WERTHER SANTANA/ESTAD?O
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Ator Robson Catalunha participa de intercâmbio no centro criativo de Bob Wilson

O Watermill Center, em Nova York, reúne artistas do mundo para uma residência artística

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2017 | 03h00

Para longe das baixas temperaturas brasileiras, o ator Robson Catalunha está aproveitando o tempo ensolarado no Watermill Center, o centro criativo do diretor Robert Wilson, fundado em 1992, em Nova York.

O lugar, que já recebeu artistas como Lady Gaga e Marina Abramovic, abre inscrições todos os anos para artistas participarem de um disputado intercâmbio. Catalunha foi um dos aprovados desta edição e vai estudar ao lado de artistas de performance, artes visuais, cinema, dança e moda de 30 países. 

A estação ensolarada do país é o período ideal para a programação dos estudos no Watermill, conta o ator, além do que é o momento de relembrar a época em que o diretor texano de 75 anos se instalou na cidade. “Ele estava à procura de um espaço maior que o seu pequeno ateliê. Foi quando encontrou um galpão abandonado de uma antiga fábrica”, diz o ator. Hoje, esse laboratório de artes tem área de 20.000 m² e abriga estúdios, acervo, jardins, galeria, loja e espaços ao ar livre.

No fim dos anos 1980, a efervescência cultural e artística movimentava a região e hoje é revivida na festa Gala, que abre as portas do Watermill para o público com um jantar performático, já marcado para o próximo dia 29. Neste ano, o grande homenageado é o cantor e compositor Lou Reed, que trabalhou com Wilson em espetáculos como Time Rocker (1997) e Poetry (2000). 

O interesse do ator por participar do programa já vem de uma experiência direta com Wilson. Em abril do ano passado, o diretor estreou sua primeira produção brasileira em homenagem ao jogador de futebol Mané Garrincha, no Sesc Pinheiros (leia mais abaixo). Ao se inscrever para o elenco, Catalunha passou por uma série de testes ao lado de atores do Brasil a fim de integrar a peça que retomava a vida e o sucesso do anjo das pernas tortas. “Os testes eram simples, mas definidores na escolha do elenco.” Ele lembra que, meses depois, Wilson desembarcou em São Paulo para selecionar pessoalmente os atores que iriam estrelar no palco. “Posso dizer que nunca fizemos leitura de textos. A preocupação com a imagem do ator na cena era prioridade.” 

Ao contrário de boa parte dos encenadores brasileiros, Catalunha louva a experiência com Wilson pela ausência de uma busca profunda – e exagerada – pela subjetividade das personagens. “Não há psicologismo para explicar as figuras apresentadas ali. Claro que ele tinha um roteiro para a história, mas construímos nossas figuras experimentado no palco.” 

Ao interpretar uma criança que não fazia parte da narrativa original de Garrincha, o ator explica que seu espaço precisou ser defendido com um pouco de ousadia. A criança surgia em cena como uma observadora irônica da história. “A peça solicitava um grande rigor no trabalho de corpo dos atores. Improvisar foi importante porque acabei oferecendo ao diretor diferentes modos de compor a personagem”, conta Catalunha.

Para o ator que tem se interessado pela linguagem performática no teatro, ele é um dos preparadores do velório cenográfico da atriz Maria Alice Vergueiro, no happening Why The Horse?, que estreou em 2015 e circulou por mais de 14 cidades do País na mostra do Palco Giratório, do Sesc. “Com ela já ficamos em cena por longos períodos, criando sem parar. Já cheguei a ficar três horas intensas para depois avaliar o material que levantamos”, explica o ator que também integra a companhia Os Satyros. 

O fim do intercâmbio de aulas e oficinas no Watermill, em meados de setembro, não significa que Catalunha vai virar as costas e voltar para o Brasil. “Espero encontrar artistas interessantes e prosseguir desenvolvendo novos projetos.”

Repercussão de ‘Garrincha’ não o desanimou

Reação da crítica e do público e a grandiosa cenografia deu vida breve para a história do eterno mestre dos campos 

O interesse de Bob Wilson pelo Brasil não é de hoje. Atores como Bete Coelho, Lígia Cortez e Luiz Damasceno já integraram suas criações. No ano passado, foi a vez de Robson Catalunha em Garrincha, que homenageou o jogador de futebol.

A verdade é que o espetáculo do Sesc tinha tudo para estar em cartaz até hoje, mas, na época, a recepção da crítica e do público não foi positiva. “Disseram que faltou contar a trajetória do jogador”, explica o ator. Mesmo assim, ele defende que a memória de Garrincha estava viva, como na cena do acidente que matou a mãe de Elza Soares. “Quando ela viu a peça chorou muito. E por quê? A história estava lá.” 

Outro revés contra a circulação da obra, sugere Catalunha, foi a quantidade de objetos cênicos. “Era um cenário para cada cena. Levar tudo aquilo seria muito custoso.” O ator lembra que Garrincha não foi o primeiro ícone cogitado para a criação da peça de Wilson. “Falaram em Macunaíma, mas alguém conseguiu tirar isso da cabeça dele”, diz.

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