NAIRÍ AHARONIÁN
NAIRÍ AHARONIÁN

Autor franco-uruguaio Sergio Blanco renova a cena brasileira com a autoficção no palco

Peça ‘O Bramido de Düsseldorf’ une ilusão com a história real de um famoso assassino em série alemão

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2018 | 06h00

A infância nos ensina que uma história é responsável por abrir as portas da imaginação para um mundo em que fantasia e realidade podem conviver. Na vida adulta não sobram muito mais do que fronteiras, mas o dramaturgo Sergio Blanco está determinado a derrubá-las. O autor franco-uruguaio, um dos principais nomes do teatro contemporâneo, chega a São Paulo com O Bramido de Düsseldorf, que terá apenas duas apresentações, neste sábado, 15, e domingo, 16, no Sesc Avenida Paulista. 

Sua admiração pelo Brasil é antiga. Desde a infância enxergava o País como “exótico e imenso, fora das proporções”. Nascido em Montevidéu, Blanco faz parte de uma família de atores e escritores, mas sua relação com a língua espanhola não lhe deu inspiração para criar. Desde cedo estudou francês e apaixonado pelo idioma conseguiu uma bolsa de estudos na França. “Com a língua francesa, percebi que poderia pensar o mundo e suas relações.”

Nos últimos dois anos, suas peças Kiev e A Ira de Narciso foram produzidas no Brasil. A primeira retoma os 100 anos de O Jardim das Cerejeiras, de Chekhov, mas é na segunda que sua ideia de autoficção se instaura. “Adotei o que fazem no campo novelístico para o teatro, ao mesclar relatos reais com ficção.” Em A Ira, o ator Gilberto Gawronski interpreta o próprio autor ao narrar sua passagem pela Eslovênia, durante um congresso (leia ao lado). No quarto do hotel, uma mancha vermelha atiça a curiosidade do personagem que descobre pistas sobre um assassinato ocorrido ali.

O mesmo se dá em O Bramido..., que retoma a história de agonia e morte do pai do autor em uma clínica na cidade alemã, mesma região em que atuou o Vampiro de Düsseldorf, um assassino em série condenado à pena de morte por decapitação, em 1929. “Parto de um episódio ou memória e projeto em uma paisagem fictícia.”

Outro dado essencial para esse jogo está na atuação. “É preciso restabelecer o contato do ator com a plateia. É um vínculo que fortalece a história”, garante. “Em uma biografia, a presença de documentos serve para firmar esse pacto da verdade. No teatro, teremos um pacto de mentira.” 

De fato, a proposta subverte a ideia tradicional de contar uma história já que mobiliza no espectador um questionamento sobre o que está sendo representado no palco. “Em minhas peças, o texto discute questões filosóficas e também oferece uma chance de provocar uma transformação no campo estético.” 

É algo que tem criado raiz no Brasil. O espetáculo Kassandra, de Blanco, retrata a personagem da mitologia grega, que foi espólio da Guerra de Troia, como uma dançarina se apresenta em uma boate. Em Florianópolis, a peça da companhia La Vaca completou seis anos em cartaz, com a atriz Milena Moraes. Na montagem, o público assume o papel de cliente da casa. “Estreamos na mais tradicional casa de shows eróticos da ilha. No início, as pessoas não entendiam se era um espetáculo ou um show de strip-tease.” Nos seis anos em cartaz, Kassandra já passou por 13 casas da região e chegou a diferentes públicos e lugares. “A peça me aproximou das mulheres trans e com ela também me apresentei na Capital Federal.”

Se continuar assim, as obras de Sergio Blanco têm futuro garantido por aqui. “Toda escritura pode alterar uma realidade”, acrescenta ele.

Entrevista 

‘Um suspense que transgride o gênero’

Gilberto Grawronski

‘A Ira de Narciso’ é como um suspense. Qual sua primeira impressão ao ler o texto?  

O suspense está presente no texto, mas a peça mesmo que apresentada como um thriller transgride o gênero e fala do homem contemporâneo.

A ideia de autoficção no palco e o mito de Narciso também têm a ver com o ofício do ator, que vive dramas seus e dos outros? 

Creio que Sergio Blanco metaforiza com seu texto não só o ator, mas todas as expressões artísticas. 

O autor acredita que criar um pacto com a plateia reforça o funcionamento da autoficção. Como construir isso com o público?

Tento sempre estabelecer um contato individual com todos os espectadores. A verdade não está nos fatos que são narrados, mas no ato de narrá-los. A história não se dá pelo papel que interpreto, mas pelo que estou relatando.

Um olhar para a memória e o futuro da América Latina

Colombianos do Mapa Teatro chegam a SP e Antunes Filho entra em temporada no Sesc Consolação

Depois de se apresentar na edição do 5.º Festival Ibero-americano de Artes Cênicas (Mirada), algumas produções desembarcam em São Paulo, neste fim de semana, em pouquíssimas sessões nas unidades do Sesc. O grupo colombiano Mapa Teatro, que já esteve na cidade no ano passado, retorna trazendo La Despedida, nesta sexta-feira, 14, e sábado, 15, no Sesc Pinheiros. 

O espetáculo, que encerra a trilogia Anatomia da Violência, oferece um mergulho em uma floresta exuberante para falar sobre o narcotráfico no país e a relação do governo da Colômbia com as Farc, que selaram acordo de paz recentemente. 

Fundado em Paris, no ano de 1984, o Mapa Teatro é um ajuntamento artístico radicado na Colômbia que não se contenta em estabelecer suas criações em formatos específicos como teatro, música ou cinema. O desejo de atravessar essas fronteiras se efetiva nos chamados mapas que levam em conta disciplinas e conhecimentos diversos, mas tudo em função de criar uma rica experiência visual e de reflexão para o espectador.

Na próxima quinta, 20, é a vez da Companhia L’Expose que apresenta sua peça La Miel Es Más Dulce Que la Sangre, no Sesc Pompeia. O diretor Tino Fernández e a dramaturga Juliana Reyes recriam o universo criativo do poeta e dramaturgo espanhol Frederico García Lorca e o surrealismo do também espanhol Salvador Dalí, inspirados na obra que batiza o espetáculo de dança. O grupo, que nasceu em Paris há 27 anos e hoje atua em Bogotá, é um dos principais nomes da dança-teatro. 

E para quem aguarda a nova criação de Antunes Filho, o encenador estreia Eu Estava em Minha Casa e Esperava Que a Chuva Chegasse na próxima sexta, 21, no Sesc Consolação. 

Na peça escrita pelo francês Jean-Luc Lagarce, cinco mulheres esperam o retorno do filho de uma delas, que foi expulso de casa pelo pai, sem indicações claras do local ou da época. No espetáculo, o palco está tomado por cadeiras e há uma mesa colocada ao centro. Na nova empreitada, Antunes continua apostando na autonomia do público, que é livre para inventar as próprias narrativas.

O BRAMIDO DE DÜSSELDORF. Sesc Avenida Paulista. Av. Paulista, 119. Tel. 3170-0800. Sáb., 21h30, dom., 18h30. R$ 50 / R$ 25. Até 16/9.

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