Helvio Homero/Estadão
Helvio Homero/Estadão

Brad Fraser está em SP para palestra e encenação de peça

Canadense fala de sexualidade e uso de drogas em suas peças

Igor Giannasi , O Estado de S. Paulo

06 de junho de 2015 | 02h00

O dramaturgo canadense Brad Fraser sempre fala abertamente de sexualidade, uso de drogas e violência em suas peças, retratando, com um humor ácido, personagens marginalizados da sociedade. Também diretor, roteirista e produtor, Fraser chegou a São Paulo na quarta, 3, e faz neste sábado, 6, uma palestra sobre os seus quase 40 anos de carreira, na Caixa Cultural, na região central da cidade.

“Eu quero falar da realidade. O que eu vejo, frequentemente, na América do Norte, quando você vai ao teatro, é que tudo é fantasia. Tudo é muito desenhado para as pessoas se sentirem bem e, no fim do espetáculo, esquecerem o que viram”, comenta Fraser, em entrevista exclusiva ao Estado. “Eu quero que as pessoas, quando saem (de minhas peças), estejam diferentes do que eram quando entraram. Se não for assim, qual o motivo de ir ao teatro, então?”

A vinda do autor teatral, pela primeira vez no País, faz parte da programação que inclui a encenação de uma de suas peças mais conhecidas, Amor e Restos Humanos, em curtíssima temporada em São Paulo, com as duas últimas apresentações neste fim de semana, às 19h15, na Caixa Cultural. “Trazer Brad Fraser ao Brasil representa para nossa companhia a concretização do último suspiro de um sonho, que começou há mais de dez anos”, diz o diretor Jean Mendonça, do grupo carioca Banquete Cultural, que tinha assistido a uma montagem do espetáculo no início dos anos 2000. Após três temporadas no Rio, no ano passado, Mendonça trouxe sua versão da obra à capital paulista.

Inspirado na cultura dos clubes e da música punk e new wave dos anos 1980, Fraser queria quebrar as regras do teatro tradicional, quando escreveu Amor e Restos Humanos (Unidentified Human Remains and the True Nature of Love, no título original), em 1986, para tratar da universal busca do amor por jovens que viviam intensamente sua sexualidade. “As pessoas acham provocativo, mas, para mim, não é. As coisas que acontecem nesta peça aconteceram na minha vida, quando eu tinha aquela idade - exceto o serial killer”, comenta o autor, prestes a completar 56 anos, homossexual assumido. “Todos os espectros da sexualidade estão representados pelos personagens. Para mim, não devemos julgar as pessoas com base na sexualidade, mas pelo que elas são.” 

Responsável pela projeção internacional de Fraser, Amor e Restos Humanos virou filme em 1994 pelas mãos do também canadense Denys Arcand, roteirizado pelo dramaturgo, que, apesar de admirar o trabalho do cineasta, não ficou contente com o que viu na telona. “Parte disso é uma coisa cultural, porque os franco-canadenses pretendem ser mais reflexivos, românticos e lentos. Meu trabalho em inglês é mais duro, cru e pega as pessoas de surpresa. Essas duas ideias nunca se entrosaram muito bem no filme.” 

Brad Fraser também teve sua vivência atrás das câmeras, adaptando para o cinema sua peça Pobre Super-homem (1994), rebatizada de Leaving Metropolis (Abandonando Metrópolis, em tradução livre). A história, que já foi encenada em São Paulo, em 2000, com direção de Sérgio Ferrara, mostra um artista plástico gay que decide trabalhar como garçom para resolver sua crise criativa. Ele, então, se apaixona pelo dono do restaurante, heterossexual e casado, que cede às investidas do novo empregado. Completam o quadro dos vários tipos presentes na obra de Fraser, uma transexual com o vírus da aids, que sonha em realizar uma operação de mudança de sexo, e uma solitária jornalista quarentona, amigas do pintor.

Mas o resultado da experiência, classificada como “maravilhosa” e “frustrante”, ao mesmo tempo, e marcada pela falta de dinheiro e de tempo para as filmagens, também não o agradou. “Teatro e cinema são mídias diferentes e contam histórias de forma distinta”, diz Fraser, que também foi roteirista nas três últimas temporadas da versão americana do seriado Queer As Folk. Atualmente, ele prepara um projeto original de filme para dirigir.

Seu trabalho mais recente para os palcos, Kill Me Now (Me Mate Agora, em tradução livre), que estreou em Londres, também teve sua dose de controvérsia ao abordar a história de um pai que dedica sua vida ao filho deficiente. “Quando o tema é a sexualidade de pessoas com deficiência, muita gente fica desconfortável porque não gosta de pensar que elas têm sentimentos românticos ou sexuais, quando de fato elas têm”, comenta Fraser. Uma reviravolta na trama coloca ainda em discussão o tema da eutanásia, quando o pai se descobre doente e passa a ser cuidado pelo filho. Mas o que causou mais embaraço no público - com algumas pessoas deixando o teatro - foi um “incidente sexual” que ocorre em certo momento da peça. Incômodo positivo para um autor que não quer ter uma plateia indiferente. 

DESTAQUES

‘Wolfboy’ (1981)

Uma das primeiras peças de Fraser, traz relacionamento de dois jovens em instituição psiquiátrica

‘Amor e Restos Humanos’ (1989)

Obra que projetou o nome do autor internacionalmente, adaptado para o cinema em 1994, com roteiro de Fraser

‘Pobre Super-homem’ (1994)

Artista plástico em crise criativa começa a trabalhar como garçom e se envolve com o dono do restaurante, que é casado

‘Cold Meat Party’ (2003)

Um pop star gay, uma cineasta feminista e um político homofóbico se reúnem para o funeral de um amigo escritor

‘Kill Me Now’ (2014)

Trabalho mais recente de Fraser, aborda a sexualidade das pessoas com deficiência e a questão do suicídio assistido

PALESTRA DE BRAD FRASER

Caixa Cultural. Auditório - Praça da Sé, 111, centro

Sábado, 6, 16 h. Grátis: retirar ingresso 1h antes do evento

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