JF Diorio|Estadão
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Bárbara Paz vive o papel de seus sonhos em ‘Gata em Teto de Zinco Quente’

Atriz festeja a doce Maggie, da obra de Tennessee Wiliams, e fala do documentário que dirige sobre a vida de Hector Babenco

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2016 | 05h00

Era madrugada no Teatro Brasileiro de Comédia e a jovem estudante de teatro Bárbara Paz participava de uma leitura em que interpretava a atriz Maria Della Costa. A maratona dirigida por Zé Celso, com 12 horas de duração, tinha apenas 12 pessoas na plateia. O que ela não sabia era que, entre os poucos gatos pingados que assistiam à sua apresentação, estava o diretor do Grupo Tapa Eduardo Tolentino. “Ele me procurou e disse: ‘Cuidado com o que você vai fazer com a tua carreira. Você tem muito talento e a gente vai trabalhar junto”. Bárbara ainda trazia forte o sotaque de Campo Bom, no Rio Grande do Sul, o que cabia bem para o papel de Maria, nascida em Flores da Cunha, há 100 quilômetros da cidade natal da atriz.

A primeira montagem com Tolentino veio em 2002 (A Importância de Ser Fiel) e marcou a entrada da atriz no Tapa. “Eu tinha acabado de vencer o reality”, Bárbara conta ao recordar de A Casa dos Artistas, no SBT. “O Brasil inteiro me conhecia, era tudo muito louco e estranho.” Agora, após se despedir de Nelita, a jovem artista alcoólatra da novela A Regra do Jogo, Bárbara, enfim, mergulha em sua tão esperada Maggie Pollitt, a mulher moderna e sonhadora da peça Gata em Teto de Zinco Quente, que estreia na próxima quinta, 5, no Centro Cultural Banco do Brasil. “Sempre me perguntam como faço para me lançar nas personagens e eu sempre respondo que são elas que me encontram primeiro”, diz. “A minha função é dar toda energia e conhecimento como retribuição.”

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Durante a entrevista ao Estado, Bárbara provava o figurino, retocava a maquiagem e se divertia com os atores Zécarlos Machado, Augusto Zachi e Noemi Marinho, parte do elenco da montagem e “minha nova casa”. “No teatro, sou muito abraçada e acolhida.” Ao contrário de sua personagem na peça, Maggie, a Gata, é culpada pelo marido e atleta Brick (Zachi) pela morte do colega de campo Skipper. Desde então, ele rejeita qualquer aproximação mais íntima com a mulher. Junte essa relação fria com a reunião quente de uma ambiciosa família que vai comemorar o aniversário do patriarca, enquanto filhos, cunhados e noras brigam pela fortuna do velho.

Esse clima nunca foi familiar à atriz, que explica que precisou cuidar de si desde sempre, quando veio para São Paulo, em 1992, após a morte dos pais. “Por outro lado, a Maggie está rodeada de pessoas e se sente só. Ela não tem sequer o carinho do marido.” Situada na década de 1950, a peça revela as ambiguidades da Gata, que tem um discurso moderno mas conserva desejos antigos, como a própria Bárbara se define. “Se o avanço das mulheres nos deu muitas conquistas, por outro lado, parece existir um vazio dentro de mim.” Lacuna essa que ela busca preencher criando e criando, como as obras que pintou para a sua personagem em A Regra do Jogo. “Eu não podia pedir para que alguém fizesse. Seria desonesto com o público.”

Enquanto posa para o fotógrafo, Bárbara também revela mais uma faceta. Fotografia. E, entre um clique e outro, a atriz descreve, empolgada, os modelos de suas máquinas. “Gosto de fotografar pessoas”, afirma.

E o resultado de suas produções tem recebido elogios do cineasta Hector Babenco. “Ele diz que eu tenho um olhar muito forte e que devo seguir minha intuição”, explica. Isso se traduz no mais recente desafio. Bárbara está dirigindo um documentário sobre o diretor e marido. “Em primeiro lugar, será sobre a vida dele, mas também vamos falar de suas obras.” No último trabalho de Babenco, Bárbara estava lá, dançando na chuva à frente do ator Willem Dafoe. O filme Meu Amigo Hindu, lançado neste ano, tem a ficção atravessada pela realidade da vida do diretor e da atriz. Ao lado do ator norte-americano, Bárbara interpreta a si mesma, uma atriz que venceu o reality, enquanto Dafoe vive a o drama de Babenco, que enfrentou uma luta com câncer linfático descoberto em 1990.

A sessão de fotos é interrompida com a chegada de uma garotinha sorridente. A filha de uma das integrantes da equipe da peça corre para abraçar Bárbara e as duas se juntam à frente da penteadeira. “Ela é a Maggiezinha”, brinca a atriz. Tranquilas, as duas passam a dividir batons e maquiagens. Aos 41 anos, Bárbara não deixa de ressaltar que adora crianças e que deseja ter um filho.

Logo ela também arremata uma de suas irritações. “É a primeira pergunta que muitos jornalistas fazem: ‘Quando você vai ter filhos, Bárbara?’. A atriz conta que o desejo continua e que acredita no poder da medicina. Mas, se não for possível, vai recorrer à adoção. “A pressão da sociedade em cima da mulher é muito grande. Fora toda negatividade que está tão escancarada nas redes sociais.”

Para lidar com isso, ela tem sua filosofia. “Já fui muito critica por escolhas, mas também muito elogiada. O que faço é me apegar às coisas boas que me dizem e analisar a origem das críticas ruins.” Ela também assume que é saudável manter distância de tantas opiniões e que isso tem suas recompensas. “É como estar em uma corda bamba: tem que se manter firme, sem cair. Porque lá de cima é tão bonito.”

 

Retrato da sociedade americana de 1950, obra de Tennessee Williams desembarca na urgência política e social do País 

O Brasil e os EUA estão entre os cinco maiores produtores de algodão do mundo. Mas há também correspondências muito mais profundas entre a Gata em Teto de Zinco Quente, peça narrada na fazenda de algodão de Paizão, patriarca da adaptação de Eduardo Tolentino. “O Brasil teve longos períodos de monocultura.

Hoje existe uma bancada de agricultores que quer comandar o País.” Com a saúde debilitada, Paizão vira espectador de uma guerra entre filhos, cunhados, noras e sogras para herdar a herança do velho. Quem mais teme é Maggie, que não consegue engravidar de Brick. Tolentino explica que existe um combate entre os deuses do amor e da morte. “Mas Eros perde para Tânatos.” As referências que remontam à psicologia dos personagens se estende, explica o diretor.

Maggie fica à mercê de marido indiferente, que possui conflitos com a própria sexualidade, após perder o amigo Skipper e que ainda está debilitado após sofrer um acidente no tornozelo. “Ele é Aquiles”, diz. Para o diretor, a obra de Williams registra o vazio causado pelo triunfo do capital, que ressalta suas marcas no comportamento da sociedade atual, como a dificuldade de comunicação entre as pessoas e as manifestações de ódio e violência, cada vez mais comuns. “As obras dele conseguem tocar o cárcere humano.” 

GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE. Centro Cultural Banco do Brasil. R. Álvares Penteado, 112; tel. 3113-3651. 4ª, 5ª, 6ª, sáb., 20h; dom., 19h. R$ 20. Estreia em 5/5.

 

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