Bailarina romena Dorothy Lenner estreia 'Wabi Sabi'

Ela se recupera de um grave acidente de trânsito

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2016 | 22h09

As súbitas chuvas desta época do ano não podem ser ignoradas. Enquanto muitas pessoas corriam para se proteger dos fortes ventos, o som calmo de um instrumento de cordas se unia ao barulho dos pingos d’água e eram ouvidos no galpão do Sesc Ipiranga. No centro do espaço, com um vestido comprido e o cabelo em traça apoiado no ombro, a atriz e bailarina romena Dorothy Lenner executava alguns passos de seu Wabi Sabi, espetáculo que estreia neste sábado, 12.

O nome do trabalho serve como guia de sua trajetória, ela explica. O conjunto de palavras representa um filosofia, uma visão de mundo dos japoneses, centrado na aceitação da vida e sua passagem. “É a descoberta da beleza, na imperfeição. Trata-se de aceitarmos o ciclo natural que se encerra na morte”, conta Dorothy. Ao lado das jovens bailarinas Beatriz Sano e Júlia Rocha, ela conta que o pensamento dá força a esse ciclo eterno.

Moradora da cidade de Tiradentes (MG), a atriz e bailarina nasceu em Bucareste. Em 1939, com a invasão da Polônia por Hitler, a família mudou-se para a Argentina. Aos 3 anos, Dorothy se divertia dançando sobre a mesa com toalhas enroladas no corpo. “Foi em Buenos Aires que iniciei meus estudos de dança moderna, clássica e flamenca”, recorda ela.

De lá, seguiu para as salas da Escola de Arte Dramática, onde aprendeu diretamente com os críticos Sábato Magaldi e Décio de Almeida Prado. Mais tarde, fez parte do coro em greve de sexo de Lisístrata, montagem no Teatro Ruth Escobar, em 1968. Naquela época, não imaginava que já era resistente a acidentes. Na semana da estreia, Dorothy caiu de um praticável a uma altura de 5 metros. Sua única reação foi virar o corpo para não bater o rosto. “Quando levantei, Ruth viu que estava tudo bem e seguimos na preparação. Eu não poderia abandonar o espetáculo na véspera.”

Os trabalhos com teatro não duraram muito tempo. Ela assume que tinha um certo incômodo “em ficar dizendo tantas palavras”. Foi em uma temporada na Índia que Dorothy conheceu o mestre Takao Kusuno, um dos precursores do butô no Brasil. No início do aprendizado, Dorothy conta que sofreu com o próprio vício que o teatro trouxe. “Eu estava em um outro ritmo, meus movimentos cumpriam o mesmo tempo das pessoas que ficam distraídas com o celular na mão”, explica. E logo acrescenta: “Geladeira, máquina de lavar, micro-ondas? Eu não levo jeito para nenhuma dessas máquinas”.

Mais tarde, a bailarina esteve no Japão para se apresentar a convite da Bienal de Kyoto. “Nunca imaginei que pudesse demonstrar meu trabalho num lugar como aquele, com um tradição milenar na dança-teatro e no butô”, ressalta.

Os treinamentos, portanto, tinham a intenção de desacelerar o frenesi ocidental para que ela mergulhasse no tempo regido pela filosofia. E é o estilo de vida que permanece para Dorothy. Ela reconhece que o corpo se transformou com os anos, que o vigor não é o mesmo e que isso interfere em sua dança. “Talvez esteja aí a beleza de meus dias”, conta. Nos dois pulsos, cobertos por protetores, ela esconde um episódio tenebroso. Em 2015, Dorothy viajava de carro para um festival e o motorista pegou no sono. Foi quase um ano para se recuperar dos dois pulsos quebrados, da coxa e dos braços dilacerados. “Achei que ia ser como no acidente no Ruth Escobar, mas me enganei. Pensei que, dessa vez, eu iria partir.”

Esses episódios e reflexões não se concretizam apenas na sua dança. O galpão vai abrigar uma exposição paralela, com objetos pessoais da bailarina, figurinos e lembranças trazidas de sua casa em Tiradentes. O que haverá, ela não revela. Prefere que a surpresa se junte à comunhão do público.

WABI SABI

Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822. Tel.: 3340-2000. Sáb., 21h, dom., 18h. R$ 20 / R$ 6. Estreia 12/11. Até 10/12.

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