Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Ator Marcelo Serrado estreia em São Paulo a peça 'Os Vilões de Shakespeare'

Trata-se de uma espécie de conversa informal em que um palestrante apresenta e interpreta grandes personagens shakespearianos marcados pela vilania

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2018 | 06h01

Era 2013. Marcelo Serrado encenava Rain Man quando seu diretor, José Wilker, lhe apresentou um instigante texto inglês, Shakespeare’s Villains, monólogo criado em 1998 pelo britânico Steven Berkoff e que apresenta, de forma didática e bem-humorada, os principais malvados das peças do bardo.

“Fiquei empolgado com a ideia e com as diversas possibilidades dramáticas”, conta Serrado, que pretendia ser novamente comandado por Wilker. A morte do colega em 2014, no entanto, adiou o projeto até o ano passado quando, para comemorar seus 30 anos de carreira profissional, Serrado estreou no Rio, agora sob a batuta de Sergio Módena. Mais de cem apresentações depois em palcos cariocas, o ator chega a São Paulo com Os Vilões de Shakespeare, no sábado, 3, no Teatro Eva Herz.

Trata-se de uma espécie de conversa informal em que um palestrante apresenta e interpreta grandes personagens shakespearianos marcados pela vilania: Iago (de Otelo), Ricardo III, Shylock (O Mercador de Veneza), Oberon (Sonhos de Uma Noite de Verão), Coriolano, Macbeth e até Hamlet, habitualmente visto como o mocinho.

“Mas, obcecado pelo assassinato do pai, ele provoca a morte de várias pessoas em sua busca de vingança”, justifica Serrado, que se desdobra em cena para viver cada um com personalidade própria. “É fascinante representar vários vilões, pois todos carregam arquétipos variados: há o dissimulado, o tirano, o vingativo. Por meio deles, Shakespeare mostra as causas e os motivos e também dá uma justificativa, para que possamos compartilhar uma jornada psicológica em vez de simplesmente condenar a maldade.”

William Shakespeare é um autor seminal na literatura inglesa e cujo estudo da obra é praticamente obrigatório nas escolas. “É um escritor sacralizado e, portanto, somente aqueles que o conhecem profundamente é que têm o ‘direito’ de brincar com seus textos. Foi o que fez Berkoff, que tornou o texto shakespeariano mais próximo e interessante do público moderno”, observa Sergio Módena que, para conquistar o mesmo efeito em plateias brasileiras, apostou em uma bem-humorada direção.

Para isso, contou com a preciosa colaboração de um especialista em Shakespeare (já traduziu oito peças), o poeta e dramaturgo Geraldo Carneiro que, em sua versão do texto, acrescentou situações mais próximas do cotidiano nacional, apresentando não apenas a natureza do mal, como também os pecados do teatro e as vaidades dos atores. É dele, por exemplo, a inclusão de um discurso mais otimista sobre a vilania, presente em A Tempestade, a última peça escrita pelo bardo.

É o que justifica que, em um determinado momento, Serrado brinque com si mesmo ao interpretar um membro imaginário da equipe e que comenta como o ator evoluiu na carreira ao, finalmente, encenar Shakespeare, uma vez que, até então, era só conhecido como Crô, afeminado personagem da novela Fina Estampa (2011/12) que alcançou enorme sucesso.

Em outra cena, abusando da caricatura, Serrado mostra a decepção de um crítico ao vê-lo tratar de Shakespeare – para o analista, o ator ainda não reúne as qualidades necessárias. “Assim como Berkoff brinca com os costumes britânicos, fazemos o mesmo aqui”, comenta o diretor que, aliás, decidiu encerrar o espetáculo com uma canção inspiradora: Sympathy For The Devil, dos Rolling Stones.

Jogo cênico 

A adesão imediata do público ao jogo cênico proposto por Serrado, aliás, explica o sucesso do espetáculo. O monólogo começa com uma fala sinistra de Iago, o que provoca um certo desconforto no ar, mas logo é quebrado quando as luzes todas se acendem e o ator se dirige diretamente à plateia.

“Chegaram bem? Sem susto? No Rio, certamente teriam sido assaltados no caminho”, dispara ele, iniciando uma série de intervenções em que conversa diretamente com os espectadores e cujo auge é atingido quando convida todos a revelarem, em voz alta, os seus vilões. 

São lembrados desde políticos mais conhecidos (como Temer e Lula) até juízes (Gilmar Mendes) e times de futebol. “Certa vez, uma mulher apontou o marido, que estava ao lado. Raramente são lembrados personagens que nos assustam na infância, como a Cuca”, nota o ator que, como fez no Rio, pretende manter os debates com os espectadores após o espetáculo. A ideia é convidar pensadores renomados como Leandro Karnal e Mario Sérgio Cortella para incrementar a conversa.

“São papos estimulantes, que ajudam até a mexer na estrutura da peça”, observa Serrado, que se desdobra em outros trabalhos – logo começará a ensaiar o musical A Noviça Rebelde (no papel do Tio Max) ao mesmo tempo em que finaliza as filmagens de Crô 2, baseado no personagem da novela e com direção de Cininha de Paula, com previsão de estreia em julho. Depois, começa a rodar Você Não Soube Me Amar, de Pedro Amorim, e emenda com a próxima novela das 21h, de Aguinaldo Silva.

TRECHO:

“Antonio tem ar de taverneiro hipócrita! 

Eu o odeio porque é cristão e ainda mais por fazer empréstimos gratuitamente, baixando os juros aqui em Veneza. Se jamais o tiver em meu poder, vou saciar o horror que tenho dele. Tem ódio da nossa nação! Maldiz de mim em meio aos mercadores e diz que os meus lucros são de juros. Maldita seja toda a minha gente se eu o perdoar!” (Shylock)

“Eu, que não tenho belas proporções/Errado de feições pela malícia/Da vida; inacabado, vindo ao mundo/Antes do tempo, quase pelo meio/E tão fora de moda, meio coxo/Que os cães ladram, se deles me aproximo (…) Determinei tornar-me um malfeitor/E odiar os prazeres destes tempos. /Armei conspirações, graves perigos…” (Ricardo III)

 

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