Priscila Prade
Priscila Prade

'As Cangaceiras' é musical que retrata a rebeldia no agreste

Escrita por Newton Moreno, dirigida por Sergio Módena e com Vera Zimmermann no elenco, peça estreia dia 25, no Teatro do Sesi

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

19 de abril de 2019 | 03h00

Quando o produtor Rodrigo Velloni reuniu o diretor Sergio Módena e o dramaturgo Newton Moreno, o objetivo era criar um musical brasileiro que tivesse o cangaço como tema. Entusiasmados, eles começaram as pesquisas e justamente a razoável fartura de documentação revelou-se um empecilho, pois a fidelidade histórica amarrava o projeto. “Percebemos que não poderíamos criar muito, sob a pena de contrariar os fatos. Foi quando começamos a notar a importância, nem sempre destacada, das mulheres naquele mundo puramente machista”, conta Moreno que, com a bênção dos dois parceiros, começou a enveredar pela ficção, mantendo apenas um fiapo de realidade. O resultado é As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão, poderoso retrato feminino que estreia no Teatro do Sesi, em São Paulo, no dia 25 de abril.

Trata-se de uma “fábula-ficção de irredentismo, insurreição e luta”, define Moreno, que tornou particular o termo “irredentismo”, utilizado para identificar os povos que, vivendo em uma terra sujeita à autoridade de outros, lutam para se separar e constituir um próprio estado nacional separado. É o caso do espetáculo As Cangaceiras, que mostra a luta dessas mulheres na conquista de seus direitos diante dos desmandos masculinos. “O cangaço foi uma forma de banditismo brasileiro com um código de ética muito particular”, continua Moreno. “A partir daí, resolvemos inverter os papéis e criamos essa fábula em que a mulher assume o comando. Uma forma de escuta sensível a várias vozes femininas, quebrando o silêncio e falando sobre tantas violências.”

Assim, o público acompanha a trajetória de Serena (Amanda Acosta), que foge de um bando ao descobrir o paradeiro de seu filho, afastado cruelmente por seu marido, Taturano (Marco França), o chefe do grupo. Aos poucos, sua atitude repercute no sertão e encoraja outras mulheres a buscarem a mesma independência, juntando-se a Serena – são elas Mocinha (Rebeca Jamir) e sua mãe Deodata (Vera Zimmermann), Zaroia (Carol Badra) e a Viúva (Luciana Lyra).

“Mesmo não desejando, Serena é obrigada a liderar o primeiro grupo de mulheres cangaceiras do Nordeste brasileiro”, comenta Módena que, em suas pesquisas, além de leituras diversas, visitou a cidade de Piranhas, em Alagoas, que ficou nacionalmente conhecida por sediar um combate entre seus moradores e o bando de Lampião, como era conhecido Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), o líder cangaceiro.

À medida que a construção do texto avançava, tornou-se obrigatória a presença de canções originalmente criadas para a peça, o que se tornou possível graças ao talento de Fernanda Maia, também diretora musical. “Busquei o som que caracteriza a região nordestina, especialmente o sertão, que é de uma riqueza ímpar, recheada de personalidade, identidade, poesia e, ao mesmo tempo, muito paradoxal”, conta ela, que trabalhou com Moreno no ajuste da melodia com as letras, uma extensão dos diálogos habilmente criados pelo dramaturgo, que traz toda a riqueza da oratória nordestina.

“O musical mostra como mulheres que não tinham voz naquele ambiente conquistaram seu espaço”, comenta Amanda Acosta. “E a trama reflete bem o que acontece hoje, com o crescimento da importância feminina.” Na verdade, uma justiça histórica a ser feita, segundo Rebeca Jamir. “Afinal, as mulheres estiveram presentes em todos os grandes momentos da humanidade – mas raramente com protagonismo”, observa ela. “E nada melhor que o cangaço, que era uma forma de contestar o poder, para exemplificar essa luta”, completa Luciana Lyra.

Amanda, Rebeca e Luciana se unem a Carol Badra e Vera Zimmermann na formação de um bando especial. “É um grupo ficcional, mas que, unido, consegue dar o grito de afirmação, permitindo que uma porta se abra para nós”, comenta Carol, cujo personagem, Zaroia, traz outro toque de modernidade, ao descobrir sua afeição por mulheres.

“Ao final, mais que uma briga de gêneros, o que se sobressai é a luta pelo respeito”, afirma Jessé Scarpellini, que une docilidade e aspereza na concepção de Namorado, o rapaz que se engraça por Mocinha. Ele é um dos cangaceiros que respondem a Taturano que, após a morte de Lampião, ambiciona ser o Rei do Cangaço. Seu vigor é uma das marcas da bela interpretação de Marco França, cuja voz tonitruante em nenhum momento se assemelha a um grito. “É importante que a sofisticação da linguagem seja bem captada”, diz ele. “A dramaturgia traz um encadeamento de palavras que se aproxima de Shakespeare no uso dos versos e na forma distinta de falar entre ricos e pobres.”

E, apesar de a trama se passar no início do século passado, uma atemporalidade insiste em passear por entre as cenas, tornando-as repentinamente atuais. “Esse é um trabalho profundo, pois, embora falemos de cangaço, poderíamos estar tratando de milícias e traficantes”, analisa Amanda. E é o que fará As Cangaceiras ocupar um lugar especial entre os musicais brasileiros – será como se o gênero recebesse a transfusão de sangue novo, que despertará o público para as infinitas possibilidades não apenas do teatro, mas principalmente do mundo que está lá fora.

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