na sua página no Facebook, Fabiana publicou um texto enorme no qual diz não participar mais de Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro – O Musical!, dias depois de todo o elenco da produção ter sido anunciado. Fabiana interpretaria Dona Ivone na vida adulta.   

“Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar ‘branca’ aos olhos de tantos irmãos”, escreveu Fabiana (confira a carta da cantora, na íntegra, no final do texto). 

Nas redes sociais, a questão racial foi muito debatida por fãs da sambista e por páginas do movimento da cultura negra. Para muitos, Fabiana era considerada “branca demais” para o papel. 

Dona Ivone Lara morreu no mês de abril, aos 97 anos.  Para o crítico de música do Caderno 2 Julio Maria, tratava-se da maior compositora do samba e da música brasileira (leia a análise aqui).  

O musical Um Sorriso Negro foi idealizado por Jô Santana, em um mesmo projeto que homenageou outros nomes do samba, como Cartola (em Cartola, O Mundo É um Moinho). A direção e dramaturgia do projeto é de Elísio Lopes Jr. e a direção musical está sob a batuta de Rildo Hora. 

A produção do musical não se pronunciou oficialmente, mas republicou o texto de renúncia da cantora na página da própria produção, com a adição da foto abaixo, na qual Dona Ivone Lara e a Fabiana Cozza dividiam o palco. 

Abaixo, o texto publicado por Fabiana Cozza: 

"Fabiana Cozza dos Santos, brasileira

Nascimento: 16 de janeiro de 1976

Mãe: Maria Ines Cozza dos Santos, branca

Pai: Oswaldo dos Santos, negro

Cor (na certidão de nascimento): parda

"Aos irmãos:

O racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro. Renuncio hoje ao papel de Dona Ivone Lara no musical “Dona Ivone Lara – um sorriso negro” após ouvir muitos gritos de alerta – não os ladridos raivosos. Aprendo diariamente no exercício da arte – e mais recentemente no da academia, sempre com os meus mestres - que escuta é lugar de reconhecimento da existência do Outro, é o espelho de nós.

Renuncio porque falar de racismo no Brasil virou papo de gente “politicamente correta”. E eu sou o avesso. Minha humanidade dói fundo porque muitas me atravessam. Muitos são os que gravam o meu corpo. Todas são as minhas memórias.

Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar “branca” aos olhos de tantos irmãos. Renuncio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro. E virar pensamento por horas.

Renuncio porque vi a “guerra” sendo transferida mais uma vez para dentro do nosso ilê (casa) e senti que a gente poderia ilustrar mais uma vez a página dos jornais quando ‘eles’ transferem a responsabilidade pro lombo dos que tanto chibataram. E seguem o castigo. E racismo vira coisa de nós, pretos. E eles comemoram nossos farrapos na Casa Grande. E bebem, bebem e trepam conosco. As mulatas.

Renuncio em memória a todas negras estupradas durante e após a escravidão pelos donos e colonizadores brancos.

Renuncio porque sou negra. Porque tem sopro suficiente dizendo a hora e o lugar de descer para seguir na luta. É minha escuta de lobo, de quilombola. Renuncio pra seguir perseguindo o sol, de cabeça erguida feito o meu pai, minha mãe (branca), meus avós, meus bisavós, tatas...

Ao lado de vocês, irmãos.

Renuncio porque a cor da pele de Dona Ivone Lara precisa agora, ainda, ser a de outra artista, mais preta do que eu. Renuncio porque quero um dia dançar ao lado de todo e qualquer irmão, toda e qualquer tom de pele comemorando na praça a nossa liberdade.

Renuncio porque respeito a família de Dona Ivone Lara: Eliana, André, seu pai e todos os parentes e amigos que cuidaram dela até os 97 anos e tem sido duramente constrangidos por gente que se diz da luta mas ataca os iguais perversamente. Renuncio pelo espírito de Dona Ivone que ainda faz a sua passagem e precisa de paz.

Renuncio porque quero que este episódio sirva para nos unir em torno de uma mesa, cara a cara, para pensarmos juntos espaços de representatividade para todos nós.

Renuncio porque quero que outras mulheres e homens de pele clara, feito eu, também tenham o direito de serem respeitados como negros.

Renuncio porque tenho alma de artista e levo amor pras pessoas. Porque acredito num mundo feito de gente e afeto.

Renuncio porque não tolero a injustiça, o desrespeito ao outro, o linchamento público e gratuito das pessoas, descabido, vil, sem caráter, desumano.

Renuncio em respeito à direção e produção do espetáculo que tanto me abraçou, em respeito ao elenco que agora se forma e que, sensível a tudo, lutou por seu espaço e precisa trabalhar e criar em silêncio.

Renuncio por amor aos meus amigos artistas, familiares, irmãos que a vida me deu que também se entristecem, mas não se acovardam diante dos covardes.

Renuncio porque sou livre feito um Tiê, porque cantarei hoje, aqui, lá e sempre à senhora, Dama Dourada, minha amiga e amada Dona Ivone Lara.

Renuncio porque, como escreveu meu amado amigo Chico Cesar, “alma não tem cor”. E a gente chega lá."

Fabiana Cozza"

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