Rafael Arbex / ESTADAO
Rafael Arbex / ESTADAO

'As Três Irmãs' ganha versão com traquitana controlada por ondas mentais

Em entrevista rara, Zé Celso conta sobre a montagem da peça em 1972, sob efeito de alucinógenos

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2017 | 06h02

Nos anos 1970, quando o diretor Zé Celso caminhava pela praia sob efeito de alucinógenos - a mescalina, uma substância extraída do cacto peiote -, ele se deparou com uma gaivota morta. O animal era real e estava inanimado mesmo, mas o que o diretor percebeu a seguir foi capaz de impulsionar a concepção de As Três Irmãs, peça de Anton Chekhov, pelo Teatro Oficina, em 1972. Parte desse relato gravado em uma entrevista no ano de 1995 pelo então jovem estudante André Guerreiro Lopes está presente em Chekhov É Um Cogumelo, peça encenada pelo diretor e que estreia nesta sexta, 25, no Sesc Consolação. 

É bom preparar os sentidos para encarar uma montagem que oferece bem mais que um ouvir um texto clássico. A peça coloca a narrativa do dramaturgo russo no mesmo patamar que o trabalho da iluminação, da cenografia e até mesmo do desempenho das atrizes Helena Ignez, Djin Sganzerla e Michele Matalon. Essa igualdade dos elementos é chamada por muitos de Teatro Total, no qual a experiência teatral não é mediada pelo texto, comum em obras verborrágicas ou de teatro gestual que, nesse caso, abole a palavra falada. “Busquei um espaço para que o público se encaixasse, atraído por sua condição singular de espectador”, afirma o diretor. “Na peça, o cenário é texto, a luz é texto, o texto também é texto junto com as projeções, o que faz dessa experiência algo que só pode ser visto no teatro.”

Por outro lado, ele afirma que a encenação, que por vezes beira a uma instalação com performances, conquista uma concretude por perseguir um modo mais tradicional de encarar os textos de Chekhov no mundo. “Os elementos cenográficos no palco são concretos, eles existem e estão lá. A fuga está no acúmulo de solidão, com pessoas sozinhas, em grupo.”

Em cena, o trio sobrevive num passado que existe na memória de sua infância em Moscou. A lembrança doce atiça o presente e provoca o desejo por retornar à capital distante na expectativa de que o destino das irmãs seja mudado. O cantor Roberto Moura paira com o trio e os bailarinos Samuel Kavalerski e Fernando Rocha surgem para ameaçar a urgência da família. No proscênio, o diretor acompanha a peça usando um capacete de eletrodos que movimenta uma instalação sonora (leia ao lado). Lascas de madeira e varas de cobre distorcem a perspectiva da caixa cênica quando são balançadas por Djin. “É uma história em que sobram apatia e falta de esperança”, diz Lopes.”

Para Helena, entender o tamanho da empreitada permitiu uma criação particular. “Desenvolvemos uma consciência cênica para interagir melhor com o conjunto”, explica, enquanto comemora a recente seleção de seu filme, A Moça do Calendário, para o Festival de Cinema de Brasília. “O texto na peça está em lugar de um intimismo e a expressividade do ator passa pelo corpo e pela voz.” 

A importância do vídeo com o diretor do Oficina - que, na conversa, acaba batizando, sem saber, o nome da peça - recupera uma memória que confirma o período mais crítico para as artes no País. “Depois que muitos artistas se exilaram, Zé Celso continuou aqui segurando a barra na ditadura e liderando o desbunde que foi a reação política”, acrescenta Helena. Para Lopes, o momento atual de desmonte da cultura coloca o diretor do Oficina como ícone de resistência. “Ele se tornou patrimônio de todos nós. Ao contar como foi a criação de seu espetáculo, ele ultrapassou o tempo e nos ajudou a sonhar com o futuro.”

Peça movida pelo poder da mente

Ansiedade é uma coisa que, além de não fazer bem à saúde, não serve para nada, muito menos para as artes. Isso fica claro quando o diretor André Guerreiro Lopes veste um capacete com eletrodos e informa que suas ondas mentais vão interagir com uma instalação sonora criada para o espetáculo. Mesmo sendo um dia de ensaio, nada pode acontecer também.

Antes de se acomodar no proscênio, em posição de meditação, ele enche quatro bandejas com água. Cada uma está liga a um alto-falante de carro. O sistema desenvolvido pelo diretor musical Gregory Slivar captura as atividades mentais geradas pelo cérebro do diretor e as encaminha na forma de vibração. Ao lado, um conjunto com tubos de metal também está conectado, pronto para ser acionado pelo mente de Lopes.

A peça prossegue com um trilha sonora que não parecer vir de lugar nenhum, talvez das coxias. A autoria é dos Embatucadores, projeto social de música com jovens do Jardim Vista Alegre, zona norte de São Paulo. “Foi com eles que descobri que a peça não poderia terminar sem um futuro de esperança”, explica Lopes, que conheceu o projeto num domingo na Avenida Paulista. “A presença deles não se trata de uma trilha sonora nem de tecnologia. É algo que nem o teatro seria capaz de fazer."

CHEKHOV É UM COGUMELO

Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245. Tel.: 3234-3000. 6ª, sáb., 21h. Dom., 18h. R$ 40. 

Estreia Sábado (25/8). Até 8/10

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