Piotr Lis Biernikowicz
Piotr Lis Biernikowicz

Crítica: 'As Criadas' subverte Jean Genet sem trair seu espírito

Coprodução de Brasil e Polônia, montagem arrebata pelo rigor da encenação e afinação do elenco

Maria Eugênia de Menezes, ESPECIAL PARA O ESTADO

04 Agosto 2017 | 20h03

O palco é um lugar vizinho à morte. No teatro, acreditava Jean Genet, o homem pode se conceder todas as liberdades, mesmo as mais terríveis. Em As Criadas, texto que o francês escreveu durante uma de suas muitas passagens pela prisão, duas irmãs revelam seus desejos inconfessáveis. Empregadas de uma casa burguesa, elas ensaiam insultos à patroa e planejam sua morte. Estranhamente, dirigem a essa figura tanto a bile quanto o fascínio, devotas que são de seus gestos elegantes, de seus vestidos e joias. 

Com direção do polonês Radoslaw Rychcik, a versão em cartaz no Sesc Santana lida habilmente com o jogo de espelhos proposto por Genet. O lugar de poder da dona da casa só existe em relação a suas subalternas, assim como a opressão das criadas é uma condição simbólica alimentada por ambas as pontas dessa cadeia. A escolha do elenco cria uma interessante dissonância à proposta original: Bete Coelho e Magali Biff interpretam as criadas Claire e Solange, Denise Assunção surge como Madame. A escolha de uma atriz negra para esse papel - o de personagem admirada e temida - cria uma primeira camada de deslocamento. 

A opção poderia sugerir uma fácil inversão de papéis. Servos brancos para senhores negros. Mas essa sensação de que algo está fora da ordem não se encerra aí: será acentuada pelas opções do encenador para cada uma das interpretações. Atriz e cantora, Denise Assunção se coloca como uma divindade em cena. Não é possível observar outra coisa quando ela surge. Seu figurino, sua voz e seu corpo levam o espectador a supor estar diante do além do humano. Uma entidade poderosa, mas não santificada. Madame é tão cheia de caprichos e veleidades quanto são os deuses gregos ou os orixás. 

Existe uma dimensão de ritual religioso em todo o teatro de Genet que o diretor contempla ao enveredar por uma encenação estilizada e formalista - traço, aliás, que notabilizou o moderno teatro polonês na cena internacional. No palco nu, há apenas três poltronas. Mesmo nas cenas mais violentas, as atrizes não se tocam. Seus movimentos são rigorosamente medidos, quase coreografados, e o diálogo das duas irmãs é pontuado sempre por dois tons: o grave de Magali Biff a contrapor-se aos agudos construídos por Bete Coelho. 

Especialmente pungente em As Criadas, a questão social não será discutida ou problematizada pelas vias convencionais. Não há discurso sociológico que possa dar conta do que esse autor movimenta. A potência lírica de sua narrativa minimiza os acontecimentos, arrasta a ação para uma atmosfera de delírio. Na montagem de Rychcik, o impulso de morte se aproxima do desejo erótico; não assistimos a algozes e vítimas em cena. Mas a duplos codependentes.

Amplamente explorada pela psicanálise e pela literatura fantástica, a questão do duplo se manifesta com frequência também no teatro. O mais eloquente exemplo disso talvez seja a Comédia dos Erros, na qual Shakespeare multiplica os gêmeos patrões em gêmeos empregados. Mas o humor é apenas um dos efeitos do duplo. Em As Criadas, o espelhamento entre as personagens - Solange finge ser Claire que, por sua vez, assume o lugar de Madame - serve para instaurar o sinistro. Essas mulheres se vestem e despem de muitas máscaras. Usam as roupas da patroa, procuram reproduzir seus comportamentos. Acendem o terror da despersonalização que assombra todos nós.

A indústria cultural alimenta o fascínio pela violência. Incontáveis são as obras recentes do cinema e da televisão diante das quais se poderia falar de espetacularização ou banalização do crime. Mas Genet não idolatra o crime, ele ama os criminosos. Acredita no sacrifício. A cena final de As Criadas é uma imagem de redenção: Magali Biff surge como uma assassina redimida e coroada. 

Filho de uma prostituta e de pai desconhecido, o escritor passou boa parte da vida em reformatórios e prisões. Tornou-se figura influente no meio intelectual parisiense, amigo de grandes filósofos como Jean-Paul Sartre e Michel Foucault, nem por isso deixou de se envolver em roubos e confusões. Era um proscrito e trouxe isso para sua obra. Olha para desgraçados, marginais, malditos. Dizia que a beleza estava na ferida. Essa coprodução Brasil-Polônia faz o abscesso aberto por Genet reluzir. 

AS CRIADAS

Sesc Santana. Av. Luiz Dumont Villares, 579, tel. 2971-8700. 6º e sáb., 21h; dom., 18h. R$ 9 a R$ 30. Até 13/8

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