Piotr Lis
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Atrizes brasileiras estreiam em parceria polonesa no FIT Rio Preto

Radosław Rychcik dirige Magali Biff, Bete Coelho e Denise Assunção em ‘As Criadas’, na mostra de São José do Rio Preto, que começa nesta quinta, 6

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2017 | 04h00

Não é de hoje que parece haver uma boa onda de parcerias entre atores e artistas nacionais em parcerias internacionais. A atriz Bete Coelho parece ser exemplo disso. Desde A Dama do Mar (2013) com o diretor Bob Wilson, e a – esquecida – superprodução de Garrincha (2016) com o norte-americano, ela também estreou no ano passado A Melancolia de Pandora com Steven Wasson, discípulo do mestre da mímica Étienne Decroux.

Agora, a atriz mergulha, ao lado de Magali Biff e Denise Assunção, nas palavras de Jean Genet em As Criadas, peça encenada pelo diretor polonês Radosław Rychcik, que estreia no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, que começa nesta quinta, 6.

Na montagem, o trio adentra o universo cruel do escritor francês no qual duas criadas planejam a morte de sua patroa. “É uma atmosfera muito sombria”, explica o diretor conhecido como Radek. “A peça traz uma situação obscura que também permite uma catarse às criadas”, conta ainda.

Enquanto Madame não chega, as empregadas Solange e Claire estão no quarto da patroa vestindo suas roupas, experimentando seus chapéus e revivendo uma rotina de opressão, enquanto revelam segredos de ódio e inveja. “As atrizes são disciplinadas e muito diferentes entre si. Há uma individuação que busquei nos ensaios para reforçar as características de cada uma”, diz o diretor. 

A história foi inspirada no caso real das irmãs Papin, que assassinaram a mulher e a filha do seu patrão na França, em 1933. Na época, não apenas Genet, mas Sartre e Jacques Lacan se debruçaram sobre o ocorrido, considerando um retrato da luta de classes. 

Para Bete, a experiência com o diretor vai na contramão de suas últimas montagens, que compunham paisagens no palco com grande apelo visual. “Ele traz a palavra mais rasgada”, conta. “O diretor seca o cenário para molhar o texto e as nossas ações no palco.” A atriz conta que participar de um texto francês com direção polonesa é só mais uma das capacidades do teatro. “As fronteiras não importam tanto, porque acabamos nos parecendo muito semelhantes. O teatro tem essa superioridade.” 

Espetáculos da programação desembarcam em São Paulo

Das 23 montagens apresentadas, quatro espetáculos vão passar pelas unidades do Sesc, parceiro do festival 

Assim como ocorreu no último Mirada – Festival Ibero-americano de Arte Cênicas, o Sesc, que dessa vez está de volta na parceria com a prefeitura de São José do Rio Preto, vai circular com parte da programação do FIT nas unidades da cidade.

O primeiro a chegar é As Cridas, feita na parceria Brasil e Polônia que cumpre temporada no Sesc Santana a partir de 13 de julho. A atriz Bete Coelho, que divide o palco com Magali Biff e Denise Assunção (leia mais acima) conta que a montagem ainda vem com os músicos poloneses, parte importante do espetáculo. “A trilha ajuda a instaurar o ambiente sombrio de duas irmãs que planejam a morte de sua patroa.” Para o diretor, essa estrutura permitiu um intercâmbio interessante entre tantos artistas. “Pude ver empenho e esforço no elenco e na mina equipe para integrar em tão pouco tempo um espetáculo tão denso”, explica Radek Rychcik.

A próxima montagem, And So You See (Então Você Vê...), é um misto de dança com performance que vai ser apresentada no dia 18 de julho no Sesc Belenzinho. O espetáculo foi criado pela coreógrafa sul-africana Robyn Orlin, tida como controversa e provocadora. Nascida em Johannesburgo, a artista carrega trabalhos com temas que lhe interessam, como racismo, homofobia e as questões de identidade. Nesse espetáculo, ela propõe uma experiência sobre mistura de gêneros, ao lado do performer Albert Ibokwe Khoza.

Entre os dias 20 e 23 de julho, o Sesc Pinheiros recebe Los Incontados – Un Tríptico (Os Incontados – Um Tríptico). A montagem colombiana do coletivo Mapa Teatro, de Bogotá, chega à terceira parte de um panorama sobre a onda de violência histórica que assola o país por mais de meio século. 

Em 2010, a companhia estreou Los Santos Inocentes, que retratava uma celebração na qual homens mascarados, vestidos de mulheres e armados com chicotes, agridem as pessoas pelas ruas. Na segunda parte, Discurso de Un Hombre Decente (2012), o coletivo foi para a selva colombiana onde um traficante ensaia um discurso sobre a legalização das drogas. Na peça que encerra a sequência, as crianças de uma família escutam pelo rádio a história da revolução. No palco, o desenrolar do drama se revela na organização do palco e em como a plateia acompanha a montagem.

Quem fecha a lista é a montagem brasileira Programa Pentesileia – Treinamento para a Batalha Final, que estreou recentemente no Rio. O espetáculo de Maria Thaís traz a obra da dramaturga italiana Lina Prosa para celebrar os 60 anos de carreira da atriz Maria Esmeralda.

No universo da mitologia grega, Pentesileia foi uma rainha amazônica que lutou na Guerra de Troia. Entre tantas versões, uma diz que ela foi morta por Aquiles, que estava apaixonado pela amazona ou o contrário: Pentesileia matou o guerreiro para logo em seguida se matar. Esmeralda, que nasceu no Pará, incorpora a personagem para se encontrar com o herói, pronta para um acerto de contas.

Extensão FIT

As Criadas  

(Brasil- Polônia)

14/7 a 13/8 – Sesc Santana 

 

And So You See...  

(África do Sul) 

18/7 – Sesc Belenzinho

 

Los Incontados (Colômbia)

20 a 23 de julho 

– Sesc Pinheiros 

 

Programa Pentesileia (Brasil)

4/8 a 10/9 – Sesc Belenzinho

FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO. Vários lugares. De 6 a 15/7.  R$ 10. Mais informações, no link

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