Pedro Dimitrow
Pedro Dimitrow

Barítono brasileiro Paulo Szot canta em 'Chicago' nos EUA e em São Paulo

Em cartaz com o musical em Nova York, Szot vai representar o mesmo papel no Brasil, em português, no mês de agosto

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2020 | 06h00

Paulo Szot prepara-se para viver uma experiência inusitada – um dos melhores barítonos da música clássica atual, ele vem consolidando também uma carreira no teatro musical. E, nessa temporada, vai protagonizar uma vivência original: representar o mesmo papel em inglês e, depois, em português. O fio condutor dessa história é Chicago, musical no qual ele está em cartaz atualmente na Broadway e que vai interpretar em São Paulo, a partir de agosto. “Vou ficar atento para não cantar algo em inglês quando estiver no Brasil”, diverte-se ele, único brasileiro a ganhar um prêmio Tony, o Oscar do teatro americano (por South Pacific, em 2008).

Em oito sessões por semana no tradicional teatro Ambassador, em Nova York, Szot vive Billy Flynn, inescrupuloso advogado cuja principal estratégia para defender suas clientes assassinas é colocá-las nas capas de todos os jornais da cidade. A ação se passa na Chicago nos loucos anos 1920, época fervilhante em que se cultivava o gosto artístico e social, marcado ainda pelo tráfico ilegal de bebidas comandado por gângsteres, que desafiavam abertamente a fracassada Lei Seca.

“Flynn desponta, assim, como um homem aparentemente inescrupuloso, mas, à medida que se conhecem melhor suas qualidades, percebemos que se trata de um sujeito apaixonado pela profissão – sua primeira canção, aliás, é uma declaração de amor pela advocacia”, conta Szot, que interpretou o papel até a sexta, 31. Agora, faz uma parada para retomar suas apresentações na ópera (“o calendário da música clássica é organizado com muita antecedência”, explica), para então voltar no dia 16 de março, permanecendo na Broadway até 19 de maio. “Rumo para São Paulo em junho, quando começam os ensaios”, conta Szot que, para a turnê americana, teve apenas 10 dias de preparação.

Brasil e EUA

Como aconteceu a junção, para o ator, das temporadas americana e brasileira? “Venho negociando os direitos de Chicago desde 2015”, conta a empresária e produtora Stephanie Mayorkis, da EGG Entretenimento, que trabalha em coprodução com a IMM. “É o musical americano que há mais tempo está em cartaz na Broadway, 22 anos, tornando-se um monumento. Assim, quando souberam que Szot estaria no elenco brasileiro, fizeram o convite para ele estar também na americana.”

Assim, a montagem brasileira já está em andamento, com a realização de testes para selecionar o restante do elenco. Tarefa executada, além de Stephanie, por um trio especializado em Chicago: a brasileira Tania Nardini, que será a diretora responsável pela montagem no Brasil, além dos americanos Rob Bowman (supervisor de direção musical) e Gary Christ (coreografia).

Se não tem a sofisticação técnica de O Fantasma da Ópera, por exemplo, Chicago exige mais do elenco – como não tem efeitos especiais, todo o foco de atenção do público recai sobre o trabalho do ator. “É uma combinação do canto com a coreografia e o trabalho de atuação”, explica Paulo Szot, ainda seduzido pelas melodias do musical. “São cativantes, mas, no fundo, trazem uma sofisticação também na letra.”

Personagem é advogado inescropuloso

Composto por John Kander, com letras de Fred Ebb e libreto de Ebb e Bob Fosse, Chicago acompanha a trajetória de suas aspirantes ao estrelato, nos anos 1920. Velma Kelly é uma famosa vedete que vai para a cadeia após assassinar o marido, que a traía com a irmã. Roxie Hart (que será interpretada por Emanuele Araújo) é outra aspirante a celebridade, que também vai parar atrás das grades depois de disparar contra o amante.

Presas e cientes de que a fama é o melhor caminho para deixar a prisão, Velma e Roxie criam uma rivalidade, acirrada pela carcereira ambiciosa Mama Morton. É quando entra em cena o inescrupuloso advogado Billy Flynn, cuja principal estratégia para defender suas estrelas é colocá-las nas capas de todos os jornais da cidade.

“É por isso que, na minha opinião, esse tipo de sociedade, em que a fama é alimentada a todo custo pela imprensa, é o principal personagem do musical – mais até que as duas coristas”, comenta Bowman, que roda o mundo, ao lado de Christ, ajustando todas as versões de Chicago. Eles já estiveram no Brasil em outras oportunidades e não escondem a admiração pela evolução técnica dos profissionais nacionais. “Hoje já é possível encontrar dançarino que atua e cantor que dança”, atesta Christ.

TÂNIA NARDINI TORNOU-SE DIRETORA OFICIAL DAS MONTAGENS ESTRANGEIRAS

Na primeira montagem de Chicago no Brasil, em 2004, contou com os americanos Scott Faris na direção e o mesmo Gary Christ, que está agora em São Paulo, como supervisor de coreografia. Na ficha técnica, figurando como diretora residente, ou seja, a brasileira responsável pela fiel execução das determinações estrangeiras, estava Tania Nardini. “Ela executou tão bem a tarefa que logo se tornou referência para as montagens internacionais”, comenta Stephanie Mayorkis, da produtora EGG Entretenimento.

De fato, Tania tornou-se referência mundial das produções de Chicago a partir de 2007, quando foi nomeada diretora responsável de todas as montagens do musical pelo mundo. O primeiro desafio foi espinhoso: comandar um elenco sul-coreano da versão que estreou em Seul. Honrada e, ao mesmo tempo, apavorada com o convite, Tania fez uma imersão com Faris em Nova York antes de assumir a empreitada.

Desde então, já comandou montagens em diversas cidades como Tóquio, Buenos Aires, Moscou, Stuttgart, Berlim, Munique, Copenhagen e localidades da Inglaterra, Austrália e África do Sul. “Chicago é carregado de um humor seco”, ensina Tania, que foi substituta dos papéis de Velma e Mama, na montagem nacional. “A trama é divertida, mas convida a pensar.”

Coreógrafa de formação, ela conhece com detalhes o trabalho único e original de Bob Fosse, que concebeu e dirigiu a primeira versão do musical em 1975. Diretor de obras premiadas no cinema como Cabaret e All That Jazz – O Show Não Pode Parar, Fosse recuperou o fôlego perdido dos musicais ao criar um estilo único, baseado em passos que conciliam concisão e sensualidade. 

“Em suas coreografias, todo movimento significa algo. É muito sensual, mas nunca vulgar”, comenta Gary Christy, que participou de musicais criados por Fosse, inclusive ao lado de Gwen Verdon, uma das mais respeitadas estrelas dos musicais americanos contemporâneos e ex-mulher de Fosse, além de ser responsável pela exatidão de movimentos em todas as montagens de Chicago encenadas pelo mundo, até sua morte, em 2000. “São muitos, mas muitos detalhes”, admite Tania. “Mas o resultado é sempre fascinante.”

 

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