LIGIA JARDIM/DIVULGAÇÃO
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Ativistas  e integrantes d'Os Fofos Encenam se reúnem nesta quarta

No encontro, as partes devem decidir como será a discussão após o cancelamento da peça 'A Mulher do Trem'

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

05 de maio de 2015 | 17h57

O Itaú Cultural recebe hoje ativistas do movimento negro e integrantes da companhia teatral Os Fofos Encenam para averiguar os caminhos da discussão que está marcada para terça-feira, 12, na sede da instituição.

Programada para ser apresentada no projeto Terça Tem Teatro, pelo qual o Itaú Cultural apresenta espetáculos grátis semanalmente, a peça A Mulher do Trem, encenada pelos Fofos, foi cancelada após integrantes do movimento negro se manifestarem intensamente nas redes sociais contra o uso da técnica de blackface – quando atores se maquiam de preto para interpretar personagens negros.

Segundo o diretor do Instituto Itaú Cultural, Eduardo Saron, as movimentações nas redes sociais começaram a ser observadas no sábado. No domingo, os Fofos foram chamados para uma conversa e, juntos, decidiram cancelar a apresentação da peça e dar lugar a um debate sobre as questões do movimento negro e da classe artística. “O nosso desejo, sem dúvida, é que a peça seja apresentada”, diz Saron ao Estado. “O debate vai gerar reflexão de todas as partes a respeito do fazer artístico e de outras temáticas. Estamos apostando que vai ser um dia de construção.”

Uma das porta-vozes do movimento negro neste imbróglio, a estudante de arquitetura Stephanie Ribeiro estará hoje na sede do Itaú Cultural, ao lado de outros ativistas. “Eles têm de escutar o que vamos falar”, diz. “Vamos ouvir as propostas do Itaú e também queremos fazer propostas. Espero que a conversa seja produtiva.”

Stephanie viu a divulgação da peça no Facebook e, após ver a imagem na qual atores aparecem pintados de preto, escreveu um comentário de protesto que viralizou. “Fiquei brava porque esse é um debate antigo. É uma prática que surgiu nos EUA e que não é mais aceita lá, porque o pensamento evoluiu.” Para ela, o blackface cria a sensação de que existe um modelo único de negro. “É essa ideia de ser alguém com boca grande, espalhafatoso, mal educado, com cabelo black.”

A militante confessa que não viu o espetáculo, mas diz que ficou ofendida apenas com o material de divulgação. “Vi um vídeo de 41 segundos no qual a personagem negra era humilhada. Não existe justificativa, foi chocante o que estava ali proposto”, atesta.

Integrante do grupo Os Fofos Encenam, Eduardo Reyes afirma que em nenhum momento a companhia teve a intenção de ofender o público. “Para nós, a máscara é uma tradição da linguagem do circo-teatro”, explica, lembrando que todos os atores da peça são maquiados de maneira exagerada. Após as manifestações nas redes sociais, o grupo entendeu que era melhor abrir para o debate. “Queremos que os dois lados se entendam e queremos saber como o uso da máscara afeta as pessoas”, diz. “Respeitamos as opiniões e estamos de coração aberto, de fato, para ouvir e repensar.”

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