Kim Leekyung
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Ator Duda Mamberti vive papel já feito pelo pai em peça que discute as dores do nazismo

Personagem judeu Dasco Nagy foi interpretado pelo pai do ator, Sérgio Mamberti, morto em setembro

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

14 de outubro de 2021 | 15h08

Quando pisar no palco do Teatro Antunes Filho – Sesc Vila Mariana –, nesta sexta, 15, o ator Duda Mamberti, de 56 anos, sabe que vai experimentar uma sensação desconhecida em mais de três décadas de carreira. 

Como o judeu Dasco Nagy, protagonista do espetáculo O Ovo de Ouro, o artista deve desafiar as próprias emoções na pele do último personagem representado em um palco pelo pai, o ator Sérgio Mamberti, que morreu, aos 82 anos, em 3 de setembro, por causa de uma infecção pulmonar. “Não carrego a pretensão de levantar o bastão do meu pai porque sei que é impossível, mas vou sentir um peso, uma pressão que vai me tocar em pontos que nem imagino”, reconhece.

A peça, escrita por Luccas Papp e dirigida por Ricardo Grasson, abre a temporada presencial do Sesc Vila Mariana em sessões nesta sexta, 15, e no sábado, 16, às 21h, e domingo, 17, às 18h, com ingressos a R$ 40. Nos dias 23 e 24, será a vez do Sesc Santos e, em novembro, São José dos Campos e São Carlos, com a previsão ainda de uma turnê nacional em 2022. 

O drama remete a um trauma histórico, o Holocausto. Nos dias de hoje, Dasco Nagy relata a uma jornalista (papel da atriz Rita Batata) as experiências dolorosas do nazismo e sua contribuição involuntária ao sistema. Ele serviu ao sonderkommando, unidades formadas por prisioneiros para trabalhar nas câmaras de gás e nos crematórios dos campos de concentração. Leonardo Miggiorin, Ando Camargo e o próprio autor, que interpreta Dasco na juventude, completam o elenco.

Duda se lembra bem quando, em meados de 2019, o pai recebeu o texto de O Ovo de Ouro e começou a estudá-lo com sua ajuda. Os dois decoraram os diálogos, discutiram bastante sobre o personagem e relembraram histórias que remetem à família. 

Referência na família. A atriz Vivian Mehr (1942-1980), mãe de Duda, teve uma criação judaica tradicional e o pai dela, David, fez questão de passar seus conhecimentos aos netos, Duda, Carlos e Fabrício. “O meu pai, que interpretou vários judeus ao longo da carreira, usava meu avô como referência e, neste espetáculo, não foi diferente”, conta. “Agora, vai ser o meu momento de pensar nos dois e dar meu tempero ao personagem.” 

Não é a primeira vez que Duda abraça um papel feito por Mamberti. Em 2010, na peça Rancor – Farsa Intelectual, de Otavio Frias Filho, ele assumiu o tipo defendido pelo pai em 1993. O famoso Dr. Victor do programa Castelo Rá-Tim-Bum também ganhou a cara e o corpo de Duda na versão para o teatro musical em 2019, mas foi na televisão que pai e filho dividiram, em fases diferentes, o melhor personagem, Dionísio Albuquerque. O vilão da novela Flor do Caribe, exibida pela Globo em 2013, era um ex-carrasco nazista que morava no Brasil. “Um cara horroroso, sem escrúpulos, que se aproveitava da fragilidade dos judeus para extorqui-los”, define Duda. “Em uma das cenas mais pesadas, eu gravei com uma camiseta que trazia a estrela de Davi por baixo do figurino para exorcizar as atrocidades que fazia como aquele monstro.”

A estreia de Duda como artista foi na cena final do filme Todas as Mulheres do Mundo, dirigido por Domingos Oliveira em 1966. Ele é o bebê carregado no colo pelos atores Paulo José e Leila Diniz. Pouco depois, na peça Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, que tinha seu pai no elenco, o comediante Agildo Ribeiro atravessa o palco com um carrinho de nenê – e lá dentro estava o pequeno Mamberti. 

Durante a temporada de O Balcão, entre 1970 e 1971, ele ficava nas coxias brincando com os filhos de outros artistas e se assustava com o ensurdecedor barulho do elevador cenográfico da montagem. “Eu sempre enxerguei meu pai como um ator, mas só comecei a entender os trabalhos dele nas peças Réveillon, O Diário de Anne Frank e A Infidelidade ao Alcance de Todos, quando tinha uns 11 anos e acompanhava todas as sessões de domingo.”

Nenhuma dessas histórias é trazida à tona com tristeza. Duda não sabe se ainda não caiu a ficha da perda do pai, mas confessa que se conformou, compreende o inevitável da morte. “Entre 1975 e 1982, nós vimos morrer a minha mãe e meus quatro avós, então ficamos cascudos, entendemos bem cedo que precisamos guardar na memória as horas de felicidade e meu pai sempre acreditou na alegria”, justifica. 

Nos últimos meses, em meio a quatro internações, Duda acredita que Mamberti percebeu que chegara perto do fim e tentou deixar tudo organizado, como fazia antes de uma viagem ou um trabalho mais extenso. “Ele se despediu dos amigos, escolheu a roupa do enterro e, como sempre teve projetos, sugeriu os atores que gostaria de ver nos papéis que seriam dele e, me disseram, que eu estava em uma das listas.” 

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