Mario Anzuoni/Reuters
Mario Anzuoni/Reuters

Bruce Willis volta ao teatro para viver escritor sequestrado

Ator, que se tornou conhecido em filmes de ação, estreia na Broadway ‘Misery’, adaptação de livro de Stephen King

Alexis Soloski, The New York Times

21 de setembro de 2015 | 03h00

Olhar um homem que costuma atuar em violentos filmes de ação ser obrigado a ficar praticamente parado é um dos grandes atrativos de Misery. “É por ele ser tão fascinante nos filmes de ação que o público quer ver o que ele sabe fazer quando é obrigado a ficar numa cama”, escreveu William Goldman, autor do roteiro extraído do livro de Stephen King. Bruce Willis, 60, interpreta Paul Sheldon, um romancista preso a um leito e continuamente ameaçado por uma fã enlouquecida, na adaptação para o teatro do livro, de 1987, que ganhou versão para o cinema como Louca Obsessão, tendo James Caan e Kathy Bates no elenco. A peça estreia na Broadway em outubro. Laurie Metcalf será Annie Wilkes, a psicótica sequestradora de Paul.

Bruce descreveu o seu papel: “São 85 minutos deitado naquela cama, e alguns minutos fora dela”. A Broadway é um lugar estranho para encontrarmos Willis, um ator que costuma brilhar numa corrida alucinada de carro, ou num avião, atirando com todo tipo de armas automáticas, embora sua carreira tenha começado off Broadway, no final dos anos 1970 e início dos 1980. O dramaturgo Dennis Watlington, que o dirigiu em Bullpen, ambientado numa cela da polícia, lembra dele como “um sujeito da classe trabalhadora de Nova Jersey, capaz de representar cenas fortes e ser totalmente convincente”.

“Ele tinha uma compreensão inata da arte de fazer de conta”, acrescentou. Bruce tirou a sorte grande quando foi escalado para o cast da peça Fool for Love de Sam Shepard, que também está voltando à Broadway. Shepard, que não se recorda dele naquela peça, disse que lembra bem de Bruce como barista, antes de se tornar ator. “Sempre o considerei uma pessoa autêntica”. “Fui um grande barista”, garantiu Willis, iluminando-se um pouco. Mas com a exceção de um revival de Fool for Love, que produziu nos anos 1990, ficou longe do palco por três décadas. Aparentemente, está feliz por voltar. “É entusiasmante”, afirmou. Não pareceu muito animado. Provavelmente, estava preocupado com a perspectiva de começar os ensaios dentro em breve, e com a dificuldade de falar de um projeto que ainda não nasceu totalmente.

O papel de Paul é fascinante para ele - simples em alguns aspectos, incongruente em outros. Willis já representou vários escritores no cinema e na TV, como o jornalista bêbado em Fogueira das Vaidades. No romance de King, Paul se define como um escritor de dois tipos de livros - os excelentes e os best-sellers - e acha uma injustiça que as pessoas ignorem sua produção de qualidade, preferindo os romances de sexo e violência com personagens como Misery Chastain.

Willis também, está sempre alternando franquias para ganhar dinheiro a papéis em filmes sérios, independentes, como Looper ou Moonrise Kingdom. Como Paul, que envereda por tentativas periódicas no realismo cru, Willis tem demonstrado ocasionalmente o desejo de revelar o artista capaz que está nele, e não apenas um especialista em gracejos ou em armas. Nem sempre o público gostou dele. Entretanto, muitas das suas atuações de maior sucesso são bastante bons, como os primeiros filmes da série Duro de Morrer, e alguns independentes como Pulp Fiction

Ele diz que não faz diferença entre grandes ou pequenos projetos. Escolhe os filmes não porque poderão dar boa bilheteria, mas porque gosta do diretor, dos coadjuvantes, da equipe e da história. Na opinião do diretor, Will Frears, para “ficar literalmente preso no palco neste papel, você precisa ser um atleta” e acrescentou: “É preciso alguém que queira pular de um arranha-céu. Quando o papel não prevê isto, toda a sua paixão precisa expressar-se através da linguagem”.

Willis estava ansioso por enfrentar o desafio: “A ideia de ficar prisioneiro na casa de outra pessoa e de apanhar sem ter o menor controle sobre isto, me pareceu engraçada”, afirmou. Ele não gosta de falar sobre como elabora sua interpretação. Não se considera um ator acostumado a trabalhar com um método e nunca vasculha em suas experiências pessoais com o sofrimento ou a dor para entrar no papel. Seja como for, ele consegue, é muito bom em transmitir sofrimento, e em comunicar todo grau de dor. O crítico de cinema Elvis Mitchell, que o viu em Fool for Love, em 1984, descreveu sua “capacidade de sofrer” que lhe foi muito útil em diversos filmes de ruidosa ação, e também em outros mais pacatos, como O Sexto Sentido. Paul, o autor de Misery, é um homem dividido, meio artista, meio charlatão, bastante parecido com Willis. Seu personagem “precisa mergulhar no pior lugar possível para descobrir quem ele é”, disse Frears. “E a experiência à qual se submete é um verdadeiro inferno”. 

Músico e cantor, já gravou alguns álbuns, mas acha “bandas de jazz bem mais difíceis de se lidar do que o meu trabalho”. O objetivo de Misery é apavorar o público. “Vai ser engraçado. Vai ser violento”. Ele já fez filmes deste tipo, como Os 12 Macacos e Sexto Sentido, mas depois de tantos anos de ofício, nada mais o apavora. Entretanto, o teatro tem seus próprios terrores. Quando a temporada começar, Willis terá de apresentar um desempenho expressivo e totalmente convincente por 90 minutos ininterruptamente, noite após noite, por 16 semanas. Precisará estar ligado, não só com Metcalf, veterana do palco, mas também com os 1.100 pagantes que estarão lá para vê-lo. Nos últimos anos, Willis adquiriu a fama de ator que nem sempre se esforça ao máximo. Aqui, sem chances de uma nova versão do texto ou de novas tomadas ou de ângulos que o favoreçam, terá de convencer; e então terá de voltar, noite após noite, e começar tudo de novo. Talvez isto o apavore mais do que a tortura na cama. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

Tudo o que sabemos sobre:
TeatroBruce WillisMisery

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.