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Três brasileiros iniciam temporada no País com o renomado Bolshoi

Paulista, maranhense e mineira se apresentam na tradicional companhia russa, a partir desta quarta (17), no Rio e em São Paulo

Juliana Ravelli, O Estado de S. Paulo

17 de junho de 2015 | 03h00

Erick Swolkin era adolescente quando viu um vídeo que o fez decidir o que queria fazer da vida. Aluno de balé, mas ainda sem considerar a dança seu futuro, o paulista radicado em Santa Catarina assistiu a uma gravação de Spartacus, do Bolshoi, o grande teatro russo. Incomum, o espetáculo tinha tema militar, masculino, ao contrário da maioria dos balés.

O protagonista, a lenda russa Vladimir Vasiliev, instantaneamente se tornou seu ídolo. “Era o homem como a potência da dança.” Swolkin sabia que aquele espetáculo era o lugar que queria ocupar no balé. Mas achava que era um sonho distante. Não imaginava que, quase uma década depois, estaria não só no elenco de Spartacus, como também seria bailarino do Bolshoi.

Swolkin, de 24 anos, é um dos três brasileiros que atuam profissionalmente na tradicional companhia com sede em Moscou. Além dele, estão sua namorada, a maranhense Bruna Gaglianone, de 24 anos, e a mineira Mariana Gomes, de 28. Eles estão de volta ao Brasil para dançar, entre hoje e dia 28, os balés Spartacus e Giselle. Até o dia 21, os espetáculos serão no Theatro Municipal do Rio; partir do dia 24, serão apresentados no Teatro Bradesco, em São Paulo.

Bruna e Swolkin se conheceram na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville, Santa Catarina, onde se formaram. Assim como o namorado, Bruna não imaginava que seria bailarina. Seu sonho era seguir a carreira de ginasta. O físico alongado, porém, era inadequado para o esporte, mas perfeito para a dança. Certo dia, uma professora a incentivou a ir para o Sul tentar uma vaga na única filial do Bolshoi no mundo.

“Fui mais por causa do Beto Carrero, que é perto de Joinville, do que para o teste”, brinca. Bruna passou em primeiro lugar e foi estudar no Bolshoi catarinense, em 2003. Lá já estava Swolkin, que entrou em 2001.

O casal integrou a Companhia Jovem da escola. Enquanto estavam lá, souberam que o Bolshoi em Moscou estava aceitando vídeos de estrangeiros para fazer um estágio na companhia. Swolkin e Bruna não esperavam ser aceitos, mas enviaram uma gravação. Em 2011, foram aprovados e receberam o convite para ficar na Rússia.

“No ano em que chegamos, até a gente conseguir a permissão de trabalho, que leva três meses, ficamos trabalhando sem receber”, conta Bruna. Após contratempos, eles se estabeleceram em Moscou, mas não sem novas dificuldades. O clima ainda é um dos principais desafios. No inverno, faz até -30°C. “O que pesa é que a gente não vê a luz do sol. E o humor das pessoas fica totalmente diferente no inverno”, diz Bruna.

Mas todo o esforço tem valido a pena. Em apenas um ano, os dois foram promovidos para o corpo de baile de primeira categoria, a elite dos bailarinos que dançam conjuntos. Com frequência, participam de quartetos e sextetos. Isso em uma companhia de quase 300 integrantes. “Estamos ganhando a confiança deles. Falam que aprendemos rápido”, diz Swolkin. 

“Aqui são 200 anos na frente. Tem hora que paro na reverence (agradecimento final), olho para aquele teatro e entendo a grandiosidade do Bolshoi e o que representa para o povo”, diz Bruna. “Na Rússia, o balé é muito valorizado. Se falar que é do Bolshoi, tem muito prestígio”, completa o bailarino.

Precursora. Mariana Gomes, que chegou ao Bolshoi em 2006, também enfrentou grandes desafios para se adaptar à vida na Rússia. “No começo, as dificuldades eram o clima, a língua e a falta de amizade. Na época, não existiam tantas facilidades com internet e telefone.”

Ela foi a primeira estrangeira, formada em uma escola fora da Rússia, a ser contratada pelo Bolshoi. Também ex-aluna da escola em Joinville, chegou a Moscou pouco antes de completar 18 anos. Hoje, Mariana é patrocinada por uma empresa, mas conta que, no começo, a situação financeira também foi difícil. “Passei por momentos muito complicados, que até evitava contar aos meus pais para não assustá-los.” Desistir, entretanto, nunca foi uma opção. 

