VALERIA GONÇALVEZ/ESTADÃO
VALERIA GONÇALVEZ/ESTADÃO

'Billy Elliot, o Musical' é mais um exemplo da presença de jovens atores no gênero

Espetáculo traz Pedro Sousa, de 10 anos, Tiago Fernandes, 12, e Richard Marques, 14 no papel do bailarino mirim

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2019 | 03h00

A cena é tocante e exige concentração: o menino mostra para a professora a carta deixada pela mãe, antes de morrer. Cada um dos três atores mirins se concentra e canta afinado, sustentando a emoção. Ao final de cada apresentação, o diretor americano John Stefaniuk aplaude e abraça os garotos. Mais um passo foi dado na preparação de Billy Elliot, o Musical, uma das mais aguardadas produções do ano, que estreia em 15 de março, no Teatro Alfa.

Os guris (Pedro Sousa, de 10 anos, Tiago Fernandes, 12, e Richard Marques, 14) retribuíram com um sorriso envergonhado. Mais uma etapa vencida, depois de vários meses em que disputaram uma série de audições, workshops e agora o período de ensaios incessantes. Uma rotina que já figura na vida de pequenos atores brasileiros, todos tão preparados que já é possível incorporar, ao calendário nacional, produções cujo coração é a presença juvenil. 

De fato, nos últimos anos, os produtores se sentiram confiantes em apostar em musicais com elenco menor de idade – só no ano passado, foram montados Annie (que continua em cartaz), Peter Pan – O Musical da Broadway e  A Noviça Rebelde. “Nossos jovens hoje, além de talentosos, estão muito bem preparados para enfrentar audições disputadas”, observa Cleto Baccic, ator e um dos comandantes do Atelier de Cultura, produtora de Annie, Noviça e que se prepara para mais duas grandes aventuras: além de Billy Elliot, será montada School of Rock, que estreia dia 15 de agosto, no Teatro Santander.

Como outros atores mais experientes, Baccic ainda se impressiona com o profissionalismo dessa garotada. “Como vivem conectados, eles sabem o calendário de espetáculos para os próximos meses e já começam a se preparar. Assim, quando chega o período da audição, estão todos afiadíssimos.”

De fato, logo em tenra idade, eles descobrem a importância do profissionalismo e do rigor exigido por uma produção musical: é preciso saber cantar, dançar e, principalmente, atuar. Isso faz com que meninos e meninas se preparem com o mesmo afinco que um artista adulto. “Organização é a base de tudo e tem a hora de estudar, brincar e trabalhar”, comenta Luiza Gattai, 10 anos, uma das três intérpretes principais de Annie. “Tento equilibrar os três, mas, como amo o que faço, no momento em que estou ensaiando, estudando e atuando também estou me divertindo”, completa ela, cuja paixão pelo musical nasceu quando participou do The Voice Kids. “Minhas apresentações se diferenciavam pela teatralidade e expressividade, assim fui me informando sobre teatro musical e me encantei. O mais difícil é coordenar todas as artes: dança, atuação e canto.”

É essa conjunção de habilidades o maior desafio enfrentado por meninos e meninas. “Nunca interpretei, mas agora preciso ter mais atenção com esse detalhe”, conta Pedro Sousa, que veio do Rio de Janeiro. “São muitas exigências em cena – só nesse musical, Billy participa de sete coreografias, sendo quatro sapateados e dois de balé, e ainda tem quatro números solos”, contabiliza Richard Marques, que mora em Diadema. A descoberta dos segredos da atuação, no entanto, encanta os garotos. “Billy confia na professora porque ela confia nele”, filosofa Tiago Fernandes, com sua voz suave.

Para que o elenco infantil se sinta seguro em sua atuação, uma infinidade de obrigações cabe aos produtores. Para começar, a carga horária de trabalho não pode exceder seis horas diárias – também é vetado dois dias seguidos de apresentações. Assim, como há dias com duas sessões, cada personagem é interpretado por três atores alternadamente. Com isso, os elencos são numerosos: 24 em Billy Elliot e 21 em Annie, para ficar apenas nos que estão em cartaz.

“Com o tempo, começamos a atender exigências específicas”, conta Charles Möeller, com vasta experiência em dirigir crianças (Noviça Rebelde, Gypsy e outros). “Antes, oferecíamos um lanche e bastava. Agora, cuidamos dos que têm restrição a lactose, por exemplo.” Möeller não cansa de se impressionar, contudo, com o profissionalismo dos garotos.

“Já fui corrigido por uma menina quando saí de cena”, diverte-se Miguel Falabella, estrela em Annie. “Só porque errei um verso.” “No início, não gostava de trabalhar com crianças, mas elas me ajudaram a aprimorar meu rigor”, conta Renata Borges Pimenta, da Fábula Entretenimento, que produz Peter Pan.

Comunidade se une pelo garoto, diz elenco de ‘Billy’

Musical traz o desafio de utilizar a coreografia, rebuscada, para narrar a história do menino que encontra sua voz no caos

“O essencial é conquistar a pureza do personagem”, ensina John Stefaniuk, que coordena as produções internacionais de Billy Elliot. Ao seu lado, os coreógrafos Barnaby Meredith e Nikki Belsher ajudam os pequenos artistas a contar a história por meio da dança. “A precisão no passo é essencial, sem parecer mecânico”, observa Nikki. “Sim, pois é preciso lembrar que Billy é um menino que encontra sua voz em meio ao caos”, completa Meredith.

É preciso, portanto, falar um pouco sobre a trama. O musical é inspirado no filme dirigido por Stephen Daldry em 2000, que conta a história de Billy, filho de mineiros do interior da Inglaterra que vivem naquele momento (entre os anos 1984 e 85) uma terrível queda de braço contra o governo Thatcher: entraram em greve contra a medida dela de fechar as minas. Em meio a tanta confusão, o garoto deixa de frequentar as aulas de boxe para se descobrir um grande bailarino, talento reconhecido e apoiado por uma professora. Aos poucos, o pai e o irmão mais velho percebem que o garoto é o único da família a ter uma chance de vencer na vida.

“É uma classe operária organizada e com visão de futuro”, comenta Carmo Dalla Vecchia, que viverá o papel do pai, Jaokle. “Na verdade, toda a comunidade passa a torcer pelo garoto.” “Isso porque Billy se transforma em um ponto de luz naquele lugar”, completa Vanessa Costa, a professora Willkinson, que lapida o talento de dançarino do menino.

As canções, aliás, com melodias de Elton John e letras de Lee Hall, ganham um brilho especial com a coreografia – especialmente em números como Swan Lake, em que o jovem Billy dança com ele mesmo, mais velho. “Há uma grande defesa pela diferença”, acredita Sara Sarres, intérprete da mãe que, mesmo morta, ajuda o filho a encontrar seu destino.

“Já na primeira leitura, sentimos a força do texto”, explica Beto Sargentelli, que será Tony, o irmão mais velho. Ele será um apoio para Billy, assim com a avó, vivida por Iná de Carvalho. “O neto vai realizar seu sonho de dançar”, diz a atriz.

BILLY ELLIOT, O MUSICAL. Teatro Alfa. R. Bento Branco de Andrade Fº, 722. 6ª, 20h30. Sáb., 15h e 20h. Dom., 14h e 18h30. 

R$ 75 / R$ 310. Estreia 15/3

Tudo o que sabemos sobre:
musical [teatro]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.