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Autor das trilhas de filmes da Disney, Alan Menken fala das criações

Compositor e pianista assina os clássicos como 'A Bela e a Fera', 'A Pequena Sereia', 'O Corcunda de Notre Dame' e 'Pocahontas'.

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

06 Outubro 2015 | 06h00

Se você é apaixonado por alguma canção de um filme ou musical que leva a marca Disney, é quase certo que descobrirá a assinatura de Alan Menken. Aos 66 anos, o compositor e pianista americano ajudou a contar histórias que se tornaram clássicas, no palco ou na animação, como A Bela e a Fera, A Pequena Sereia, Newsies, Aladdin, Pocahontas, O Corcunda de Notre Dame.

Com esses trabalhos, encheu suas prateleiras de prêmios como Oscar (já foram oito estatuetas), Grammy (11), Tony e Globo de Ouro – só lhe falta um Emmy para então completar a quádrupla coroa do show bizz americano, conhecida como EGOT, exclusivo panteão ocupado por poucos, como Richard Rodgers, Whoopi Goldberg e Mel Brooks. Mas, como não se vive apenas de sucesso, Menken também já ganhou um Framboesa, prêmio destinado aos piores do ano no cinema, pela canção de Newsies.

Em São Paulo, a qualidade de seu trabalho pode ser medida em Mudança de Hábito – O Musical, em cartaz no Teatro Renault, no qual enfrentou um de seus maiores desafios: o de não usar os clássicos da Motown que marcam o filme para criar uma nova trilha para o teatro sem perder a malemolência e a ginga daqueles hits tão necessários para a trama. “Quando fui convidado, logo avisei de que não faria paródias das músicas da Motown”, conta ele ao Estado, em entrevista realizada por telefone, desde Nova York. “Com o aval dos produtores, logo busquei algo que desse ritmo à história.”

A encenação tem um enredo semelhante ao do filme: Deloris van Cartier (Karin Hils vive o papel representado por Whoopi no cinema) é uma cantora obrigada a se refugiar em um convento para fugir de bandidos que querem matá-la por ter testemunhado um assassinato praticado por eles. Lá, ela transforma a rotina das freiras, especialmente ao reorganizar o coro, que passa a render dividendos ao quase falido convento. A ação foi transposta para a Filadélfia dos anos 1970, época em que o estilo soul dominava – não à toa, a cidade era conhecida como “Fili Soul”.

A variedade de temas e sons sempre marcou seu trabalho, iniciado em 1982 com o musical off Broadway A Pequena Loja dos Horrores, escrito pelo seu amigo Howard Ashman. Além dele, Menken também trabalhou com outros letristas como Tim Rice, Glenn Slater e Stephen Schwartz.

Sobre o assunto, Menken, que recentemente trabalhou na nova versão de A Bela e a Fera para o cinema, agora estrelada atores de carne e osso como Emma Watson, Luke Evans, Ewan McGregor e Emma Thompson, com previsão de estreia para 2017, falou na seguinte entrevista.

Qual a diferença no processo de composição para o teatro e para o cinema?

O trabalho é praticamente o mesmo. O primeiro passo que serve para ambos é desenvolver o vocabulário da história, a forma como ela vai ser narrada. Quando a trilha é para o cinema, há mais músicas, mas também há mais tempo para a criação. Já o teatro obriga a se reescrever muito mais as canções. O compositor precisa capturar o momento dramático por meio das vozes dos personagens. É importante notar detalhes óbvios, mas que fazem diferença. No palco, por exemplo, não existe o recurso do close que ajuda, no cinema, a desenvolver um clima. Por isso, no teatro, as letras e a melodia muitas vezes substituem a câmera no sentido de provocar determinadas emoções.

É verdadeira a história de que você hesitou ao ser sondado pelos executivos da Disney para transpor Mudança de Hábito para musical?

Sim, no início, tive minhas dúvidas por uma série de razões. Eu não estava disposto a fazer uma simples transposição cinema/palco, porque não via algo que pudesse despertar interesse do público. Então, primeiro respondi que não me interessava em fazer paródias das músicas da Motown que compõem a trilha do filme. Mas, quando me ofereceram autonomia e liberdade de criação, fiquei animado, pois gostaria de fazer algo mais moderno e que fosse um acréscimo à trama. Algo como Mamma Mia!, que utiliza uma trilha de discoteca dos anos 1970 em uma história que acontece nos dias de hoje. E Mudança de Hábito oferecia a mesma chance de se trabalhar com um tipo de música que, embora tenha marcado uma época, é perfeitamente adaptável para outros momentos.

Mas não houve nenhuma sugestão de se incluir algum pop standard na trilha? Você mesmo não ficou tentado a fazer isso?

Não, de forma alguma. Eu sabia que esse não era o melhor caminho. Claro que é tentador ter algum hit da Donna Summer ou dos Bee Gees, que são maravilhosos, mas o caminho não era esse. Veja bem, Mudança de Hábito oferece uma esplêndida gama de estilos musicais, que vão do soul e funk aos hinos religiosos. É uma mistura muito peculiar de canções seculares a outras sagradas em seu estilo. Isso oferece recursos confiáveis para a criação. Os musicais têm, de um forma geral, a mesma estrutura, ou seja, uma das canções será o carro-chefe e logo ela é apresentada, para depois voltar no final do primeiro ato em um diferente contexto. Em Mudança de Hábito, essa canção surge com uma força incrível, realmente sedutora, para voltar depois com um elemento mais religioso, espiritual.

Você tem a fama de ser um autor que compõe rapidamente. É verdade?

Bem, sim (risos). Na verdade, quando sei o que quero escrever, quando descubro o perfil dos personagens, como eles devem dizer determinadas falas por meio da música, bem, aí minha fluência criativa é rápida. Não diria que sou rápido, mas direto. Veja, o mais importante é descobrir antes de tudo qual vai ser o vocabulário do projeto, o que quer o diretor, quais as intenções de meus colaboradores, o que pede o roteiro. Só depois de isso tudo estar definido é que meu trabalho realmente começa, pois estaremos todos conectados em um mesmo mundo.

Uma tendência dos musicais atuais é o uso cada vez mais intenso da tecnologia – no espetáculo Homem-Aranha, por exemplo, o protagonista voava muito sobre a plateia, mas, mesmo assim, isso não foi capaz de torná-lo um sucesso. O que você pensa disso?

Gosto muito do uso da tecnologia, confesso que, muitas vezes, escrevo já pensando que haverá alguns números que exigirão alguma parafernália tecnológica. Claro que ainda o que importa são as canções, as coreografias, as interpretações, mas, se existem recursos capazes de tornar o irreal cada vez mais real, por que não?

Se é que existe, qual seria o melhor caminho para se tornar um bom compositor?

Antes de tudo, ser colaborativo. Ser humilde, na medida em que isso é possível na Broadway. Como disse antes, é preciso definir uma estratégia junto com outros profissionais da equipe criativa para então se dar o primeiro passo. E isso exige paciência, pois se experimenta muito até se chegar ao rumo certo. E, finalmente, outro detalhe importante: nunca se apaixonar demais pelo seu trabalho. Uma certa distância é sempre bem-vinda. 

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