Sebastião Moreira/EFE
Sebastião Moreira/EFE

Balé da Cidade de São Paulo faz releitura de ‘Sagração da Primavera’

Com ensaios realizados em parques da cidade, cia escolheu a obra de Stravinsky para refletir sobre o futuro do meio ambiente

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo

07 Setembro 2018 | 06h00

Os tradicionais ensaios que antecedem as temporadas do Balé da Cidade de São Paulo ganharam novas sedes nesta semana: parques municipais. O linóleo e o piso de madeira deram lugar à terra molhada e a vegetações fechadas. O figurino dos bailarinos se misturou com repelente de insetos. No lugar da iluminação dos canhões de luz, o sol e a chuva.

Para comemorar os 50 anos da companhia, o Balé da Cidade apresentará a partir da semana que vem uma releitura da obra A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, uma das mais importantes do século 20. “Acredito que a dança tem a função de ser um espelho da nossa cidade. Chamo de ‘corpocidade’. Por isso a ida aos parques. A dança tem a função de ser um documento da nossa época. Cada corpo, cada bailarino, é uma obra de arte que tem de ser apurada tecnicamente, estimulada em nível de ideias e sensibilizada para criar o futuro de novas visões”, explica o diretor artístico da companhia Ismael Ivo

Para o diretor, é essencial que os bailarinos se reinventem e ele cita o exemplo pessoal de convivência com a bailarina Márcia Haydée. “Fui o último parceiro dela de palco. Ela tinha dançado tudo que era possível e veio trabalhar comigo. Coreografando para ela encontrei uma menina que me olhava com olhos curiosos e queria saber cada detalhe, movimento das minhas mãos, como quem descobria um novo mundo”. 

Nos ensaios, ou laboratórios como a companhia chama, os bailarinos se moviam e seguiam as orientações de Ivo: se aproximem da natureza, lavem a alma, o espírito, a criatividade. Seja se pendurando em árvores ou se arrastando pelo chão de grama, os bailarinos despertavam a curiosidade dos frequentadores do Parque Santo Dias, na manhã de terça-feira.

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“O que é isso? O que essas pessoas estão fazendo aqui? Malho sempre aqui, mas eles são elite”, comenta Roberto. A poucos metros do ensaio, as pessoas que malhavam em uma área de academia do parque oscilavam os exercícios com as pausas para filmar os movimentos dos bailarinos. 

“Foi uma imersão. Normalmente apenas grupos experimentais se dão ao luxo de realizar uma investigação e um aprofundamento dentro do tema em que estão se propondo a traduzir artisticamente”, conta Ivo, orgulhoso de ter realizado ensaios. Além do Santo Dias, o Trianon-Masp e o Parque do Carmo receberam a companhia. 

Futuro. A escolha da natureza tem relação direta com o tema da Sagração da Primavera, mas vai além e tem a intenção de retratar uma preocupação com o futuro do ambiente. Durante as apresentações, pétalas de rosas cairão e, no prólogo, os bailarinos farão uma performance por 15 minutos que permitirá ouvir sons que remetem a atividades vulcânicas e degelo. 

A própria releitura da Sagração da Primavera retrata a preocupação com o ambiente. “A ideia original da obra mais dançada do balé fala da mitologia, quando se sacrificava uma virgem, para espalhar o seu sangue na vegetação, agradar aos deuses e ter a próxima colheita abundante”, explica Ivo, que questiona justamente se a próxima colheita vai existir. 

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“Estamos certos de que vem a próxima primavera? Não é só celebrar a primavera, precisamos pensar no planeta. Estamos destruindo a nossa capacidade de sobrevivência no planeta. Vemos uma onda de terremotos, furacões, queimadas em florestas. Nós como humanos somos talvez os últimos dinossauros preparados para a extinção. Outras civilizações também sumiram de um dia para o outro. Levei essa reflexão aos bailarinos.”

Durante os ensaios abertos, a principal intenção do diretor artístico era justamente levar a percepção da natureza aos palcos. Enquanto os bailarinos caminhavam pela mata ou dançavam na terra molhada pela chuva no Parque Santo Dias, fechavam os olhos, sentiam os odores e tentavam tatear os elementos que servirão de base para o espetáculo no Teatro Municipal. 

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A escolha de parques municipais, segundo Ivo, também reflete a necessidade de se olhar para a cidade de São Paulo de uma forma diferente. “Tradicionalmente, temos a São Paulo cinza, a selva de pedras. Mas atenção, existe um verde. O que chamo de “verdenovo” – de ver e de verde. Aqui existem porções da Mata Atlântica que não valorizamos e não vemos.”

As imagens capturadas nesses ensaios serão transformadas em painéis que vão ser exibidos pela cidade durante a temporada do balé. “Por meio do corpo, do Balé da Cidade, podemos começar a viver São Paulo dentro de uma outra imagem”, acrescenta Ismael Ivo, que define a própria trajetória na dança como um bom antropófago. “Quero manter o nível de qualidade do Balé da Cidade, mas também priorizar minha gestão, como um lugar que pode inspirar e criar novos intérpretes, novos criadores.”

O dom de se reinventar de um russo chamado Stravinsky

Primitivo e sensual. A Sagração da Primavera completa 105 anos em 2018 e mostra o ritual ao deus da primavera. A obra é uma composição do russo Igor Stravinsky coreografada pelo também russo Vaslav Nijinsky e teve uma estreia tumultuada em 29 de maio de 1913 no Teatro da Champs-Elysées, em Paris.

O balé, uma marca do Modernismo, é um dos mais dançados no mundo, mas desafiou as convenções estéticas ao apresentar uma música ritmicamente complexa e uma coreografia provocante. O enredo traz uma jovem marcada para ser entregue em sacrifício à divindade primaveril no auge de um ritual pagão, com o objetivo de o seu povo obter uma colheita rica. 

As principais características da música na época foram desafiadas com a criação: o arcabouço do ritmo, a estrutura orquestral, os aspectos harmônicos e o valor conferido à percussão. 

Na estreia da obra, o público não soube encarar as mudanças musicais apresentadas e o caráter primitivo da coreografia contribuiu para o estranhamento de quem estava assistindo na capital francesa. Músicos e maestros se retiraram do teatro. 

No palco do Teatro Municipal a partir da semana que vem, ao som da Orquestra Sinfônica Municipal, os bailarinos do Balé da Cidade de São Paulo também farão uma coreografia que remete ao primitivo e, ao mesmo tempo, ao sensual, embalados pela música de ritmo tribal de Stravinsky.

O fluxo da queda das pétalas de rosas durante a apresentação se intensificará à medida que a sagração se desenvolver, justamente para representar a mudança da calmaria para a dificuldade, tortura.

Apesar disso, a proposta do Balé da Cidade é uma reflexão sobre as questões ambientais e seu fim não será um sacrifício. “Estamos em 2018. E na Sagração da Primavera os intérpretes se potencializaram enquanto artistas, corpos dançantes, sensíveis a descobrir novos vocabulários e novas formas de expressão”, afirma Ismael Ivo, diretor artístico do Balé da Cidade de São Paulo. “Por que uma mulher ou homem tem de ser sacrificado, se todos temos apenas uma vida?”

SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA

Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo, s/nº. Dias 15, 18, 19, 21 e 22/9, às 20h; e dia 16/9, às 18h R$ 40 / R$ 80. Até 22/9.

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