Matthias Horn
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João Wady Cury
Palco, plateia e coxia
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ArCênico: Berliner Ensemble mostra potência à beira dos 70

Berlim – O teatrão criado por Bertolt Brecht e sua segunda mulher, a atriz Helene Weigel, chega ano que vem aos 70 anos de fundação

João Wady Cury, O Estado de S. Paulo

22 Novembro 2018 | 02h00

Berlim – O teatrão criado por Bertolt Brecht e sua segunda mulher, a atriz Helene Weigel, chega ano que vem aos 70 anos de fundação mostrando vigor em suas montagens recentes na capital alemã. A última delas, Die Verdammten (O Maldito), que estreou há duas semanas no Berliner, é potência pura – do cenário simples, formado por uma mesa colocada em diagonal no palco giratório e um lustre majestoso emitindo uma luz azulada, à atuação do elenco encabeçado por Wolfgang Michael, Martin Rentzsch e Corinna Kirchhoff. A montagem é baseada no filme Os Deuses Malditos, de Luchino Visconti, lançado em 1969 e indicado para o Oscar naquele ano. A direção da encenação é de David Bösch, que tratou a peça a partir da intenção de Visconti de criar um Macbeth moderno. Conseguiu. O sangue esguicha aos borbotões e lava o palco de meigas e doces hemácias. Não é para qualquer um. A quem interessar possa, o Berliner Ensemble, como a maioria dos grandes teatros alemães, é estatal.

CORRUPÇÃO E NAZISMO 

O Maldito trata do envolvimento de uma família alemã corrupta, os Essenbecks, ligada à indústria, no período da ascensão de Hitler e do nacional-socialismo. E discute o fascínio dessa elite pela ideologia e política em momentos de instabilidade no país. O diretor David Böesch fez carreira encenando óperas em teatros de Munique, Dresden, Antuérpia e Londres.  

VELAS E BOLINHO 

Para o ano que vem o Berliner planeja um pacotão colossal para comemorar os 70 anos de vida com as estreias de 15 novas montagens, segundo seu diretor artístico, Oliver Reese. “É teatro para estes tempos dramáticos, fazendo perguntas para a nossa sociedade e lidar com a nossa realidade cotidiana e, no centro desse teatro, nossas atrizes e atores”. Tudo a ver. O Berliner é fundado na dramaturgia e na atuação, não poderia ser diferente. Então, seguindo essa linha em 2019 desfilarão pelos palcos do teatrão a adaptação de Macbeth, do bom e velho Will Shakespeare, feita por Heiner Müller e dirigida por Michael Thalheimer. E a nova produção de Frank Castorf para o Berliner da peça Galileu Galilei, de Bertolt Brecht. E tem muito mais de onde saiu isso, algo que talvez mereça uma internação em Berlim por todo o ano que vem. 

MAIS BERLIM  

A capital alemã não vive somente do Berliner. Hoje o Schaubühne, outro teatro estatal, tem peças instigantes para todos os gostos, como a que estreou no início do mês, Im Herzen der Gewalt ou História da Violência (acima). A montagem é baseada no romance do escritor francês Édouard Louis e é dirigida por Thomas Ostermeier. Lançando mão de recursos de vídeo durante toda a encenação, História da Violência é uma narrativa potente sobre a história vivida pelo escritor, a partir do envolvimento com um homem argelino na Place de la République, em Paris, após sair de uma ceia natalina. Ao chegar em casa, sofre ameaças, violências e estupro. Racismo e migração estão no centro do palco – temas atuais nos quatro cantos deste mundão de hoje. 

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