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Bruno Gissoni veste saia e salto alto como Dzi Croquette

Homofóbico em 'Babilônia', peça externa dualismo vivido pelo ator

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

10 Julho 2015 | 03h00

A fila quase contornava o quarteirão onde se localiza o Teatro João Caetano, em maio, com os fãs ansiosos por ver a volta dos Dzi Croquettes. Como muitos não conseguiram assistir ao espetáculo, o grupo que, há 40 anos, surgiu com uma nova proposta cênica para bagunçar os palcos do Brasil e da Europa está de volta, agora em um espaço maior, o HSBC Brasil, que vai abrigar, sábado,11, e domingo, 12, a peça Dzi Croquettes em Bandália.

A apresentação traz três remanescentes da formação original que, de alguma forma, participam de sua criação: Ciro Barcelos, na concepção, direção, texto e atuação, Claudio Tovar no figurino, e Bayard Tonelli, em participação especial. 

Entre os novos recrutados, o mais conhecido é o ator Bruno Gissoni, que vive uma bela oportunidade proporcionada pela arte: se, no teatro, é visto de salto alto, maquiado e com figurinos femininos, na televisão, ele vive Guto, personagem com forte tendência homofóbica, na novela Babilônia

“Além de uma transgressão típica do Dzi, é também uma desconstrução, um trabalho no qual vou realmente contra tudo que aprendi na vida, todos os moldes que a sociedade fez você ter”, comenta Gissoni. “No palco, vivo algo completamente oposto do que faço em Babilônia, pois Guto é um tipo de cidadão que a sociedade tenta criar. Claro que se trata de uma situação extremada esse cidadão homofóbico, mas, infelizmente, na sociedade em que vivemos hoje, esse pensamento homofóbico ainda é comum, mesmo que muitos não ajam da mesma forma que o Guto. O triste é que pensam assim, são preconceituosos sem saber que são. E esse é o buraco entre os dois personagens que faço.”

Nascido na década de 1970, época nada propícia para liberalismos, o Dzi Croquettes era comandado pelo bailarino americano Lennie Dale, que trazia uma visão andrógina para as artes teatrais. Com suas piadas escrachadas, os 13 rapazes eram, por si só, uma afronta ao regime militar.

E em qual tipo de transgressão o Dzi se encaixaria hoje? “Aquela em que, por meio da arte e da liberação dos sentidos, a gente ainda se torne referência para as novas gerações buscarem alternativa para o momento em que vivemos. Uma pseudodemocracia, atrelada a uma economia perversa e manipulada por interesses coloniais e na qual somos escravos desse sistema, ansiosos por uma saída”, conta Bayard Tonelli.

O ponto de partida do espetáculo é o documentário Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, lançado em 2009. Em cena, os garotos assistem às cenas do filme e decidem tentar uma experiência como a dos Croquettes, depois do encontro com um remanescente (Barcelos, interpretando a si mesmo). 

Mesmo que os tempos atuais sejam mais amenos, o espírito contestador é o mesmo. “Nesses anos de retorno do Dzi, é fascinante acompanhar o crescimento e conscientização dos novos Dzi a se entregarem à proposta”, observa Tonelli.

A apresentação de domingo vai contar com duas participações especiais: a dançarina de flamenco Carmen La Talegona e Filipe Catto, que vai cantar o bolero Dois pra Lá, Dois pra Cá.

ENTREVISTA - Bruno Gissoni - Ator

'A intenção é fazer o público se libertar'

Como foi encontrar o equilíbrio entre o feminino e o masculino para o papel? 

Foi algo muito delicado, pois costumamos buscar o sexo oposto de uma forma caricata ou superficial e esse equilíbrio veio de dentro para fora, um processo muito profundo que fiz com o Ciro (Barcelos) e todo o grupo. O processo é encontrar realmente esse ponto de equilíbrio no qual o ser humano vem em primeiro lugar, antes da questão do sexo. 

Em qual tipo de transgressão se encaixa hoje o Dzi?

Acredito que a mensagem do Dzi é um grito de liberdade, entalado em nossa sociedade. O início do espetáculo já é muito impactante, quando a gente fala de religião, sexualidade, política, amor, música, poesia. É uma quebra de tudo que estamos vivendo, e a linguagem é bem lúdica. O interessante é que, dessa forma, não se consegue identificar nossa religião ou nossa sexualidade. A intenção é fazer o público pensar e se libertar dessa cadeia que nos cerca e nos prende.

DZI CROQUETTES EM BANDÁLIA

HSBC Brasil. Rua Bragança Paulista, 1.281. Tel.: 4003-1212. Sáb., 22 h. Dom., 20 h. R$ 50/R$ 100

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