Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Ballet Stagium se mantém fiel à história do País e prepara espetáculo ‘Fon-Fon!'

Coreografia faz referência à revista carioca homônima, publicada de 1907 a 1958

Fernanda Perniciotti, Especial para O Estado de S. Paulo

24 Outubro 2017 | 06h00

Aos 86 anos, Décio Otero anuncia uma nova criação. Marika Gidali, com 80, escreve um livro. E foi sempre assim, respondendo com trabalho a todas as crises, que o Ballet Stagium conseguiu chegar aos 46 anos. 

Foi em 23 de outubro de 1971 que o Stagium surgiu, fruto da parceria entre Marika Gidali e Décio Otero, que haviam se conhecido em um programa sobre dança na TV Cultura de São Paulo. Desde então, o Stagium não parou mais: dançou no chão de terra batida dos interiores mais escondidos do Brasil e nos palcos europeus; nas unidades da antiga Febem, em SP, e em escola de samba; nos teatros mais elegantes e no Xingu. Em plena ditadura militar, a companhia viajava o País afora em um ônibus velho, expandindo, com a sua dança, o que se entendia por Brasil. 

Uma delas, Kuarup: ou a Questão do Índio, tornou-se um marco. Kuarup comemorou 40 anos no palco do mesmo Theatro Municipal de São Paulo onde havia estreado, em 1977. Foi uma celebração homenagem, na qual o elenco atual, da remontagem de 2017, ficou frente a frente com os outros elencos, que haviam dançado Kuarup nos diversos momentos e lugares em que o Stagium a apresentou. O que unia, ali, no palco, aquelas diferentes gerações de intérpretes, era a experiência comum de haverem ajudado a manter viva e forte uma obra que é um símbolo do jeito Stagium de pensar e fazer dança, nesta longa trajetória escrita a muitas mãos, e sempre orquestrada por seus diretores e fundadores, Décio Otero e Marika Gidali.

Décio conta que uma das suas principais preocupações é criar obras que estejam em diálogo com seu tempo. Para ele, o Stagium está sempre “fazendo coisas pautadas no ‘aqui agora’, no que está acontecendo no País. É um balé do ‘aqui agora’, porque a gente sempre está invocando assuntos que interessam”. A reapresentação de Kuarup, 40 anos depois, por exemplo, nos lembra que a “questão do índio” não pertence a um passado histórico. Em cena, os operários vestidos de verde-amarelo, cores “nacionais”, que se despem e se transformam em índios, que são, por sua vez, dizimados, parecem continuar presentes no mesmo Brasil no qual estrearam.

Ainda sem data de estreia, sua nova coreografia já tem título: Fon-Fon!, uma referência à revista carioca homônima, publicada de 1907 a 1958. O trabalho aborda o início do século 20, começo das gravações fonográficas, “aquelas coisas de 78 rotações, fora de qualquer parâmetro atual. Havia um purismo que apaixonou todo mundo na fonografia”, conta ele.

“A nova obra é totalmente diferente da última que fizemos”, diz Marika, que acrescenta: “Mas está inserida em uma curvatura de quase 50 anos, porque a pessoa que vai ver o Stagium sabe que encontrará um trabalho que segue uma linha, mas, ao mesmo tempo, continua surpreendendo”. Para eles, é essa “curvatura histórica”, entendida como uma luta, que confere unicidade a seus 46 anos de trajetória. “O grande trunfo, se se pode chamar isso de trunfo, é a identidade do Stagium. Não é uma identidade de estilo, de técnica, não é isso. Existe uma coerência, uma honestidade, uma luta que acabou criando uma identidade.”

Os dois concordam que Fon-Fon! tem uma importância política em meio à crise generalizada que assola o País, porque encontram na beleza e leveza uma crítica que é capaz de oxigenar os espaços simbólicos. “Estamos vivendo uma crise total, não somente social, pois ela é política, econômica, artística. A gente precisa fazer as pessoas respirarem. Esse é um momento de respirar, mas logicamente aí tem uma crítica embutida, mas de uma forma leve.”

Para Marika, o compromisso com a memória e a história são indispensáveis. No momento, organiza, no site da companhia, um histórico completo dos 46 anos do Stagium, que inclui desde os espetáculos, sinopses e fichas técnicas, até os borderôs mostrando o somatório dos públicos que os assistiram. “Tenho uma sabedoria sobre a necessidade da memória. Então, toda estatística que estou fazendo, tudo o que escrevo, tudo o que faço tem relação com a memória. Não adianta você nascer hoje e não saber tudo o que aconteceu ontem para seguir.” 

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Essa preocupação a levou à decisão de organizar, no formato de um livro, suas memórias pessoais, registradas em diários desde a infância. Para ela, não seria coerente, com o seu modo de entender a vida, não compartilhar essas anotações. “Sempre produzi em função dos outros. Não podia guardar tudo o que vivi e aprendi na minha vida para mim mesma. É nesse sentido que o livro foi feito.”

As memórias descritas marcam o que viveu na 2.ª Guerra, aos 5 anos, ainda na Hungria, a chegada ao Brasil, a carreira nos teatros, o início e a vida no Stagium: “Eu tenho várias vidas”, enfatiza Marika, ao se referir a cada uma dessas passagens, que ela nomeia de recomeços. 

Apesar de outras publicações tratarem aspectos dessas memórias, ela relata uma necessidade de contar a história a partir de seu ponto de vista: “Sou eu comigo mesma. Tudo o que está no livro é a minha lembrança das coisas. É a história da dança sob a ótica de uma trajetória”. O livro está em processo de revisão, ainda não tem título nem previsão de lançamento.

Como o Stagium é uma companhia sem subsídio permanente em uma terra sem memória, Décio e Marika contam que a única possibilidade de sobreviver é viver cada dia como uma nova fórmula, um desafio, um suspiro, um “aqui agora” contínuo e permanente, pois não há outro caminho senão o de continuar criando: “É lutar por uma companhia que precisa continuar existindo”, nas palavras deles. 

Em crise, Stagium resiste e luta para não acabar

Atualmente, o Stagium se financia através da venda de espetáculos, principalmente ao Sesc, com quem tem parceria de estreia e circulação da nova criação, e projetos em editais públicos. Em 2017, a companhia ganhou pela primeira vez o edital do Programa de Fomento à Dança da cidade de São Paulo, que existe desde 2006.

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