Mariana diz que se esforçou muito para conquistar seu espaço na companhia. “Pode-se comparar a minha situação a de um russo na seleção brasileira de futebol. Ninguém entenderia por que ele está lá. E, sem conhecer ninguém, é preciso conquistar cada professor e profissional do teatro para que possam confiar a ponto de me deixar dançar em um palco tão importante, em uma primeira fila de um Lago dos Cisnes, como acontece hoje”, diz Mariana, também do corpo de baile de primeira categoria.

Em casa. Agora, os brasileiros esperam com ansiedade dançar em sua terra natal. O Bolshoi não vinha ao Brasil desde 1999. “Sempre quis mostrar tudo para meus amigos, parentes e pessoas que sempre me ajudaram e, infelizmente, não conseguem assistir ao nosso trabalho. Agora, finalmente será possível”, comemora Mariana.

Os bailarinos russos também estão ansiosos e tentam descobrir com os colegas brasileiros tudo sobre o País. “A toda hora me perguntam algo, se vai estar frio, para onde vamos, se dá para tomar banho no mar, que roupa levar”, diz Bruna. “Tivemos, pela primeira vez antes de uma turnê, uma reunião com os diretores-gerais, dando dicas de segurança. Não levar muito dinheiro, não usar joias, não andar sozinho”, revela Mariana.

Os três brasileiros participarão dos dois balés trazidos pelo Bolshoi ao Brasil. Em Giselle, Bruna terá um papel de destaque no pas d’action do primeiro ato. Em Spartacus, Swolkin dança praticamente a obra inteira no papel de um escravo. “É o que eu já sonhava em fazer lá na escola de Joinville, quando via os vídeos”, diz o bailarino. “Não, você ainda sonha com o papel principal”, interrompe a namorada. “Claro, ninguém quer sonhar baixo”, admite.

No palco, do balé romântico à virilidade masculina

Com música de Aram Khachaturian, Spartacus é uma das principais obras do Bolshoi. A versão da companhia foi criada por Yuri Grigorovich em 1968 e encenada por Vladimir Vasiliev e sua mulher, Ekaterina Maximova, nos papéis principais. O balé de três atos conta a saga do escravo que lidera uma rebelião contra o Império Romano. Um dos destaques é o protagonismo masculino. Em pouquíssimas obras é possível ver tantos homens em cena ao mesmo tempo. 

Giselle é o balé romântico em dois atos que estreou em 1841. A coreografia original é de Jean Coralli e Jules Perrot. Produzida por Vasiliev, a versão também é baseada na adaptação de Marius Petipa, de 1887. A obra mostra a história de amor da jovem camponesa por um nobre disfarçado de aldeão. Ao descobrir a farsa, a garota morre e se transforma em uma das Wilis, seres mágicos que, à noite, no meio da floresta, se vingam de homens fazendo-os dançar até a morte. 

Um sobrevivente em busca do antigo prestígio

Não se sabe exatamente o porquê, mas o Bolshoi ainda exerce fascínio sobre os amantes da dança clássica e até sobre os leigos, que pouco têm contato com a arte. A admiração vem de uma era em que os russos eram sinônimo de “os melhores” bailarinos do mundo.

Criado em 1776, o teatro (cujo nome significa grande) sobreviveu ao fim do czarismo, ao período comunista – foi no Bolshoi que a formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi proclamada – e à Segunda Guerra Mundial. 

Mas o duro golpe veio com as dificuldades financeiras decorrentes do declínio da União Soviética, a partir dos anos 1980. Após a dissolução da URSS, em 1991, o teatro – que, desde o século 18, era mantido pelo Estado – teve de se adequar à economia de mercado. Durante a década de 1990, foram muitos os boatos sobre a crise e a falência do Bolshoi. A falta de verba afetou a qualidade das produções, e a companhia ficou anos sem produzir novas estrelas. 

A recuperação veio só a partir dos anos 2000, quando o teatro começou a retomar o controle de sua marca e se abrir para novas produções. Jovens estrelas ganharam fama mundial, entre elas Svetlana Zakharova, Ivan Vasiliev (que estará no Brasil) e Natalia Osipova (hoje no Royal Ballet, de Londres).

Mas toda a glória do Bolshoi não o livra da mácula de alguns escândalos. O mais recente e grave aconteceu em 2013, quando o diretor do balé, Sergei Filin, teve o rosto queimado por ácido. O atentado foi encomendado pelo bailarino Pavel Dimitrichenko. A crise foi agravada por denúncias de corrupção.

A última vez em que passou pelo Brasil, em 1999, o Bolshoi ainda não havia achado seu novo caminho. Agora, o público espera ver no palco o renascimento do grande balé russo.

BALÉ DO TEATRO BOLSHOI

Teatro Bradesco. Rua Turiassu, 2.100. Dias 24, 25 e 27/6, 21h; dia 26, 21h30; dia 28, 15h e 20h30. Ingressos esgotados.

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