Marcelo Vitorino
Marcelo Vitorino

Artistas paulistanos criam estratégias de sobrevivência diante do isolamento social

De olhos abertos para o contexto, espaços culturais e companhias buscam soluções para fortalecer profissionais da dança e o entorno

Fernanda Perniciotti ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2020 | 12h54

Venda de marmitas vegetarianas, ajuda de familiares e remunerações do ano passado – esses têm sido alguns dos modos que os artistas da dança, na cidade de São Paulo, diante da precariedade imposta pela crise do novo coronavírus, encontram para sobreviver.

Decorrente do isolamento social, a falta de pautas em teatros, com os espetáculos suspensos e/ou cancelados, impede que esses profissionais recebam cachês. E as parcelas de projetos já aprovados, que exigiam apresentações públicas para concretizar seus pagamentos, também não vão acontecer.

É o que explica Estela Laponi, de 46 anos, dos quais 28 em experiência artística, com trânsito entre as áreas da dança, do teatro e do cinema: “Sou uma artista independente, que vive de projetos aprovados em editais e venda de espetáculos para Instituições públicas e privadas. São as minhas fontes de renda. Em termos do que está acontecendo no panorama nacional, é interrupção total. Realmente, não tem de onde vir nenhum tipo de remuneração”.

A situação inusitada aproxima Estela, uma veterana de trajetória consolidada, de Julia Lima, 21 anos, jovem bailarina paulistana em início de carreira, que teve planos frustrados: “A gente (Grupo de Pesquisa Mercearia de Ideias) tinha acabado de ganhar um edital bem importante, o Iberescena, que tem como proposta colocar em contato dois lugares do mundo. A nossa parceria foi com a Espanha. Só que, diante da situação da Europa, logo veio a notícia do adiamento do projeto”. Além disso, conta que teve toda uma circulação de espetáculos pelo estado de São Paulo cancelada e, atualmente, também não tem fonte de renda.

De olhos abertos para o contexto, artistas da dança perceberam que, antes de “criar soluções”, era necessário conhecer a demanda real, ouvir as histórias, entender o que, de fato, tem acontecido, para além das suposições, em uma metrópole de mais de 12 milhões de habitantes. Para isso, o Museu da Dança (MUD), a Cooperativa Paulista de Dança (CPD) e o movimento A Dança se Move se juntaram para organizar o “Mapeamento emergencial de artistas da Dança da cidade de SP”, com o intuito de levantar dados sobre os profissionais da área e a situação atual da produção paulistana de dança.

Planejaram duas linhas de frente, sendo a primeira, em caráter de urgência, dada a precariedade em que já estão vivendo inúmeros artistas: a criação de uma campanha de financiamento coletivo, “SOS Dança Cidade de São Paulo”. O dinheiro arrecadado será direcionado para ajudar os artistas que declararem, no mapeamento, que não dispõem de qualquer suporte financeiro para a sua subsistência.

Em Ermelino Matarazzo, por exemplo, periferia da Zona Leste de São Paulo, o mestre Pedro Peu, de 47 anos, diretor do grupo Batakerê, que trabalha há 30 anos com danças afro-brasileiras, mostra que, nas áreas menos assistidas da cidade, a questão é realmente urgente: “É pior ainda na periferia, porque a gente não consegue ter fundo de caixa. Numa situação dessas, não tem de onde tirar, nem pra quem pedir. Como nossas ações são sempre em conjunto com a comunidade, a gente precisa se ajudar mesmo”. Na esteira de várias iniciativas que têm acontecido, o Batakerê realiza um projeto de arrecadação de alimentos e produtos de higiene para a população da região em que atua.

Pensando em médio/longo prazo, a segunda iniciativa, que ainda está em início de negociação, é igualmente importante: criar uma plataforma com o histórico dos artistas da cidade, em parceria com o poder público. O objetivo pretende que os dados sejam ampliados e fiquem disponíveis aos cidadãos e gestores, de modo a construir uma memória da dança na cidade e vislumbrar a possibilidade de elaborar políticas públicas a partir de evidências.

Talita Bretas, diretora do portal MUD, explica porque foi necessário criar duas frentes de ação: “O contato com o Estado, apesar de primordial, tem trâmites mais demorados, processos de diálogo mais longos. Por isso, pensamos em tentar um fundo, pela iniciativa privada e por pessoas físicas, a partir de um financiamento coletivo. São ações complementares, uma coisa não anula a outra, mas agora a gente precisa de uma ação efetiva e rápida. É um momento de solidariedade”. Trata-se de uma iniciativa pioneira na dança, que reunirá a colaboração entre iniciativa privada, sociedade civil e poder público – o tripé que estrutura as políticas culturais, e que, mais do que nunca, neste momento, precisa mesmo se investir do papel de ser pilar de uma possibilidade de sobrevivência. 

 

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