Lenise Pinheiro
Lenise Pinheiro

Atriz Louise Cardoso adapta texto de Olivia Byington em monólogo

'O Que É Que Ele Tem' é o relato do convívio da autora com o filho que nasceu com síndrome de Apert

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2018 | 06h00

A atriz Louise Cardoso preparava-se para comprar os direitos de uma peça francesa, que unisse comédia e drama, quando foi instigada pelo autor e diretor Flávio Marinho: “Leia esse livro. Você vai querer fazer um monólogo a partir desse texto”. Tratava-se de O Que é Que Ele Tem (Objetiva), tocante relato escrito por Olivia Byington sobre a convivência com seu filho João, que nasceu com síndrome de Apert, causada por uma mutação genética que gera acrocefalia (desenvolvimento anormal do crânio) e sindactilia (pés e mãos fundidos total ou parcialmente).

Apaixonada pela convivência com outros atores oferecida pelo palco, Louise afastou a ideia de estar sozinha no palco até terminar a leitura, sob extrema emoção, da última linha do livro. “Tenho de falar sobre isso”, pensou Louise, que venceu os próprios temores e estreia neste sábado, 17, de seu primeiro monólogo, O Que é Que Ele Tem, no Teatro do Sesi, no Rio de Janeiro. “Sou uma atriz totalmente emotiva – busco ser técnica, mas nem sempre consigo”, conta ela que, com esse trabalho, quer atingir todas as mães do mundo.

De fato, Olivia Byington tratou de um assunto íntimo e delicado com extrema bondade. Mais que desfiar dores e dúvidas, distante da fácil autocomiseração, ela revela a tremenda força de vontade de viver de seu filho João e de toda família para tornar saudável o convívio entre todos. “É um menino apegado à existência – a maioria das pessoas não tem nem a metade dos problemas do João, mas, mesmo assim, ele é um guerreiro”, observa Louise, que se sentiu segura a não dividir o palco com ninguém graças à direção de Fernando Philbert. “Como já dirigiu diversos monólogos, ele sabe quais são os melhores caminhos.”

A peça começa com Louise, ainda com as luzes acesas, se dirigindo diretamente à plateia. “Falo em primeira pessoa, como se estivesse com uma turma de pais.” Aos poucos, as luzes se apagam enquanto a personagem narra a trajetória do garoto que, desde o nascimento, tomava remédios todos os dias e se submetia regularmente a cirurgias que abriam seu crânio. Impossível conter a emoção, mas, novamente, nada de deixar florescer sentimentos piedosos. 

Para isso, Louise e Philbert trabalharam sobre uma adaptação também precisa, assinada por Renata Mizrahi. “Quando ela fez a primeira versão, quase caí para trás, pois tinha 58 páginas!”, diverte-se a atriz. “Mas, ao lado do diretor, fomos escolhendo as melhores passagens até ficar com 22, o que corresponde a aproximadamente uma hora de atuação. E, o mais importante, o clima do livro está lá.”

Esse clima significa um texto que une amor e leveza. Um respeito pela diferença. Enfim, um amor raro. Para isso, foi decisiva a participação e o consentimento de Olivia Byington. Louise conta que, ao decidir fazer o monólogo, enviou uma mensagem para a autora, que estava em Nova York. “A primeira reação dela foi ficar surpresa, a ponto de pedir um dia para pensar, pois precisava digerir a ideia”, conta. “Quando eu já temia uma negativa, Olivia respondeu que achava ótima a ideia.”

E a participação de Olivia não se resume à autoria do original – cantora e violonista, seu convívio com a música tornou-se uma extensão natural ao espetáculo. Assim, canções conhecidas d seu repertório, como Lady Jane e Anjo Vadio, chegam a assumir o protagonismo em determinados momentos do espetáculo. “Olivia está presente também dessa forma”, conta Louise, que também assina a produção do trabalho.

O cenário, assinado por Natália Lana, traz poucos objetos e algumas projeções de desenhos feitos por Olivia para o livro. Todo o trabalho criativo busca criar um ambiente de otimismo, pois, se tem alguns momentos dramáticos, o monólogo não se resume a isso. “É uma história de muitas vitórias. Olivia não se faz de coitada em momento algum. Ela vai à luta, enfrenta os problemas com absoluta leveza, coragem e muita determinação. Ela e João são exemplos de otimismo e amor à vida”, conta Louise.

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