Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Ballet Stagium leva 'Kuarup' de volta ao Teatro Municipal 40 anos depois da estreia

Apresentações estão previstas para os dias 9 e 10 de outubro; prestes a completar 46 anos, companhia depende de apoio de empresas e instituições

Helena Katz  , Especial para O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2017 | 06h00

Há 40 anos, nos dias 2, 3 e 4 de julho de 1977, Kuarup estreava no mesmo Teatro Municipal de São Paulo onde vai comemorar as suas quatro décadas, celebração prevista para os dias 9 e 10 de outubro. Na época, o Ballet Stagium, fundado e dirigido por Márika Gidali e Décio Otero, fez um programa na forma de um jornal, em papel craft, tendo na capa os cinco primeiros parágrafos do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, de 1928, e um pequeno texto de Décio Otero, dedicando Kuarup: “Para você, que nasceu aqui, que mora aqui, que gosta daqui”. Na parte interna, dizia que se tratava de um primeiro passo em um novo caminho “de um despojamento a ser continuado”. Tudo começou quando Décio ouviu a música do Xingu, três anos antes, e espantou-se com a sua complexidade. Deixou maturar por um tempo, e daí surgiu Kuarup, a sua 23.° obra. 

O estilista Clodovil Hernandes (1937-2009), convidado para refazer o figurino de outro balé, Prelúdios, ao saber do projeto de Kuarup, fez questão de colaborar. Para ele, parecia um “acidente parapsicológico”, pois, assim como outros que fizeram parte da equipe de produção (Cláudio Tapeceiro e Equipe Gráfica), também estava interessado na questão dos índios. Os macacões que desenhou, com as cores da bandeira brasileira, propunham uma associação entre trabalhadores e índios, ligando as violências que atingiam a ambos – e a força dessa associação, que levou multidões aos teatros, parece atravessar os tempos, atando aquele Brasil que vivia na ditadura ao Brasil de hoje, cujos jornais continuam a estampar, 40 anos depois, violações e ações de extermínio a tribos indígenas na Amazônia e no Jaraguá, em São Paulo, para citar somente dois exemplos muito recentes. 

Kuarup tem coreografia de Décio Otero e direção artística de Márika Gidali, e já foi dançado cerca de 400 vezes, por diferentes gerações de bailarinos. “Foi graças a uma parceria com a Secretaria Municipal de Cultura que conseguimos fazer essa remontagem porque, estranhamente, o projeto de celebração dos 40 anos de Kuarup que enviamos para o Proac, que incluía apresentações nas escolas, foi recusado”, conta Márika Gidali. Sem desistir de atingir os estudantes, a companhia está realizando ensaios abertos, na sua sede, às segundas, quartas e sextas-feiras, às 11h30.

Sobre a remontagem, Márika destaca a experiência de trabalhar com bailarinos muito jovens. “É bem diferente ensaiar gente com 17 anos, que tem outros valores e vem do mundo dos festivais. Partimos da forma, levamos cada um a se jogar para dentro de si para construir o contexto, para depois, em cena, devolver o que brotou.” E Décio complementa: “É impressionante como atualmente os bailarinos pegam a coreografia tão facilmente, mas, para chegar à proposta do coreógrafo, ah... isso gasta um tempo bem maior. No caso de Kuarup, foi um caminho trabalhoso para perceberem porque se trata de uma obra clássica, digamos assim, da dança brasileira”.

Esse caminho envolveu palestras, filmes, leituras, conversas, discussões. “Nas outras remontagens, boa parte do elenco já havia dançado, mas, dessa vez, contamos com apenas quatro (Fábio Villardi, Eugênio Gidali, Marcos Palmeira e John Santos) para ajudar a fazer a cabeça de todos com o que não fazia parte do seu dia a dia”, explica Márika. E parece que a metodologia adotada deu certo.

“Ele é muito atual e faz 40 anos. A gente passa por uma realidade muito parecida. Poder participar é mais do que um aprendizado, é um presente”, diz Ariadne Okuyama. Marcos Palmeira complementa: “Kuarup nos mostra mais do que o que acontece com os índios, pois fala de uma realidade em que o mais forte quer sempre vencer o mais fraco, e isso diz respeito a toda a sociedade. Quando dançamos o cerimonial final, estamos dizendo que ainda estamos fortes, que ainda tem uma saída”. 

Fabio Villardi, o único que pertenceu ao primeiro elenco (do qual já morreram quatro bailarinos: Ricardo Gomes, Beth Oliveira, Ricardo Ordoñez e Milton Carneiro), declara: “É como se fosse a primeira vez, porque essa obra continua tendo aquela mesma força”. E Anselmo Vinícius destaca: “Kuarup é especial não só pelo tema, mas sobretudo pela forma genial dos movimentos criados, cuja coerência nos faz sentir na pele a cultura e a luta dos índios. São passos que realmente nos transportam. Por isso, durou 40 anos com tanta vitalidade”.

Dessa vez, o final será um pouco diferente. Mais de 30 ex-bailarinos que já dançaram Kuarup subirão ao palco. Márika e Décio desejam agradecer a todos por terem feito parte da trajetória que os fez chegar até aqui, celebrando os 40 anos de Kuarup.

Pagamos um preço alto para manter a coerência, diz Márika

Em 2016, fechar deixou de ser uma ameaça e se tornou uma realidade a evitar. O Ballet Stagium, que completa 46 anos no dia 23 de outubro próximo, precisou recorrer a um crowdfunding, que lhe rendeu cerca de R$ 70 mil. “Foi um respiro, que nos permitiu seguir na luta”, afirma Márika Gidali. 

Hoje, a cia conta com o apoio do Sesc, “parceiro em todos os momentos”, que comprou muitos espetáculos; do Sesi, “apoiador fundamental”, que financia uma circulação pelo interior; da Sabesp, que vai colaborar com R$ 150 mil com o Projeto Joaninha, que forma bailarinos vindos das escolas públicas; e da Lei de Fomento à Dança, que os contempla pela primeira vez, com R$ 200 mil.

Márika Gidali diz que com essas parcerias pontuais consegue organizar os aluguéis atrasados, renegociar com os bancos e pagar os bailarinos, acabando com a situação do ano passado, quando recebiam apenas uma ajuda de custo mínima. “Sabemos que a escola poderia render muito, caso entrasse no esquema dos festivais, mas isso não combina com o que entendemos por educação em dança. Pagamos um preço alto para manter a coerência, mas essa é a nossa vida, no que acreditamos.” 

Para ela, seguir só foi possível porque sempre aparecem os que compreendem a proposta e ficam junto. “Olho para o exemplo bonito da Yoko Okada, professora que dá aula sem cobrar para a companhia. E vejo também que cada um que veio e ficou algum tempo, nos ajudou a seguir. Antes, ficávamos enciumados quando nos deixavam, mas fomos compreendendo que cada um tem o direito de escolher como quer fazer dança e que ninguém é obrigado a adotar o nosso modo de pensa e viver”, pondera ainda Márika.

São muitos os legados do Stagium para a dança que se faz no Brasil. Nesse momento, vale destacar um, que está no modo como orçam a sua sobrevivência. “Se tivéssemos R$1 milhão por ano, o que é irrisório perto do que outras companhias do nosso porte custam, conseguiríamos tocar porque sempre fomos modestos. Vivemos no Brasil e conhecemos como a maioria vive por aqui.” Tem uma lição muito importante aí. 

 

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