FOTO TABA BENEDICTO / ESTADÃO
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Atriz Clarice Niskier retorna com ‘A Alma Imoral’, que a desafia há 16 anos

Longevidade e sucesso do monólogo, porém, não a acomodam e ela traz ‘Coração de Campanha’, inédita em SP, em fevereiro

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

14 de janeiro de 2022 | 05h16

A atriz carioca Clarice Niskier, de 62 anos, começa nesta sexta, dia 14, no Teatro MorumbiShopping, uma nova temporada de A Alma Imoral, o monólogo que a desafia e a ilumina há quase 16 anos. O espetáculo estreou no Rio de Janeiro em 2006, chegou a São Paulo em 2008, superou os 500 mil pagantes pelo País e, para que nada desafine nas sessões marcadas para sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 18h, até 6 de fevereiro, a artista segue um ritual idêntico ao primeiro dia. Somente ela manuseia o pano preto, que, depois do prólogo, se estabelece como figurino, transformando-se em oito vestes, a exemplo de mantos, vestidos e burcas. “Talvez seja uma superstição, mas o fato é que preciso fazer isso e dá certo”, explica.

Adaptado do livro do rabino Nilton Bonder, A Alma Imoral tem supervisão artística de Amir Haddad e contrasta conceitos de obediência e transgressão, certo e errado, traídos e traidores, tudo embebido pelas filosofias judaicas e budistas. O público parece hipnotizado pela oratória de Clarice e não são raros aqueles que confessam para a atriz terem assistido à montagem cinco, dez ou mais vezes. O sucesso e a longevidade do espetáculo, no entanto, não acomodam ou paralisam a protagonista. A intérprete entendeu que acumular um ou mais projetos à carreira de A Alma Imoral só melhorariam a sua performance e, desde 2015, quando estreou o solo A Lista, da canadense Jennifer Tremblay, aposentou a ideia de que cada novo projeto merece dedicação integral. “A Alma é insuperável e não posso competir comigo mesma, pelo contrário, eu sinto que ela fica cada vez mais pulsante, o que ensaio para os novos trabalhos reverbera nesse que continuo fazendo”, justifica.

 Diante dessa mentalidade, a artista consolidou uma espécie de repertório, sempre supervisionada por Haddad, que ocupará diferentes palcos paulistanos no primeiro semestre. Em 11 de fevereiro, Clarice estreia no CCBB Coração de Campanha, em que contracena com o ator Isio Ghelman. A peça de sua autoria, escrita ao longo de 2020 e inédita em São Paulo, remete a uma experiência pessoal. Clarice e o produtor e músico José Maria Braga, pouco antes da pandemia, decidiram romper o casamento de 25 anos. Diante da necessidade do confinamento, os dois reavaliaram o imediatismo da separação, pelo menos de apartamentos, e construíram uma nova parceria junto ao filho Vitor, de 22 anos. “Não se trata de uma peça autobiográfica, mas uma obra inspirada em acontecimentos da minha vida e de outras pessoas”, avisa.

Vitor também é fundamental em A Esperança na Caixa de Chicletes Ping Pong, solo poético-musical em cima da obra do compositor Zeca Baleiro, que será visto no Teatro J. Safra a partir de 15 de abril. Em meados de 2016, logo depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o adolescente se mostrou tenso por causa das turbulências políticas e sugeriu à mãe que se mudassem para Portugal. Clarice respondeu que nunca quis morar fora do País e que seu teatro só fazia sentido aqui. Desafiada pelo filho, ela viu que era a hora de levantar um espetáculo que transitasse pela alma brasileira e, quem sabe, discutisse a ética e a identidade nacional.

Um encontro casual com Baleiro impulsionou o projeto. “Eu leio suas letras e percebo que dariam uma peça, sua obra responde por um Brasil plural, percorre uma gama de estilos e texturas, é urbano e rural”, disse ela ao compositor. Baleiro avisou que, caso a atriz levasse a ideia adiante, teria sua aprovação. Nesta altura, ele nem imaginaria que viria a ser o diretor musical da montagem, que estreou no começo de 2020, foi pausado pela pandemia e voltou à cena presencial no Rio um ano depois. O roteiro passa por 46 canções, como um grande cordel, e, para o arremate, Clarice ainda buscou palavras dos escritores Eduardo Galeano e Sérgio Buarque de Holanda.

A atriz não evita comparações com o ano de 2006, quando lançou A Alma Imoral, e o País deste começo de 2022 que ainda sofre com a pandemia. “Na época, o Brasil não era mais um país estreito, era possível enxergar a justiça social, o povo acessava novos lugares”, lembra. “Hoje, o que temos é um país de novo fechado, as pessoas tensas e desesperançosas, como nunca vi”, completa. Seja na reflexão filosófica, na comédia dramática de relacionamentos ou no recital poético-musical, Clarice encontrou uma fórmula de se comunicar com fiéis e crescentes plateias e, em meio a esse discurso, firmou uma assinatura artística.

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