Denise Andrade
Denise Andrade

Caco Ciocler monta Lista Fortes Brasil, ação voltada às empresas no combate à pandemia

Site lançado oficialmente tem participação de nomes como Gilberto Gil, Nathália Timberg, Alice Braga e Rodrigo Santoro

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2020 | 05h04


Desde que inventou a Lista Fortes Brasil, em alusão à revista norte-americana Forbes, o ator Caco Ciocler não parou de trabalhar em confinamento. “Já me apareceram seis projetos remotos”, conta em entrevista por telefone ao Estado. O site lançado nesta quinta-feira, 9, e disponível a partir das 18h, é uma convocatória a empresas privadas que queiram doar 1% de seu lucro líquido para investimentos em ações de combate à pandemia do novo coronavírus. “A referência é à lista dos EUA, bastante competitiva e que acaba definindo o prestígio de instituições com grandes fortunas. Aqui a Lista Fortes Brasil vai posicionar grandes empresas que sempre faturaram e agora precisam oferecer seu apoio mínimo para quem mais precisa”, conta.

Como recompensa pela ajuda, as empresas terão seus nomes divulgados e serão relacionadas como instituições modelo, tanto no investimento de recursos quanto na preocupação de manter empregos. Tudo começou quando o ator lançou um vídeo em suas redes explicando a ação. Não demorou muito para que colegas artistas e personalidades, com milhões de seguidores, procurassem Ciocler para participar de uma iniciativa “que já não tem tamanho”, e que traz nomes confirmados como Gilberto Gil, Marília Gabriela, Alice Braga, Alexandre Nero e Rodrigo Santoro. “O que estamos vivendo é inédito por muitos motivos, penso que, no futuro, nos voltaremos a esse momento para entender o que aconteceu. Até lá, precisamos superá-lo”, defende. 



A adesão massiva de artistas surpreendeu Ciocler, que agora vive em meio a reuniões com interessados nos projetos, tomando boa parte de seu tempo na quarentena. Semanas antes disso, ele estava prestes a estrear novo espetáculo, Língua Brasileira, dirigido por Felipe Hirsch, mas a montagem sequer teve tempo de ser noticiada. Ciocler lembra que os ensaios no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, começaram a parecer perigosos demais. “A gente tentava manter a distância uns dos outros. Ainda não havia orientações sobre, por exemplo, se podia chegar perto do outro.”

Após o fechamento das 43 unidades do Sesc em São Paulo e de tantos outros espaços culturais na capital e no Estado, ele preferiu fazer um movimento contrário ao de muitos artistas que passaram a divulgar seus trabalhos nas redes sociais, realizando leituras de peças e versões adaptadas de espetáculos. “Não há previsão de que a gente volte a se reunir tão cedo. Na arte, esse encontro é bastante essencial e o teatro talvez seja o mais afetado. Entre os projetos que me envolvi, está o de uma websérie, uma alternativa. É claro que o artista vai ter que se reinventar, assim como todas as profissões. Talvez o teatro volte de um jeito diferente, ou a gente vai descobrir um outro jeito de estar no palco”, explica.

E o impacto no segmento cultural, que já traz prejuízos para espaços culturais, cinemas e casas de shows, serve para desmontar antigas críticas aos artistas, segundo o ator. “A busca por séries, filmes e livros e entretenimento colocou o público em um novo patamar com o artista. Fazemos um trabalho que merece respeito e espaço.” 

Para ele, o mesmo ocorre com os médicos. “Nos últimos anos, os cientistas estavam enfrentando o mesmo lugar de renegados, junto aos artistas. Não duvido que este momento crítico vá resgatar a importância do investimento em pesquisas, além da mão forte agindo na saúde pública do País.”

Outra boa prática disseminada por Ciocler em suas redes é a sugestão de que os serviços de delivery incluam taxa de 10% para que seja dividida entre a equipe de entrega e os garçons. “Os estabelecimentos estão fechados, os garçons não estão trabalhando e passam por muita necessidade. Eu espero que você, dono de restaurante, tenha conseguido manter o emprego dos garçons. E, mesmo assim, eles estavam acostumados a receber a taxa dos 10%”, disse. 

Se a quarentena aumentou a procura por serviços de entregas de alimentos e produtos por aplicativos, o pessoal dos restaurantes ficou descoberto. “A minha sugestão é que você, que continua trabalhando, fazendo o serviço de delivery, inclua essa taxa adicional de 10% nas compras. E você, que está em casa e com condições, pague essa taxa. E que essa taxa seja dividida entre os garçons e os entregadores. Assim, a gente ajuda as pessoas que estão passando por um momento difícil”, defendeu o ator em um dos vídeos. 

Em casa, Ciocler dispensou a diarista, mas manteve o pagamento à profissional. Ele contou à reportagem que, nos últimos dias, além das reuniões com os artistas acima citados, conversou com os cineastas Guel Arraes e Jorge Furtado, agora responsáveis pelo roteiro da campanha. Amir Admoni é autor da animação e a atriz Nathália Timberg emprestará sua voz para a ação. “Reuni artistas e gente da televisão porque estão mais próximos a mim. As próximas etapas devem incluir atletas olímpicos, campeões mundiais, pessoas com milhões de seguidores em suas redes, diferentes públicos – uma garantia de que conseguiremos espalhar essa missão por todo Brasil”, completou. 

Para não focar apenas em empresas milionárias, os projetos também incluem faixas e segmentos direcionados a orçamentos mais modestos de micros e médias empresas.

 

'O artista vai precisar se reinventar'

A poucos dias da estreia da nova peça de Felipe Hirsch, Língua Brasileira, Caco Ciocler e o elenco andavam sem saber como ensaiar. A unidade do Sesc Consolação ainda não tinha sido fechada, embora todo mundo já soubesse da velocidade de contágio do novo coronavírus. “A gente ensaiava a distância, e ficava imaginando como seria fazer teatro de longe.”

Impossível? A quarentena em São Paulo provocou a suspensão de contratos artísticos, interrompeu projetos e freou estreias, mas a cultura não acabou, nem os artistas. “Vejo colegas tocando ações pelas redes, como teatro na janela. Eu estou em um projeto de websérie”, conta o ator. 

Em casa, o confinamento tem proporcionado boas descobertas para Ciocler. Certa inquietação de repensar o ser humano o levou para um curso a distância de Biologia. “Estava um pouco cansado de olhar sempre da mesma maneira, queria renovar o jeito de pensar as coisas”, disse. Durante conversa com o Estado, ele não escondeu o entusiasmo ao explicar os estudos de citologia, a natureza do vírus, e fazer paralelos com a sociedade. “Ao replicar uma notícia falsa, por exemplo, estamos nos comportando como um vírus.”

 

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