Lenise Pinheiro
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Cacá Carvalho apresenta versão digital da peça 'A Próxima Estação – Um Espetáculo para Ler'

Espetáculo será exibido no YouTube Corpo Rastreado entre quarta, 8 e segunda, 13, às 20h, de graça, seguido de bate-papo com o público

Dirceu Alves Jr, Especial para o Estadão

08 de setembro de 2021 | 05h00

Em uma dessas madrugadas secas, o ator Cacá Carvalho acordou com sede e foi até a cozinha beber água. Sem sono, ligou a televisão e ficou encantado com os competidores dos Jogos Paralímpicos de Tóquio, atletas com deficiências, superando as próprias limitações físicas e firmando presença em um momento de rara beleza. “Eu, como artista, me sinto mutilado, impedido de subir no palco e compartilhar mensagens com uma plateia, mas a garra daqueles jovens me levou a acreditar que é preciso continuar de alguma forma”, comenta ele, aos 68 anos, na tentativa de entender qual será o papel da arte depois do impacto da pandemia da covid-19.

A cartada possível neste momento é a versão online da peça A Próxima Estação - Um Espetáculo para Ler, escrita e dirigida pelo italiano Michele Santeramo, que será exibida entre esta quarta, 8, e a segunda, 13, às 20h, no YouTube Corpo Rastreado, de graça, seguida de um bate-papo com o público. Em uma espécie de antiencenação, Cacá assume o delicado papel de leitor e, interagindo com a projeção das ilustrações da artista plástica Cristina Gardumi, conta a história de um amor que atravessa 50 anos.

O casal Violeta e Massimo vive um relacionamento de 2015 até 2065, em uma trilha repleta de poesia e conflitos com seus próprios sentimentos e as constantes mutações do mundo. A dramaturgia ganha a voz de Cacá e apresenta seis passagens, cada uma com o intervalo de uma década, em que os personagens podem tanto se afastar como se reaproximar. “Persigo o objetivo de não decorar o texto até hoje porque, se isso acontecer, estarei comprometendo as intenções do trabalho”, afirma. “Não é um espetáculo óbvio de ação e dramaticidade, tampouco uma construção clássica de narrador e, como é inegável que o mundo mudou no último ano, quero ver como será a receptividade.” 

Cacá já se considera um artista rodado no meio digital. Desde o começo da pandemia, ele protagonizou, entre outras iniciativas, uma versão fragmentada de A Poltrona Escura, um dos seus célebres monólogos, e o ousado Ítaca, 365, apto. 23, em que o intérprete se inspirou na obra de Homero e, como Odisseu, herói da Guerra de Troia, aborda uma possível volta ao lar depois do confinamento. “Mas agora foi diferente porque essa experiência é pura, não precisamos nos preocupar em uma adaptação para o streaming”, adianta. “Tanto que esse material foi filmado em 2016 e, ao editá-lo, descartamos pouco mais de três minutos, tudo cabia, se adequava.”

Sim, A Próxima Estação - Um Espetáculo para Ler foi gravado em dezembro de 2016 por três câmeras durante temporada no intimista auditório do Sesc Pinheiros. Ciente da beleza da montagem, a equipe registrou uma sessão nem que fosse para apresentá-la a curadores de festivais ou patrocinadores e, naquele momento, nem se imaginava que, num futuro próximo, a peça seria ressignificada em uma nova linguagem. “A única diferença de quem viu ao vivo é que o espectador não terá apenas a visão dele, como se estivesse sentado na minha frente, mas o ponto de vista de três câmeras”, compara, satisfeito com o resultado. 

Cacá não disfarça a tristeza com a falta de perspectivas artísticas e políticas de um país em convulsão. “A nossa crise não é só sanitária. É como se o brasileiro estivesse no meio de uma terrível tempestade em que cada um tenta se virar da melhor maneira possível”, define. No último mês, o ator voltou a encontrar os colegas em um set e dar vida a um personagem, no caso o humorista Manuel de Nóbrega, na série O Rei da TV, produção da Star+, que enfoca o começo da ascensão do apresentador Silvio Santos. “Mesmo que para todos terem o mínimo de segurança, só eu fui submetido a 22 PCRs. Imagina, a equipe inteira”, conta, com certa melancolia, em referência aos exames capazes de flagrar a covid-19. 

Quanto ao teatro, segundo Cacá, tudo é incerto. “Não podemos voltar amedrontados, precisamos de um reencontro festivo, como animais que saíram da toca, e isso deve demorar um pouco mais do que imaginamos”, lamenta. Para ele, vai ser fundamental propor ao espectador uma reflexão sobre as experiências recentes e abrir a janela para um futuro, claro, com suas cicatrizes, mas não desprovido de afetos e alegrias. “Nós, artistas, já mostramos que somos capazes de nos reinventar, mas o desafio dessa retomada é entender qual discurso devemos oferecer e de que forma ele será capaz de despertar o interesse do público.” 

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