ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

Artistas de musical contam como enfrentaram a falta de ocupação e o isolamento na pandemia

Atividades como dublagem, locução, pesquisa e até lançamento de álbum ganharam novo espaço sem os palcos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2020 | 05h00

A noite do sábado 14 de março está gravada na memória de muitos artistas. “Estávamos no intervalo da segunda sessão do dia do musical Silvio Santos Vem Aí! quando vi no Instagram que os teatros seriam fechados por causa da pandemia do novo coronavírus”, relembra o ator Velson D’Souza, que interpreta o protagonista. “Aquela era apenas nossa terceira apresentação e não mais faríamos”, completa Ivan Parente, que vive o jurado Pedro de Lara.

No mesmo dia, o elenco do luxuoso Charlie – Fantástica Fábrica de Chocolate, o Musical entendeu que a estreia, prevista para a semana seguinte, não mais aconteceria. “Foi uma tremenda puxada de tapete, pois o espetáculo estava ficando maravilhoso”, lamenta-se Rodrigo Miallaret. “Já estávamos nos detalhes finais”, concorda a atriz Sara Sarres.

O que esses quatro e outra centena de artistas logo perceberam é que o período de isolamento social seria maior que dois ou três meses. Na verdade, não há um tempo definido. Assim, passado o primeiro impacto, cada um concluiu que a sobrevivência dependeria de outras ocupações, adaptáveis às condições individuais. Miallaret, por exemplo, valeu-se de sua experiência como dublador para tomar uma medida de peso: transformou o espaço ocioso existente embaixo de uma escada de sua casa em um estúdio de gravação.

“Eu não pensava em construir algo agora, era um plano a médio ou longo prazo”, comenta. “Eu nem sabia como montar, mas a pandemia me incentivou a consultar internet e amigos que já têm estúdio. Ao final, encomendei tudo pela internet: microfone, interface, isolamento acústico.”

Terminado o trabalho – que ele realizou sozinho –, veio o primeiro teste: checar se o áudio tinha a qualidade mínima exigida pelos estúdios que fariam as encomendas. Com a aprovação conquistada (feito que muitos outros não conseguiram), Miallaret passou a trabalhar. “Já cantei, fiz dublagem, locuções”, conta ele, que até nomeou o espaço: Miallaret Bunker. “Agora, é a minha fonte de renda, fundamental para eu continuar minha carreira de artista neste momento tão conturbado.”

Utilizar as qualidades pessoais como forma de trabalho também inspirou os demais atores. Sara Sarres, por exemplo, buscou aprofundar o conhecimento sobre um de seus mais preciosos bens: a voz. Responsável por cantos memoráveis em musicais como West Side Story e, recentemente, Escola do Rock, Sara exibe uma invejável extensão vocal, atingindo notas que poucas alcançam. “Desde que comecei minha carreira, em Brasília, sempre me interessei em estudar a voz”, conta ela que, durante a turnê internacional de O Fantasma da Ópera, em 2016, quando interpretou Christine, decidiu fazer um curso específico, em Londres.

“Eu me aprofundei no conhecimento da fisiologia da voz, busquei entender melhor a ciência dessa arte”, conta ela, que logo ingressou em um curso superior, na Santa Casa de São Paulo. Com a pandemia, Sara logo percebeu a importância de seu ensinamento. “O mundo se refugiou em aulas, as pessoas buscaram aprender a cantar para se profissionalizar ou mesmo em busca do conforto que a música traz.”

Assim, ela passou a encarar uma extensa jornada de trabalho, chegando a 18 horas, com seis a dez aulas por dia, cada uma durando uma hora. “É cansativo, mas aprendo muito com a troca com os alunos”, comenta Sara, que utilizou o mesmo conhecimento como jurada do programa Talentos, da TV Cultura.

A ocupação do tempo, aliás, despontou como necessidade básica para os confinados. “Comecei a mexer nas coisas em casa para ocupar o tempo e ganhar algum dinheiro – afinal, 100% do meu trabalho sempre foi fora de casa”, observa Ivan Parente, que sofreu no início do isolamento. “Depois de dois meses trancafiado, desenvolvi um sentimento de pânico ao sair – tive taquicardia no supermercado.” A tranquilidade veio quando encontrou o master de um CD com composições próprias, produzido entre 2008 e 2010.

“Na pandemia, decidi fazer o CD. Meu produtor, Charles Dalla, remasterizou aquele original em plataformas atualizadas. Relembrei um trabalho delicado, feito com parcerias e com canções que falam de amor. Também desengavetei músicas que fiz com meu pai em 1984 e 85”, conta Ivan, que desenvolveu ainda trabalhos de dublagem e no streaming, como a série Home Office.

Aqui entra também a participação de Velson D’Souza, que assumiu diversas funções na série criada pelos produtores Marília Toledo e Emílio Boechat, preocupados em manter ativos os atores do musical Silvio Santos Vem Aí!, interrompido após três sessões pela pandemia. Foram dez episódios semanais, com duração de 5 a 7 minutos cada, exibidos em maio. “Ajudamos psicologicamente o elenco”, comenta Velson, que utilizou na produção seu conhecimento técnico (além de ator, é dono de produtora nos EUA, onde vive há dez anos). “Na pandemia, tive uma sacada: passar o conhecimento que adquiri lá fora. Percebi que era o momento. Conversei com institutos e passei a dar aulas. Salvou muito minha alma de artista.”

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