Maurício Pokemon
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Após estreia em Teresina, espetáculo de dança 'Invenção da Maldade' segue para a Europa

Obra do coreógrafo piauiense Marcelo Evelin reflete sobre a presença do mal nas relações humanas e os desafios da convivência

Fernanda Perniciotti  , Especial para o Estado

13 de abril de 2019 | 03h00

Foi a cidade de Teresina (PI), fora do eixo Rio-São Paulo, que recebeu o início da temporada de A Invenção da Maldade, que ficou em cartaz entre 4 e 7 de abril, criação da Demolition Incorporada, de Marcelo Evelin, um dos 109 projetos contemplados entre 12.616 inscritos no Rumos Itaú Cultural 2017-2018.

O local da estreia não foi por acaso. Apesar de ter uma carreira fora do Brasil desde 1986, o piauiense Marcelo Evelin passou a desenvolver, a partir de 2006, trabalhos em sua cidade natal, Teresina. O mais emblemático deles foi o Núcleo do Dirceu (2006- 2013), coletivo de artistas que promoveu uma série de ações e se destacou no circuito cultural nacional. “O Núcleo foi, talvez, o projeto mais importante da minha vida, porque extravasou a ideia só estética ou conceitual de fazer arte. Estabelecemos uma relação de autonomia entre artistas”, afirmou Marcelo.

A escassez das políticas públicas culturais que assola o Piauí e o Brasil motivou Marcelo e a produtora Regina Veloso a criar o espaço Campo Arte Contemporânea, que abriga artistas em residência. “A gente (o Campo) se entende como uma incubadora de pensar como arte e comunidade podem se atravessar mais. O contexto é o de não existir políticas públicas, então, cabe a nós assumir isso, porque, se não, o que a gente faz não acontece”, explicou Regina.

A Invenção da Maldade pretende orbitar entre as noções de ritual, alteridade, desumanização e maldade como condição humana. É uma criação que conta com um grupo de artistas vindos dos vários Brasis: São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Piauí, e de outros países: Polônia, Itália, Bélgica, Japão e Dinamarca. As diferenças culturais, para Marcelo, fomentam “o estar junto na diferença”.

O título do trabalho vem de uma lembrança da sua infância, quando brincava de teatro no quintal de casa, e a avó dizia: “Vai começar a invenção da maldade”. “A maldade sempre foi uma possibilidade não aceitável, porque, nos anos 1960, não daria para um filho homem, de um pai militar, ficar brincando de fazer teatro. Acho que, neste momento político, o que a arte pode fazer é trazer outros paradigmas para a gente viver no mundo. O lugar de subversão da Invenção da Maldade é o de abrir um espaço”, enfatizou.

Depois de Teresina, a temporada segue para a Europa.

Ajustes. Em cena, a ideia de ritual já está convocada a partir da caminhada inicial de Rosângela Sulidade. Como uma suspensão no tempo, o deslocamento pelo espaço, com uma vara que chicoteia o vento, em passos curtos que se apossam do ambiente como quem dele tem direito, materializa uma tensão contida que parece pronta a explodir.

O encontro com o grupo, no entanto, oscila entre o peso necessário à condição de irrupção e certa imagem de intensidade que não se concretiza no movimento. Os performers parecem se perder, em alguns momentos, na relação com o todo e recaem em um mover quase banal, que se agrava à medida da exaustão. Apesar disso, o elenco é visivelmente comprometido com a proposta, e talvez a própria proposta precise de ajustes que esclareçam os enlaces dramatúrgicos, as transições.

A concepção do trabalho, que propõe uma plataforma imagética com símbolos como a fogueira, a religiosidade, a ancestralidade, alguns já explorados na trajetória de Marcelo, requer o cuidado de não ceder à armadilha de cair nos maneirismos das criações contemporâneas.

A trilha sonora, assinada por Sho Takiguchi, sustenta a composição, do início ao fim. A sincronia entre os 70 sinos, a percussão eletrônica – que remete ao tambor – e o som produzido pela batucada nas madeiras constrói uma curvatura de um ambiente sonoro perturbador.

A maldade como transgressão, tecida a partir de uma memória individual, e da fogueira como uma possibilidade de convívio, como memória coletiva, foram disparadores para a criação. Faz lembrar o Carcará, de Chico Buarque e João do Vale, “o pássaro malvado – do sertão”, e talvez nele esteja a metáfora necessária, se não para inventar a maldade, ao menos para recolocá-la enquanto questão.

Dada a relevância das inquietações que movem essa criação, nos cabe aguardar as mudanças que a continuidade da temporada poderá promover. 

 

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