Annelize Tozetto
Annelize Tozetto

‘Cães de Rua’ tenta romper bolha com reflexões sobre efeitos do negacionismo

Obra narra encontro de pacientes em um consultório psiquiátrico para tratar de temas como abuso e golpes sofridos

Bruno Calvacanti, Especial para o Estadão

01 de fevereiro de 2022 | 20h00

Há quatro anos, quando iniciou as pesquisas para seu primeiro espetáculo, a Companhia ColaAtores, idealizada e encabeçada pela atriz e diretora Patrícia Vilella, mergulhou na obra de uma série de autores brasileiros contemporâneos, entre eles os já clássicos Mario Viana, Mário Bortolotto, Sérgio Roveri e Ivam Cabral, sendo este último autor de Velórios, o primeiro espetáculo do grupo, de 2019. A essa produção se seguiu a montagem de CDP 201 – Audiência de Custódia, texto em que o dramaturgo e editor Alex Giostri narra relatos colhidos dentro do sistema prisional paulista, que teve sua temporada interrompida em 2020 por causa da pandemia.

Isolados, os artistas iniciaram processo de encontros online nos quais dividiam angústias, percepções e neuroses acerca da pandemia, do cenário político e, claro, da falta de perspectiva profissional. Essa série de depoimentos levou Vilella a rascunhar o que se tornou Cães de Rua, espetáculo em cartaz no Teatro Irene Ravache da Oficina de Atores Nilton Travesso.

“Tivemos um processo de conversas em busca de um tema, e as opções gravitavam entre a pandemia e o isolamento, e o microcosmo de pessoas que sofreram golpes e abusos em algum momento da vida. A concepção surgiu da reunião em um só tempo e lugar das personagens numa sala de terapia onde as vítimas encontram empatia ao expor suas tristezas, desespero e traumas, e uma trama paralela sobre o negacionismo científico e a política que o Brasil atravessa”, conceitua a autora, que assina sua primeira dramaturgia mais por necessidade do que escolha propriamente dita.

“Sentimos uma necessidade natural de falar do que estava acontecendo naquele período tão atípico e de exceção. O resultado foi um movimento espontâneo de escrever sobre o que se apresentava à minha frente. O plot tinha muitas possibilidades e era mais forte do que o que encontramos nos textos pesquisados. Penso que a urgência em me posicionar sobre os acontecimentos me impeliu a investir num texto autoral”, comenta a diretora. 

Na obra, o grupo narra o encontro de uma série de pacientes num consultório psiquiátrico para tratar de traumas relacionados a abusos e golpes que levaram ao longo da vida. As questões políticas entram como atravessadores, representando diagnósticos depressivos causados pelo cenário sociopolítico.

“Quem nunca foi vítima de um golpe ou abuso? Quem não conhece um negacionista ou recebeu uma fake news? Quem não perdeu ou conhece uma pessoa vítima desta política que incentivou por exemplo a imunidade de rebanho?”, questiona Vilella.

“Em épocas de grandes catástrofes que já assolaram a humanidade, as pessoas são mais suscetíveis e vulneráveis a acreditar em teorias da conspiração por não conseguir lidar com aspectos que limitam a sua vida cotidiana, como no caso da pandemia, o isolamento social e o uso de máscaras, negando assim, a existência da crise sanitária. E é nesse momento que elas se tornam presas fáceis para políticos que se aproveitam destas fragilidades emocionais em meio a este caos. E é sob este quadro que esses políticos e seus apoiadores, a partir de interesses pessoais, praticam a disseminação de fake news, e assim incentivam e impõem a narrativa de que o perigo não existe, que não é real.”

Embora sublinhando temática costumeiramente associada a um “discurso para convertidos”, Patrícia Vilella acredita que o espetáculo possui força de diálogo para além da bolha antibolsonarista. “Com o roteiro e as interpretações viscerais, talvez possamos furar a bolha com uma reflexão sobre as consequências do negacionismo científico, onde tantas mortes poderiam ter sido evitadas.”

Com elenco formado por Caio Lazarini, Caio Prata, Fabiano Issas, Fabiano Oliver, Francine Mello, Josué Francky, Guilherme Lage, Lívia Guimarães, Luana Zaparoli, Luísa Horta, Marci Taques, Mike Albuquerque, Noeli Santilli, Olga Castilho, Pablo Perosa, Pietra Pan, Reinaldo Fonseca e Vera Campos, Cães de Rua cumpre temporada até 10 de abril. 

Tudo o que sabemos sobre:
Mario Vianateatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.